☆ Livia Carter ☆
"Te busco às 19h." – Chris.
A mensagem piscou na tela do meu celular no exato instante em que cruzei a porta de casa. E, honestamente, eu não tinha a menor vontade de sair. Para lugar nenhum. Muito menos com o irmão do meu chefe maluco.
Mas Chris parecia gente boa o suficiente para arrancar um “sim” de mim. Confirmei que o esperaria e larguei o celular de lado. Fui direto para o banheiro — eu precisava de um banho que lavasse os músculos, a mente, e, de preferência, o fato de Mason estar me lapidando com aquele jeito predador, como se eu tivesse virado alvo… presa… ou qualquer outro termo que caiba nesse circo.
A lembrança veio crua: o banheiro, o vapor, o brilho possessivo nos olhos dele, aquele modo de me olhar como se eu já viesse com etiqueta de propriedade. Eu conheço esse olhar. Já vivi isso antes. E, sinceramente, não tenho a menor intenção de repetir o inferno em looping.
Termino o banho, sigo minha rotina de skincare e escolho algo confortável — quase apropriado para a noite. Um vestido em tom verde-água, sandálias baixas, uma maquiagem leve o suficiente para não sair de cara lavada, e deixo que meus cabelos sequem naturalmente, permitindo que meus cachos ganhem volume e vontade própria.
Eu não faço ideia de para onde vamos. Christopher não deu pista nenhuma sobre o destino e tudo o que me resta é brincar de adivinhação comigo mesma.
Ainda é domingo, a noite está quente, e eu preferiria mil vezes um restaurante à beira-mar com música ao vivo do que aqueles templos engomados onde acompanho Mason em jantares de negócios — aqueles em que até a comida usa terno.
Meu telefone vibra no balcão da cozinha enquanto coloco comida para os meus gatos. Termino primeiro de servi-los — prioridades, afinal eu pretendo dormir hoje — e só então pego o aparelho e desbloqueio a tela.
As mensagens explodem. Uma atrás da outra, em ondas, quase uma avalanche. O nome na tela me faz revirar os olhos com tanta força que quase vejo o próprio cérebro.
》☆《
Demônio — (Mason)
-Por favor, me perdoa, Lívia.
-Eu perdi a cabeça, não deveria ter te tratado daquela forma.
-Eu não sei o que deu em mim.
-Eu fiquei louco com a ideia de outro homem te tocando.
-Por favor, me responde.
-Merda, Lívia, eu só… como você não percebe o efeito que tem sobre mim?
-Me responde, eu preciso saber se você chegou bem.
-Lívia?
-Lívia, me responde.
-Lívia Carter, eu vou arrombar a p***a desse apartamento se você não me responder.
-Custa dizer que chegou bem?
35 novas mensagens.
LÍVIA – Vai para o inferno, Mason.
》☆《
Respondo pela barra de notificações com uma única frase. Volto para a sala e, antes mesmo de me afundar no sofá, a tela acende outra vez: Christopher avisando que chegou. Dou um sorriso pequeno, pego minha bolsa, deixo a TV ligada em algum episódio aleatório de Bob Esponja — porque sim, eu amo, e meus gatos também.
Tranco tudo e sigo para o elevador. Depois de um dia como este, em que tudo simplesmente descarrilou, eu me permito a ousadia de acreditar que ainda posso ter uma noite tranquila em um restaurante. Ou, pelo menos, espero que o universo não esteja de mau humor comigo hoje.
》☆☆☆《
A brisa marítima bagunçava meus cabelos — rebeldes, livres, cúmplices do vento — e eu já havia desistido de tentar domá-los faz tempo. Era quase um pacto silencioso: o mar mexia em tudo, dentro e fora de mim. À minha frente, Christopher sorria com descarada diversão diante da minha irritação, enquanto saboreava sua lagosta como se tivesse todo o tempo do mundo. O riso dele tinha sal, tinha sol, tinha algo perigosamente bonito.
A música ao vivo embalava o restaurante à beira-mar, vibrante e leve, como se alguém tivesse deixado a noite em modo festa permanente. Conversas se misturavam em ondas, copos tilintavam, o cheiro de comida recém-preparada dominava o ar, e o riso de Christopher se encaixava naquele cenário como última peça de um quebra-cabeça.
— Fico feliz em saber que meu desconforto te faz rir — comento, fingindo indiferença, mexendo no guardanapo como se não ligasse, quando na verdade me divertia com o susto dele. Os olhos de Chris se arregalam na mesma hora, e ele faz aquela expressão clássica de “terra, me engole agora”, quase engasgando com a própria consciência.
