☆Capítulo 8☆

1899 Words
☆Livia Carter☆ Christopher estaciona o carro em frente ao meu prédio, e o motor silencia como quem respeita o fim de um capítulo. Uma música baixa dos anos 90 preenchia o interior do carro, trazendo aquela nostalgia curiosa de algo que parece lembrança, mas nunca foi realmente vivido. A cidade lá fora seguia desperta, mas ali dentro o tempo diminuía de propósito. - Eu me diverti muito hoje, Lívia - ele diz, virando-se no banco do motorista para me encarar por inteiro. - Fazia tempo que eu não ria tanto com alguém. Agradeço por me dar a honra da sua companhia. O jeito formal com que ele fala me faz sorrir - e o rubor suave nas bochechas dele é a cereja desse encanto. É engraçado como até o constrangimento dele parece gentil. - Foi uma noite incrível, sem dúvidas, Chris. E eu quem agradeço por ter me convidado para sair - respondo, sentindo o sorriso tocar meus lábios antes mesmo de perceber. - Eu... te convidaria para subir e tomar algo, mas você disse que é alérgico a gatos e, bem... eu realmente não quero terminar essa noite no pronto-socorro. Ele cai na gargalhada - não só ri, ele se abre. A risada dele enche o carro, sacode o ar, e seus olhos verdes me fitam com uma doçura que quase desarma todas as minhas defesas. Há algo de genuíno nele, algo que não tenta ser mais do que é. - Realmente, seria uma forma péssima de terminar uma noite tão incrível - concorda, ainda sorrindo. - Mas... mesmo que eu não possa subir, será que eu posso... Ele não termina a frase. Não precisa. Ele apenas se inclina. Os dedos dele roçam minha pele primeiro, como quem pede permissão em silêncio, e então seus lábios encontram os meus. O beijo é lento, mas carrega intensidade - como maré que chega sem pressa, porém decidida. Ainda há o gosto suave do vinho que tomamos horas atrás, e uma estranha sensação de reconhecimento, como se o mundo todo já esperasse esse momento. Nos perdemos ali por alguns minutos - entre selinhos que viram risos e beijos longos que silenciam qualquer pensamento. Não há urgência, não há pressa; só a vontade sincera de prolongar o instante. Quando nos afastamos, ainda próximos demais, ele sussurra planos para um próximo encontro. Diz que, da próxima vez, vamos saltar de paraquedas. Eu rio, porque o drama dele pede risada - mas não duvido. Não dele. Não daquela energia que vive perigosamente entre o caos e a liberdade. Quem sou eu para descrer de alguém que, com a mesma naturalidade, fala de luto, de recomeços e de pular de aviões? Desço do carro com o coração em festa silenciosa, sentindo o beijo ainda pulsando nos lábios. A porta do prédio se fecha atrás de mim, e uma única certeza me acompanha até o elevador: É que essa foi sem duvidas uma daquelas noites, que valem apenas serem lembradas. Saio do elevador ainda com o gosto do beijo de Chris preso aos lábios e um sorriso distraído ameaçando nascer outra vez. Caminho pelo corredor em direção ao meu apartamento, procurando a chave na bolsa - e só então percebo. A porta está destrancada. Meu sorriso morre antes mesmo de existir Franzo o cenho, o coração dando um pequeno tropeço dentro do peito. Tenho certeza de que tranquei tudo quando saí. Absoluta. Meticulosamente. Empurro a porta devagar, sentindo o ar aquecido da sala me receber como um aviso silencioso. As luzes estão acesas. Entro. A sala está exatamente como deixei... exceto por um detalhe gritante. Meu chefe. Aquele a quem apelidei sutilmente de, encosto de estimação. O mesmo que decidiu que sua missão pessoal seria dificultar minha vida. Esparramado no estofado como se aquele lugar lhe pertencesse, uma perna jogada sobre o braço do sofá, a camisa amassada, a postura relaxada demais para alguém que claramente invadiu o meu apartamento. Minha TV estava ligada em um programa qualquer que não faço ideia do que seja, vozes ecoando pela sala como se aquilo fosse normal. Nada ali era normal. E não havia sinal dos meus gatos em lugar algum. Nenhum miado, nenhum pelo no sofá, nenhum movimento. Nada. Meu peito aperta. Sinto a raiva crescendo dentro de mim, quente, pulsando nas veias, mas me forço a me acalmar. Respiro fundo, uma, duas vezes, porque surtar não vai adiantar. Nunca adianta. Deixo minha bolsa sobre o móvel ao lado da porta com mais força do que pretendia e caminho até a TV, desligando-a da tomada com um puxão brusco. O silêncio que se instala é pesado demais. Viro-me lentamente para encarar o homem à minha frente. — Você tem um minuto para me contar onde estão meus gatos e o que você está fazendo aqui. Antes que eu decida que acabou o tempo e chame a polícia. — digo com a voz baixa, controlada à força, mas carregada de uma tensão quase palpável. Mason ergue os olhos com calma demais. — Seus gatos estão dormindo em um dos quartos. Eles saíram assim que eu cheguei. — ele responde como se estivesse falando sobre o tempo. Inclina-se para a frente, cotovelos apoiados sobre os joelhos, me encarando de um jeito que eu conhecia bem demais. — Quanto a mim... eu te mandei mensagem. Ele faz uma pausa curta, perigosa. — Trinta mensagens, Lívia. TRINTA. MALDITAS. MENSAGENS. Meu maxilar se contrai. — E você simplesmente decidiu ignorar minhas ligações apenas para quê? — a voz dele sobe, vibrando de raiva. — Para um passeio romântico com a p***a do meu irmão mais novo? Ele se levanta de repente. O movimento é rápido demais. Instintivamente, eu recuo, cambaleando alguns passos para trás. Meus olhos se arregalam e sinto