°° Lívia Carter °°°°
Saio do elevador com as mãos doendo e os braços à beira da amputação, afogada em sacolas que mais parecem um aviso explícito do destino: você gastou demais e nem percebeu. Summer, com sua visão romântica e totalmente aloprada do universo, decidiu que eu precisava de algo “especial” para o jantar com Christopher. E por “algo especial”, leia-se roupas íntimas caras o suficiente para financiar a reforma de um cômodo inteiro.
Passei meia hora tentando convencê-la de que eu não ia dormir com ele amanhã. E depois mais uma hora presa com ela dentro de uma loja de lingerie, onde ela analisava cada peça como se fosse uma consultora s****l enviada pelos deuses. No fim, comprei um monte de coisas que provavelmente nunca vou usar e saímos andando pelo shopping como duas mulheres que assaltaram o próprio autocontrole financeiro.
Agora são quase 22h40, caminhamos pelo corredor do prédio e Summer está tão radiante que quase ilumina os tapetes. Ela para em frente à porta do apartamento dela e me encara com aquele sorriso de quem já criou cinco cenários de casamento na cabeça.
— Você vai ficar perfeita naquele vestido — ela declara, cheia de entusiasmo, como se tivesse acabado de descobrir ouro.
Dou risada, mas por dentro estou lamentando cada centavo gasto.
— Não acredito que me fez gastar trezentos dólares num vestido — digo, olhando para a sacola como se fosse um ato de traição pessoal.
— Vai valer a pena — ela insiste.
— Christopher vai ter que fazer valer a pena, literalmente — digo rindo, e ela abre um sorriso malicioso. — Não desse jeito, Summer!
Ela dá uma risada debochada.
— Se você diz…
Abre a porta do apartamento dela. Antes de entrar, vira-se para mim:
— Te vejo amanhã. Não esquece: almoço com meus pais e depois salão.
— Eu jamais esqueceria. Sua mãe me executaria e mandaria minha alma por Sedex para o além — respondo rindo. Summer gargalha, satisfeita com a comparação.
— Bem, levando em conta que o irmão do meu cunhado é praticamente um portal para o paraíso… — ela provoca, e eu reviro os olhos pela milésima vez no dia.
— Boa noite, Summer.
Abro a porta do meu apartamento, exatamente em frente ao dela.
O lugar está mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelos filetes de luz da rua que passam pelas cortinas. E ali, como dois guardiões da noite, estão meus gatos: Sombra, imóvel e observador como um felino místico, e Pantera, que salta do sofá e vem correndo se esfregar em minhas pernas com seu ritual de boas-vindas.
Não acendo a luz. E não, não é loucura — eu simplesmente amo o escuro. Meu apartamento é meu território; conheço cada canto. Mover-me nele sem acender nada é quase meditativo.
Vou até a cozinha, onde finalmente acendo a luz azulada do spot. Coloco ração para os verdadeiros donos da casa porque pretendo dormir como uma princesa medieval em coma induzido — e, para isso, preciso evitar que dois pares de olhos luminosos me encarem às quatro da manhã exigindo comida.
É quando isso acontece.
Um arrepio rasga minha espinha.
Não aquele arrepio leve, não — aquele que paralisa até o ar dentro do peito.
A sensação de estar sendo observada se instala de forma tão densa que quase posso tocá-la.
Então, sinto.
Uma respiração quente contra minha nuca.
Quente e perto demais.
Meu corpo inteiro congela.
— Você deveria ter acendido a luz quando entrou — a voz masculina, rouca, profunda, invade meu ouvido como um sussurro vindo do abismo. — Talvez assim tivesse notado que tem visita.
Puta que pariu.
Não é pensamento articulado, não é raciocínio — é puro instinto, puro pânico pulsando nas veias.
Só consigo pensar uma única coisa:
Fudeu.
Sinto o pânico me engolir inteiro. Meu corpo treme como se não me pertencesse. As pernas cedem. E, no exato segundo em que uma mão pousa nos meus ombros, suave demais para ser ameaça e assustadora demais para ser conforto, eu quebro.