— Livia… eu… me perdoa, eu não estava rindo do seu desconforto, eu só…
— Eu estou brincando, Chris. Está tudo bem — digo tranquila, levando a taça de vinho aos lábios, sentindo o gosto frutado deslizar pela língua. — Mas, se quer realmente me compensar, pode me contar outra das suas histórias caóticas da universidade.
O sorriso dele se abre sem freios, os ombros relaxam, o corpo inteiro parece desarmar. Então ele começa — e eu sei, pela forma como os olhos dele brilham, que vem bobagem por aí. Conta como decidiu entrar para o clube de lutas da universidade sem o mínimo preparo físico, movido apenas por… coragem? ego? falta de noção? E como foi praticamente nocauteado no primeiro soco, no primeiro treino, na primeira ilusão de grandeza.
Meu riso explode sem culpa quando ele admite que até hoje não sabe o que passou pela cabeça dele para fazer aquilo. A conversa flui fácil, leve, sem esforço — como água escorrendo por entre pedras. Era descontraída, confortável, uma trégua doce depois de tudo o que falamos desde que chegamos.
Antes das piadas sobre faculdade, falamos da vida — essa criatura indomável que muda o roteiro sem pedir permissão. Falamos de escolhas, de rotas tortas, de versões de nós mesmos que ficaram para trás. Chris me contou que é viúvo. Perdeu a esposa há alguns meses e ainda está aprendendo a existir sem ela. A palavra “viúvo” saiu baixa, como quem segura algo com as duas mãos para não derramar dor pela mesa.
Disse que veio para Miami para se afastar de tudo, para respirar em outra latitude, para começar de novo — não por coragem, mas por necessidade. Não conseguia permanecer na mesma cidade onde ela havia falecido; as ruas falavam o nome dela alto demais.
Contei sobre mim também — sobre ter saído de um relacionamento abusivo anos atrás e, desde então, ter aprendido a viver um dia de cada vez, sem prometer nada ao futuro além de presença. Falei da minha família, das bagunças, dos silêncios e risadas, da normalidade imperfeita que toda família carrega como sobrenome.
Chris falou de Mason — e eu quase podia ver o passado deles desenrolando na mesa. A relação conturbada, as disputas veladas, o orgulho dos dois batendo cabeça. Ele pintou Mason Miller como o filho mimado que sempre conseguia o que queria, enquanto ele próprio se colocava no papel do injustiçado. Não funcionou, claro — minha sobrancelha subiu automaticamente. Principalmente quando revelou que sua falecida esposa era ex de Mason. Treta de família daquelas que ninguém tem o direito de julgar… mas que, obviamente, eu julgo em silêncio.
Falou também dos pais que moram no Canadá, das visitas esporádicas, das ligações que às vezes doem e às vezes salvam. E, enquanto ele falava, percebi algo simples e devastador: ali, entre mar, música e vinho, dois sobreviventes conversavam — cada um costurando cicatrizes à sua própria maneira.
E a noite seguiu, como as ondas: indo, voltando, batendo, voltando de novo — e, de alguma forma, tudo fez sentido.
》☆☆☆《
A noite seguia quente e, ainda assim, convidativa — aquela temperatura que abraça sem sufocar. A brisa marítima escorria pela pele, enroscava-se nos meus cabelos e dançava ao redor de nós enquanto caminhávamos pela orla. O som das ondas quebrando ao longe marcava um ritmo próprio, como um coração gigante batendo em câmera lenta.
Depois do jantar, Chris pagou a conta — apesar das minhas tentativas patéticas e insistentes de dividir. Ele apenas sorriu, inclinado para mim, e disse que era “coisa de homem de verdade”. Eu revirei os olhos, é claro, mas não discuti. Alguns gestos a gente aceita, não por obrigação, mas porque é doce ser cuidada de vez em quando.
As luzes dos postes derramavam ouro pálido sobre o calçadão, e a paz frágil que nos envolvia era tão delicada que dava vontade de embrulhar e guardar no bolso. Por alguns instantes, o mundo lá fora deixou de existir: só eu, ele, o mar — e um silêncio bom, daquele que não exige nada.
— Então você simplesmente pulava o muro da escola quando não queria assistir aula, senhorita Carter? — ele pergunta com um falso tom de repreensão que não dura nem dois segundos, porque ele próprio começa a rir. — Não consigo te imaginar sendo rebelde.
