☆ Capítulo 1 ☆

1763 Words
°°° Lívia Carter °°° Abro a porta do meu apartamento e quase tenho um mini-infarto digno de novela mexicana. Ali, bem no centro do tapete como se presidisse uma assembleia secreta, estava ele: Sombra. O magnânimo. O colossal. O dono do meu contrato de locação. Com sua pelagem impecavelmente felpuda e o olhar julgado de quem sustenta um reino inteiro, meu Maine Coon de dois anos me observa como se dissesse: “Finalmente, humana. Já estava considerando abrir um boletim de ocorrência.” E a cena ao redor? Um caos digno de rebelião organizada. Cestos tombados. Almofadas no chão. Um pote de ração virado. Muito provavelmente a obra em parceria dele com a Pantera — minha outra Maine Coon, a definição felina de caos elegante. Sim. Meus gatos fizeram greve. Ou um motim. Ou tentaram um golpe de estado. Com eles nunca se sabe. Largo meus saltos com um alívio quase espiritual — aqueles sapatos estavam determinados a amputar meus dedos — e jogo a bolsa no sofá. Vou direto para a cozinha repor ração e água, enquanto dois felinos de mais de oito quilos cada me observam como fiscais do Ministério da Fome. Só depois disso me dou conta: ainda preciso levá-los para “passear”, caso contrário terei miados dramáticos durante toda a madrugada. O prédio proíbe cachorros, mas ninguém disse nada sobre leões miniatura rondando os corredores. Caminho para o banheiro sonhando com um banho que apague o inferno corporativo da minha pele. Encho a banheira, deixo a água morna abraçar meu corpo e me afundo como se estivesse sendo devolvida ao útero da paz. Fecho os olhos. Deixo o dia derreter. Me permito desaparecer por minutos infinitos. Até que a campainha toca. E toca de novo. E de novo. E, aparentemente, tenta TIRAR A PORTA DO BATENTE. Solto um suspiro sofrido. Enrolo-me no roupão, espremo a água dos cabelos e caminho até a porta pronta para enfrentar, no mínimo, um vizinho esfaqueado ou um incêndio na garagem — porque só isso justificaria tamanha insistência. Abro a porta. E sou atropelada por um furacão ruivo com pernas e personalidade própria. Summer entra como se fosse dona do imóvel, um mix perfeito de brilho, confusão e amor. Ela tem a energia solar de um Golden Retriever hiperativo: você tenta não sorrir, mas é impossível. Ela é um espetáculo ambulante. — Pensei que já estivesse pronta — diz, me analisando de cima a baixo com uma expressão tão específica que só um arqueólogo treinado decifraria. Eu pisco, confusa. — Pronta pra quê? Os olhos dela se arregalam, como se eu tivesse acabado de confessar que nunca ouvi falar de arroz e feijão. — É ANIVERSÁRIO DA SAMMY HOJE, LÍVI! — ela exclama, indignada e decepcionada em igual medida. — Mas tudo bem. Ainda dá tempo. Vai, vai, vai! — E me empurra na direção do quarto como se eu fosse uma atleta atrasada pra competição. Summer sempre foi assim: um vulcão de entusiasmo. Já a Sammy… ou Samantha. É a irmã mais velha dela, apenas um ano de diferença, mas tão parecidas fisicamente que já confundiram até a própria mãe. Só que, em personalidade, são fogo e gelo. Sammy é… digamos… Um pinscher com diploma. Raivosa, sincera até doer, cheia de opiniões e zero paciência com a humanidade. Se dá bem com pouquíssimas pessoas — e, honestamente, eu a entendo. O mundo cansa. — Eu realmente não quero ir. — protesto, tentando fincar meus pés no chão como se isso fosse impedir o inevitável. Mas não há resistência possível contra o fenômeno natural chamado Summer. A ruivinha simplesmente me agarra pelo braço e me arrasta para dentro do quarto com a força e a determinação de quem lideraria uma revolução inteira sozinha. — Eu não perguntei se você queria ir, você vai. — declara, com o ar autoritário de uma general em missão secreta. Em segundos, ela invade meu guarda-roupa, abrindo portas e arrancando cabides como se tivesse recebido um mandado judicial direto dos deuses da moda. Roupas começam a voar. Tecidos se espalham pela cama. E eu, coadjuvante da minha própria vida, só observo o furacão ruivo reorganizando meu universo com a naturalidade de quem respira. Sento diante da penteadeira, enfrentando o desafio olímpico de domar meus cachos. Mexo neles com carinho e resignação — às vezes sinto que o volume tem opinião própria. — Onde vai ser a festa? — pergunto, mais por rendição do que curiosidade. — Em uma boate no centro. Se não me engano, meu novo cunhado é o dono. — Ela responde como se estivesse comentando o clima. Eu congelo. — Novo cunhado? — Minha voz trai o choque enquanto espalho base no rosto. — Fiz essa mesma cara quando a Sammy me contou. — Summer revira os olhos. — Eles estão juntos há menos de um mês. Franzo a testa. — E o que houve com aquele… o… como era mesmo o nome dele? — Daniel? — ela pergunta, ainda cavando como uma arqueóloga no meu guarda-roupa. — Esse mesmo. — Brigaram feio. A Sammy terminou. Você sabe como ela é, troca de namorado igual troca de roupa. — Summer dá de ombros, encontrando finalmente um vestido preto escondido no fundo do armário. — Aliás… este aqui. Perfeito. Perfeito