Um soluço preso arranca o ar dos meus pulmões. As lágrimas despencam sem aviso, tão rápidas que chegam a me cegar. Eu não penso, não reajo—eu apenas existo dentro do medo.
— Me… me deixa em paz… por favor… — minha voz falha como vidro rachado.
— Lívia, pelo amor de Deus. Se acalme. Você está segura… — a voz atrás de mim tenta soar firme, mas a preocupação escapa pelas frestas.
Eu não estava segura. Eu nunca estou.
Grito quando braços fortes me envolvem sem permissão, me puxando para um abraço que parece uma prisão.
— ME SOLTA! — o berro sai rasgado, um fio de desespero atravessado por choro. — Me solta, me solta… por favor…
— Não vou te machucar. — ele insiste, a voz trêmula. — Sou eu, Mason. Olha pra mim. Por favor…
Ele me vira de frente, e a lucidez bate c***l, como água gelada no rosto.
Me afasto num pulo, tropeçando nos próprios pés, o coração martelando na garganta. Ele dá um passo. Eu dou dois para trás.
O som do tapa corta o ar como um trovão. Minha mão ainda arde quando ele me encara, atônito.
— Você não tinha o direito de entrar aqui. — minha voz vibra, ainda presa entre o choro e a fúria. — Não tinha o direito de me tocar. Não tinha o direito de fazer isso comigo.
— Eu… eu pensei que você precisasse… Não queria assustar você, eu só… — a hesitação dele joga gasolina no meu fogo.
— Vai embora. — digo, firme como uma sentença. — SOME, MASON. SAI DA MINHA CASA.
— Lívia, por favor…
— VAI EMBORA! — minha voz estoura antes que eu consiga contê-la. — Você já me feriu o bastante pra uma noite inteira… pra uma vida inteira. Vai embora.
Ele dá um passo. E eu, movida mais pelo instinto do que pela lógica, abro a gaveta atrás de mim. Minha mão encontra a primeira coisa que pode me defender.
A faca brilha sob a luz. E eu a aponto para ele sem hesitar.
Mason recua na hora, o rosto pálido, os olhos arregalados.
— Lívia, por favor. Deixe-me explicar… eu não queria lhe causar m*l, eu… eu… — ele passa a mão pelos cabelos, nervoso. — Merda. Eu até trouxe comida. — ergue uma sacola amassada como se aquilo justificasse algo. — Eu só… queria lhe fazer uma surpresa. Queria pedir perdão pelo que aconteceu de madrugada. Eu errei com você, não devia ter agido daquela maneira.
As palavras saem carregadas de receio. Ele parece petrificado, como se qualquer movimento pudesse me fazer avançar de vez.
— Querer se desculpar não lhe dá o direito de invadir meu apartamento. — minha voz raspa como ferro na parede. Dou um passo à frente com a faca firme na mão, e ele recua imediatamente. — Eu poderia ter te matado, Mason. E acredita: eu não ia presa por causa dessa ideia i*****l sua.
— Eu… novamente… peço desculpas… — ele balbucia, pequeno diante de mim, quase encolhido. — Não foi minha intenção.
— Perdoado. Agora some. Eu preciso ficar sozinha. — minha voz sai gélida, afiada como a lâmina que ainda seguro.
Por dentro, porém, o caos ruge. O turbilhão que sempre tenta escapar — aquele que eu passo anos tentando enterrar — desperta como uma fera faminta. Nunca é bom quando isso acontece. Nunca.
— Tem certeza que está bem? — ele pergunta, hesitante, como se estivesse pisando em vidro quebrado.
Respiro fundo, tentando empurrar para o fundo da alma aquela parte minha que queria enfiar a faca no i****a à minha frente só pelo susto que ele me deu. Susto esse que arrancou memórias que eu venho tentando apagar há séculos. Ergo o olhar e o encaro — meus olhos frios, impassíveis, duas janelas para um abismo que ele não faz ideia de existir.
Os olhos de Mason, por outro lado, oscilam entre culpa e vergonha. Algo nisso acende, dentro de mim, um lampejo sádico que eu não consigo — e nem quero — esconder por completo.