— Isso não acontecia sempre… algumas vezes no ano apenas — digo rindo, rendida ao próprio passado. — Isso até o vigia me encontrar e contar à diretora. Fui parar na diretoria e ela chamou meus pais. Eu juro pelos céus, eu não sabia onde enfiar a cara quando os vi entrando na sala.
— É bom saber que eu não fui o único a ter uma fase apocalíptica — ele diz, coçando a nuca, com aquele riso que confessa mais do que ele gostaria.
— Vai me dizer que você pintou o cabelo e, por isso, ficou de castigo? — provoco, leve, arqueando a sobrancelha. Ele ri mais ainda.
— Você duvida dos meus esforços, Lívia. Mas não — ele afirma, estufando o peito de maneira teatral. — Eu não fiquei de castigo por pintar o cabelo. Fiquei de castigo e quase fui mandado para um internato simplesmente por bater um dos carros do meu pai… e quase destruir outros dois. Eu tinha treze anos.
Eu paro. Literalmente paro. Meu corpo trava no caminho e eu o encaro, piscando, tentando entender se ele está falando sério ou se essa é só mais uma lenda urbana da vida dele.
— Em minha defesa, eu tinha assistido a um filme e achei que poderia fazer igual — completa, com a maior naturalidade do planeta.
Ele dá de ombros como quem assume um desastre com orgulho, e o sorriso estampado em seu rosto entrega que arrependimento não é algo que ele carrega. Isso me arranca uma gargalhada sincera, alta, daquela que limpa os pulmões.
Continuamos caminhando, e eu percebo o quanto tudo com ele por algum motivo, parece extremamente fácil.
Paramos em um ponto mais afastado, encarando a imensidão do mar em meio ao silencio quebrado apenas pelo som das ondas, Chris permaneceu com os olhos fixos no oceano escuro, as mãos nos bolsos e uma postura incrivelmente relaxada.
Paramos em um ponto mais afastado, onde a cidade parecia apenas um eco distante. Diante de nós, a imensidão do mar respirava — escuro, vivo, profundo — e o silêncio era quebrado apenas pelo som das ondas se desmanchando na areia. Chris permaneceu com os olhos fixos no oceano, as mãos nos bolsos, o corpo relaxado como quem enfim encontra um lugar onde pode existir sem performance.
Por um instante, me permito apenas observá-lo. Seu perfil estava recortado pela luz suave dos postes, e eu não podia negar: ele era bonito de um jeito tranquilo, não exibido. Os cabelos castanhos e lisos estavam bagunçados pela brisa, como se o vento tivesse decidido brincar com ele também. A pele pálida fazia um contraste bonito contra a lua cheia e os pontos de luz ao redor, dando-lhe um ar quase etéreo — como se ele pertencesse tanto ao mar quanto à terra.
— Lívia.
— Sim?
— Eu… quero te propor algo — diz, com voz calma, mas com uma tensão que vibra nas entrelinhas. — Uma corrida até o mar. Quem chegar primeiro ganha.
Sorrio, incapaz de conter a curiosidade que cresce dentro de mim.
— E o que eu ganho se vencer?
— Qualquer coisa — ele se vira para me encarar, e seus olhos verdes me atravessam com uma intensidade que faz algo em meu peito se reorganizar. Não era só brincadeira. Era convite.
— E se você vencer, o que ganha?
Ele não hesita.
— Algo que tenho desejado desde que te vi pela primeira vez.
— E o que seria?
— Um beijo seu.
As palavras caem entre nós como uma verdade antiga, simples e irresistível. Ele se aproxima, parando bem à minha frente; a diferença de altura se torna óbvia, mas não intimidadora — apenas real. Seus olhos descem para minha boca por um segundo, voltam aos meus, e o mundo inteiro parece prender a respiração.
— Você só precisava pedir, Chris.
Não há mais nada a dizer.
Ele encerra a distância como quem fecha um livro que já sabia o final. Seus lábios tocam os meus com uma reverência inesperada, como se me beijasse com cuidado para não quebrar algo sagrado. Uma de suas mãos repousa em minha face, o polegar roçando minha pele num gesto que é quase ternura; a outra pousa em minha lombar, aproximando nossos corpos até que não exista espaço que não seja nós.
Por um momento, eu simplesmente me permito não pensar. Permito me entregar à sensação de ser beijada com tanta intensidade por alguém que m*l conheço.