pra ela, claro. Para mim, o comprimento grita exposição de mais de cinquenta por cento das pernas, o que automaticamente dispara meu desconforto. Mas negar algo pra Summer é como tentar dizer “não” para um furacão. Inútil. Termino a maquiagem, optando por olhos marcados e lábios discretos — expressão clássica de “não estou no clima, mas estou tentando não parecer um cadáver”. Visto o vestido antes que ela comece a me chantagear emocionalmente, e me encaro no espelho. É… até que o look não está tão ofensivo assim. Talvez até um pouco fatal, se eu estiver com disposição para autoilusão. Calço os saltos com um suspiro resignado. — Não pretendo ficar a noite toda, talvez no máximo até as duas da madrugada. — estipulo, já sabendo que minha tentativa de limite vai virar motivo de piada. — Três. — ela rebate sem perder o ritmo, como se estivéssemos discutindo o preço de um carro. — Summer. — digo seu nome com meu melhor olhar de “não mexe comigo”. Ela sorri como uma predadora diante da presa. — Três e meia? — Três horas, e ponto final. — imponho, cruzando os braços. — Tudo bem, quatro horas e não se fala mais nisso. — Ela declara, vitoriosa, indo direto para a porta como se tivesse acabado de ganhar uma guerra que só ela participou. Reviro os olhos tão forte que quase vejo meu cérebro. Antes de sair, faço minha ronda maternal: checo ração, água, portas fechadas, tomada desligada. Quando volto à sala, encontro meus dois felinos gigantes dormindo — um em cada sofá, como se fossem dois magnatas exaustos de administrar meu lar. Ainda me pergunto por que gasto dinheiro com camas luxuosas de pet se eles preferem literalmente qualquer outro lugar da casa. Mas tudo bem. Ser mãe de gatos é abraçar a humilhação diária com carinho. — Vamos? — Summer bate palmas, impaciente. E lá vou eu, arrastada para mais uma aventura que eu não planejei. Porque, no fim das contas, quando se tem uma melhor amiga que mais parece um furacão. A vida raramente pergunta se você quer participar da próxima catastrófe, ela simplesmente te puxa pela mão. ☆☆☆☆☆☆☆ Ao entrar na boate ao lado de Summer, fui engolida por uma explosão de luzes coloridas e batidas tão fortes que pareciam vibrar direto no meu estômago. A pista de dança pulsava sob meus pés, tomada por corpos que se moviam como se estivessem sob algum feitiço coletivo. O ar era um coquetel de perfume doce, suor caro e eletricidade no ar, daquele tipo que arrepia até a alma. Summer, é claro, nem hesitou. Me puxou pela mão, abrindo caminho entre desconhecidos esbarrados e bêbados inconvenientes. E sim, senti uma ou outra mão boba perdida por ali — pragas que acham que mulher é mobiliário público. Chegamos às portas duplas guardadas por dois seguranças do tamanho de geladeiras industriais. Summer deu nossos nomes, já no modo “princesa de Vegas”, e as portas se abriram. O corredor iluminado por luzes vermelhas parecia saída de um clipe proibido, tudo em tons escuros, abafado, quase ritualístico. Quando entramos na área VIP, encontrei basicamente a mesma boate — só que com um upgrade de dinheiro, perigo e gente achando que ia viver pra sempre. Música alta, suor, bebida transbordando, e mesas rodeadas de drogas como se fosse degustação de vinhos. Pó. Comprimidos. Ervas. Coisas sem nome que, só de olhar, já me faziam revisar meu testamento. — Há jeitos mais fáceis de morrer do que overdose — murmurei, e Summer gargalhou como se eu tivesse contado a melhor piada da noite. — Você quer dizer como da última vez? — ela retrucou, dando aquele sorrisinho que sempre me mete em encrenca. — Aquilo foi bem mais emocionante — respondi, e lá veio ela rindo outra vez. Nos aproximamos de Samantha. Ela praticamente saltou da cadeira quando nos viu e nos envolveu num abraço triplo desengonçado que quase me deslocou a coluna. — Achei que não viriam — disse ela, fazendo uma careta adorável. — A Lívia esqueceu — dedurou Summer, e eu quase torci o pescoço dela com o poder da mente. — Eu entendo, Livi. Às vezes nem eu aguento minha irmã — Samantha riu, nos puxando para a mesa. — Venham, quero apresentar vocês ao meu noivo… e ao irmão dele. Noivo. Eu olhei pra Summer. — Você disse que eram só namorados — murmurei. — Detalhes — ela deu de ombros. — Você nem conheceu o cara, né? — rosnei. — Você não viria se eu tivesse dito que ainda não — ela disse como se fosse óbvio. — Acha? Da última vez fomos parar quase dentro de uma viatura porque seu “cunhado” era um traficante procurado pela federal. Summer apenas deu aquela risada gostosa e criminosa que antecede nossas piores decisões. Ter a Summer como melhor amiga é isso: viver experiências que dariam um ótimo documentário policial. Ela abriu a boca para responder, mas nem precisou. Porque, no segundo seguinte, estávamos diante de dois homens impecavelmente vestidos — e meu coração desceu, subiu, capotou e tentou fugir pela garganta quando reconheci um deles. O meu chefe. Isso mesmo. Meu. Chefe. Querido destino… Obrigada por f***r com tudo
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