— O que realmente trouxe você até aqui? — pergunto, voz firme, controlada, a faca ainda à mostra, brilhando sob a luz fraca da cozinha.
— Eu já disse… eu só vim me desculpar, e… — a explicação morre antes mesmo de nascer.
Reviro os olhos, sentindo a paciência evaporar.
— Mason, pelo tempo em que trabalho para você, seja honesto ao menos uma vez na vida. — aproximo o rosto do dele, encarando-o sem piscar. — O que você veio fazer aqui?
Ele abre a boca, fecha. Abre. Fecha. Repete o gesto várias vezes, como se a verdade estivesse entalada na garganta.
— Mason Miller — digo com uma calma que beira o sobrenatural. — você tem trinta segundos para me dizer o que está fazendo aqui antes que eu chame a polícia. — bato a faca contra o balcão, o som seco estilhaçando o ar. — Tenho certeza que a mídia adoraria ver o CEO da Miller Enterprises sendo preso por invadir o apartamento da própria secretária. Então… vai me contar, ou devo discar?
Ele engole seco.
— Tudo bem… tudo bem… Eu só… — respira fundo. — Christopher me contou que vocês iriam… que você aceitou sair com ele e então…
— Então você cruzou a cidade, invadiu meu apartamento e decidiu aparecer com uma surpresa. — minha indignação sobe como uma maré de veneno. — Tudo isso para quê? Para dizer que eu não sou boa companhia para o seu irmão?
— Não é isso, Lívia. Você entendeu errado. Por favor, tente entender o meu lado. O Christopher acabou de sair de um relacionamento e está se reerguendo agora. Eu não gostaria de ver meu irmão… — ele continua falando, mas cada palavra parece piorar o gosto amargo que sobe pela minha garganta.
Rancor. Amargura. Nojo. Tudo se mistura quando olho para ele.
— Não vou sair com o seu irmão. Satisfeito? Agora, por favor, vá embora. Eu não suporto nem olhar para você e, sinceramente, não pretendo até segunda-feira. — digo, mantendo a postura firme apesar do nó que se forma no estômago.
— Eu sinto muito, Lívia. Você me entende… certo?
— Vá. Embora. Mason.
Ele finalmente desiste. Aquele silêncio derrotado preenche o ambiente enquanto ele se cala, vira de costas e sai pela porta sem olhar para trás.
Corro até a sala, tranco a porta e acendo a luz. E só então vejo: sobre a mesa de centro, a tal “surpresa” — uma sacola de lanchonete — cercada por Sombra e Pantera, farejando curiosas.
O estômago se revira.
Vou direto para o banheiro, caio de joelhos e coloco tudo para fora. O corpo inteiro treme. Cada respiração dói.
Maldita situação.
Maldito homem.
Maldita lembrança que ele me obrigou a reviver.
Ele não faz ideia do estrago que causou. Não sabe o que significa perder o controle assim. Não sabe o que é reviver, mesmo que por um segundo, as mãos que já me machucaram antes. As vozes que já me diminuíram. O terror que eu achava ter superado.
Há anos, estive presa num relacionamento abusivo. As cicatrizes no meu corpo ainda existem, mas as maiores… ninguém vê. E quando Mason invadiu meu apartamento… tudo voltou. A impotência. O medo. O pânico.
Eu não sabia como reagir. Meu corpo sabia, minha mente não. E por um instante eu me senti exatamente como antes: pequena. Sozinha. Desprotegida.
Poucos sabem dessa parte da minha vida: minha família próxima e a de Summer. E eu imploro aos céus para que continue assim.
Levanto devagar, dou descarga e deixo a banheira encher. A água quente toma conta do espaço, vapor subindo pelas paredes. Quando finalmente me deito dentro dela, sinto o calor abraçar meu corpo em contraste c***l com o frio que ficou instalado na alma.
Fecho os olhos.
Respiro.
Submerjo.
Mas nada limpa o suficiente. Nada silencia o suficiente.
E, no fundo, eu sei:
essa noite está longe de acabar.