meu estômago se revirar quando ele começa a avançar na minha direção, ocupando espaço demais, chegando perto demais. E então, simples acontece. O passado explode dentro de mim. Imagens distorcidas tomam conta da minha mente. Um rosto que deveria estar enterrado no passado surge diante de mim. Um par de olhos gélidos me encarando com aquele mesmo brilho doentio, aquele olhar psicopata que me fazia sentir pequena, presa Olhos Frios. Vazios. Me encarando como se eu fosse um brinquedo quebrável. Meu cérebro simplesmente... desliga. Desliga como um interruptor puxado com violência. Ainda ouço Mason falando - algo sobre eu nunca dar uma chance a ele, algo sobre sentimentos não correspondidos, algo sobre ingratidão - mas as palavras chegam até mim distorcidas, ecoando de muito longe, como se eu estivesse submersa. Vejo seus lábios se moverem, mas as palavras chegam a mim quebradas, distorcidas, longe o suficiente para parecer que estou me afogando em meus próprios pensamentos. Ele se aproxima ainda mais. Minha respiração falha. O ar parece não chegar aos pulmões. Meu corpo entra em modo de defesa antes mesmo que eu consiga pensar. Minhas mãos procuram qualquer coisa, qualquer objeto, qualquer arma. Pego a primeira coisa que vejo à minha frente. E acerto com toda a força. O impacto é seco. Violento. O barulho de algo se espatifando no chão me arranca daquele torpor. Volto à realidade com o coração disparado, os ouvidos zunindo. Encaro a cena com os olhos arregalados. Meu vaso de cerâmica está em pedaços no chão, espalhado como estilhaços brancos ao redor do corpo caído de Mason. Ele não se mexe. Não respira. Ou talvez eu só não consiga ver. Minhas mãos começam a tremer. Minhas pernas ameaçam ceder. Um gosto metálico sobe pela minha garganta. Puta merda. Eu matei meu chefe. 》☆☆《 Ando de um lado a outro no apartamento, o coração batendo rápido demais, como se quisesse fugir do meu peito. O nervosismo me corrói por dentro, afiado, insistente, impossível de ignorar. Merda. Eu sabia que não devia ter sido tão impulsiva. Merda, merda, merda. — Se você continuar desse jeito, vai acabar abrindo um buraco no piso. — a voz de Summer ecoa tranquila demais para a situação. Ela está sentada no meu sofá, como se nada de apocalíptico estivesse acontecendo, tomando um gole do chá de camomila que preparou para nós duas — mesmo que eu não tenha conseguido engolir um único gole. Com a outra mão, acaricia distraidamente os pelos de Pantera, que parece absurdamente à vontade com toda aquela confusão. — Se acalma, ele tá vivo. Já, já acorda. Ela diz isso com uma naturalidade que só consegue me deixar ainda mais à beira de um colapso. Porque sim, eu atravesse o corredor em desespero até o apartamento da minha melhor amiga pedindo ajuda… e em vez de histeria coletiva, ela está no sofá, tomando chá, fazendo carinho no meu gato enquanto eu surto sozinha. — E se ele perdeu a memória? — começo, a voz falhando. — Ou se ele não acorda… ou pior, e se ele… se ele ficar em coma e… — Na pior das hipóteses você estava se defendendo, e o errado é ele por invadir seu apartamento. — Summer interrompe, com a calma irritante de alguém que claramente não acabou de nocautear o próprio chefe. — Mas ele vai acordar. Relaxa e bebe um pouco de chá. Como se as palavras dela fossem um maldito feitiço de invocação, um gemido baixo ecoa pelo apartamento. Quase inaudível. Mas real. Meu corpo inteiro congela. Viro-me na direção do som a tempo de ver Mason se mexendo no chão, despertando aos poucos. Ele leva uma das mãos à cabeça, murmurando xingamentos entre dentes, reclamando da dor enquanto força os olhos a se abrirem. Summer e eu trocamos um olhar rápido — pânico puro — antes de corrermos até ele. Ajudamos Mason a se sentar, escorando suas costas no sofá. Sim. Ele ainda estava no chão. E não, nem Summer nem eu conseguimos colocá-lo em cima do sofá. Estamos falando de um homem com um metro e noventa e dois, ombros largos, forte o suficiente para ser comparado a uma geladeira industrial. E nós definitivamente não conseguimos carregar uma geladeira. Mason permanece sentado, respirando pesado, as mãos ainda pressionando a cabeça. Pisca algumas vezes até que seus olhos azuis finalmente se abram por completo — confusos, perdidos — e comecem a varrer minha sala de estar em busca de qualquer coisa familiar. — Li… Lívia… — sua voz sai rouca, arranhada, carregada de uma confusão que me aperta o peito. — Onde eu… onde eu estou? — Na sala do meu apartamento. — respondo sem jeito, me agachando à frente dele, analisando cada detalhe do seu rosto em busca de algum sinal de algo… errado demais. — Você… sofreu um pequeno acidente. — Acidente? — ele murmura, franzindo o rosto antes de soltar um gemido e levar a mão de volta à cabeça. — Merda… minha cabeça… essa dor tá me matando… — Eu avisei que a gente devia ter chamado uma ambulância. — murmuro, me virando para Summer, que continua sentada como se estivesse assistindo a uma novela particularmente interessante. — Vai em frente. — ela diz, dando mais um gole no chá. — A julgar pelo estado dele, ele vai precisar de uma. Reviro os olhos, derrotada, e me levanto, pedindo para ela ficar de olho em Mason enquanto vou atrás do celular. O melhor de tudo vai ser tentar explicar para o 911 como o meu chefe acabou desacordado com uma pancada na cabeça no meio da minha sala de estar. O destino simplesmente me odeia.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD