☆Capítulo 6☆

1676 Words
☆Livia Carter ☆ Respiro fundo, jogo água no rosto e pisco algumas vezes, tentando afastar a náusea que insiste em revirar meu estômago. Comi mais do que devia. Muito mais. Por pouco não coloco tudo para fora ali mesmo, curvada sobre a pia como se meu corpo estivesse tentando expulsar não só a comida, mas toda aquela situação absurda. Encosto as costas na porta do banheiro, fecho os olhos por um breve momento e gargalho internamente. Chega a ser ridículo. Não sei o que foi mais engraçado — se as especulações desesperadas de todos ou o pânico coletivo ao acharem que eu estava grávida. Ou talvez… a expressão de Mason. Aquilo sim foi um espetáculo à parte. Ele passou por, no mínimo, vinte expressões diferentes em poucos segundos quando ouviu alguém sugerir a minha possível gravidez. Até parece. Eu grávida. Seria preciso um milagre muito específico — e extremamente improvável — para isso acontecer. Eu não posso engravidar. Perdi meu útero anos atrás, na noite em que meu ex-marido, aquele louco doentio, decidiu que uma mensagem no meu celular era motivo suficiente para tentar me matar a facadas. Não deixei barato. Fiz questão de garantir que ele ganhasse uma passagem só de ida para o inferno. Meu corpo sofreu danos irreversíveis, cicatrizes que não aparecem em fotografias nem em roupas mais curtas. Mas, no fim das contas, eu me livrei daquele desgraçado. E isso teve um preço. Sempre tem. Seco o rosto com a toalha, me afasto da porta e finalmente giro a maçaneta. Mas antes que eu consiga sair, sinto meu corpo ser empurrado para trás com força. Mason entra no banheiro sem pedir permissão, sem aviso, sem qualquer resquício de bom senso. Me encurrala contra a pia e, num movimento rápido, tranca a porta atrás de si. Próximo demais. Muito próximo para o meu gosto. — Posso saber que merda deu em você? — pergunto em voz baixa, controlada o suficiente para que apenas ele ouça. Afinal, sejamos sinceras: o que eu menos preciso agora é que alguém da casa me encontre trancada no banheiro com Mason Miller. — Que diabos você pensa que está fazendo, seu i*****l? Invadir o banheiro dessa forma e— — Quem é ele? — ele me interrompe, a voz carregada de algo perigoso demais para ser ignorado. — Quem é? Ele dá mais um passo à frente, reduzindo ainda mais o espaço entre nós. — O desgraçado que ousou tocar em você. Que ousou te engravidar — continua, os olhos fixos nos meus, escuros, intensos. — Quem é o desgraçado que ousou tocar no que é meu. Pisco algumas vezes, genuinamente tentando processar o que acabei de ouvir. Eu devo estar pagando por um pecado que nem cometi. Só pode. Quem esse i****a pensa que é? — Eu não sei quem é o traficante que anda te fornecendo essas drogas, Mason — respondo, com o sarcasmo escorrendo de cada palavra —, mas eu sugiro seriamente que você troque de fornecedor. — Ergo o queixo, encarando-o sem recuar. — Quem você pensa que é para invadir a p***a do banheiro, barrar minha saída e ainda despejar esse monte de merda? Cheirou cocaína estragada, foi? Levo as mãos ao peito dele e tento empurrá-lo para trás. Tentativa completamente inútil. Ele m*l se move, como se eu não passasse de um incômodo mínimo. Mason me encara em silêncio. Então, um meio sorriso surge em seus lábios. E ele se inclina, aproximando o rosto do meu. Perto demais. Perigosamente perto. — Sou o único que pode te fazer feliz. Mas é claro… você ainda não percebeu isso — ele diz, com uma convicção tão absurda que me faz revirar os olhos a ponto de quase enxergar meu próprio cérebro implorando por socorro. — Me poupe das suas cantadas baratas, Mason — respondo com irritação, me afastando o máximo possível dentro daquele banheiro minúsculo. — Agora, eu agradeceria muito se você me deixasse em paz. — Você ainda não respondeu minha pergunta — ele insiste, a carranca retornando ao rosto como uma sombra familiar. — Pelos deuses… que pergunta, Mason? — Quem foi o desgraçado que ousou tocar em você — ele rosna, sério demais —, e teve a coragem de te engravidar. A tensão em seu olhar volta com força total. Pelos deuses, esse infeliz é louco. Maldita hora em que eu comi além da conta. — Foi o coelhinho da Páscoa — respondo, sem um pingo de paciência para seus delírios possessivos. A raiva em sua expressão se intensifica. — Eu estou falando sério, você precisa trocar de traficante — continuo, afiada. — Não existe gravidez porque não existe útero. Eu poderia ter participado de um maldito ménage, Mason, e ainda assim não engravidaria. Meu útero foi removido há muito tempo. Agora, se me der licença, eu preciso voltar para o jardim antes que a Summer venha me procurar. Ele fica atônito. Literalmente. Pisca algumas vezes, como se tentasse reorganizar o mundo dentro da própria cabeça. Dá um passo na minha direção, mas eu recuo imediatamente, estreitando os olhos e reunindo toda a raiva que vinha segurando desde o almoço. — Mason Miller — digo, cada sílaba carregada de fúria —, você vai destrancar essa p***a de porta e vai me deixar sair. Ou eu vou garantir a tatuagem da minha mão estampada na sua cara. Faço uma pausa curta. Deliberada. — Eu vou contar até três… um. Ele permanece imóvel, me observando como se eu fosse um quebra-cabeça perigoso demais para tocar. — Dois. Ele bufa, bate o pé no chão, claramente irritado — e destranca a porta. Ainda assim, continua parado bem à minha frente. — Três. Finalmente, ele se move, abrindo espaço para que eu passe. Dou um passo à frente, pronta para sair daquele inferno, quando sinto sua mão segurar meu pulso. Não forte o suficiente para machucar — apenas o bastante para me fazer parar. Ergo o rosto para encará-lo. A diferença de altura entre nós é gritante. Seus olhos azuis me observam com uma intensidade quase sufocante, algo que não sei — e não quero — nomear. — Nenhuma palavra sobre o que aconteceu aqui — ele diz, a voz baixa, quase um sussurro. — Não queremos problemas, certo? Reviro os olhos com força. Arranco meu pulso de sua mão e saio do banheiro sem olhar para trás. O ar do jardim me atinge como um alívio tardio. Vou direto até a espreguiçadeira à beira da piscina e me sento ao lado de Summer. Ela abaixa os óculos escuros e me encara por alguns segundos. — Demorou… — Seu cunhado me trancou no banheiro — murmuro, baixo o suficiente para que apenas ela ouça. Summer arqueia a sobrancelha, observando Mason à distância antes de voltar os olhos para mim. — Ele parece ter uma fixação estranha em você — comenta, como quem fala do clima. Solto uma risada seca, sem humor algum. — Ele por si só é estranho. — respondo, encarando a água da piscina. ●●●●●●●● ▪︎▪︎ Mason Miller ▪︎▪︎ — Mason, você está me ouvindo? A voz de Samantha chega até mim como se viesse debaixo d’água. Distante. Abafada. Eu viro o rosto lentamente na direção dela, forçando um meio sorriso que não chega aos olhos. — Hm? — murmuro. Ela está falando algo sobre o casamento. Decoração, lista de convidados, talvez flores. Não sei. As palavras entram por um ouvido e saem pelo outro sem deixar rastro. Minha atenção não está ali. Nunca esteve. Meu olhar passa por cima do ombro dela e encontra Lívia do outro lado do jardim. Ela está sentada à beira da piscina, ao lado de Summer. Relaxada demais para quem acabou de me enfrentar dentro de um banheiro. Ou talvez não relaxada — apenas boa em fingir. Sempre foi. — Eu estava dizendo que minha mãe acha que o buffet deveria ser mais tradicional… — Samantha continua. Tradicional. Buffet. Casamento. Nada disso importa. Tudo o que vejo é o modo como Lívia cruza as pernas, como inclina levemente o corpo para ouvir Summer, como prende uma mecha de cabelo atrás da orelha. O sol reflete na água e dança sobre a pele dela, e isso me irrita de um jeito que não sei explicar. Meu maxilar se fecha. Minha mente, traidora, volta ao banheiro. À proximidade. Poucos centímetros. O espaço inexistente entre nós. Lembro do perfume dela antes mesmo de lembrar das palavras. Algo limpo, feminino, mas não doce demais. Não é o tipo de fragrância que pede atenção — ela simplesmente fica. Gruda. Entra nos pulmões e se recusa a sair. Ainda sinto. — Mason? — Samantha chama de novo, tocando levemente meu braço. O toque dela é… neutro. Não provoca nada. Nenhuma reação além da consciência de que alguém está ali. — Claro — respondo, automático. — Pode ser como você quiser. Ela sorri, satisfeita, achando que concordei com algo importante. Talvez eu tenha. Talvez não. Não faço ideia. Porque, naquele banheiro, Lívia não recuou quando eu me aproximei. Ela me enfrentou. Olhos nos meus. Raiva pura, crua, honesta. E aquilo foi… diferente. Ela não tem medo de mim. Tem raiva. E isso é muito mais perigoso. Do outro lado do jardim, Lívia se move na espreguiçadeira. Por um segundo, penso que ela vai olhar na minha direção. Não olha. Mas seu corpo reage, como se soubesse. Ela sempre sabe. — Você acha que outubro é uma boa data? — Samantha pergunta, animada. Outubro. Novembro. Qualquer mês. — Sim — digo, os olhos ainda presos nela. — Outubro é bom. O sorriso de Samantha se alarga. E eu continuo ali, conversando sobre um casamento que não me interessa, enquanto minha atenção permanece onde nunca deveria estar. Na mulher que me expulsou do banheiro. No perfume que ainda carrego. Na certeza incômoda de que, depois de hoje, nada entre nós vai ser simples. Ela não é minha. Ainda. Mas entrou no meu espaço. E agora… não sai da minha cabeça.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD