☆Capítulo 2 ☆

1608 Words
☆ Livia Carter ☆ — Garotas, esses são Mason e Christopher Miller — anunciou Samantha, radiante como sempre. — Mason, Chris, essas são Summer, minha irmã, e Lívia, amiga de infância. Se existe karma, ele tá me perseguindo com foice na mão. Só pode. O homem à direita se adiantou, sorriso aberto, aquele tipo de charme espontâneo que não pede licença. — Prazer em conhecê-las — ele disse, dando um beijo no meu rosto e no de Summer. — O prazer é todo meu — respondeu Summer, já soltando aquele sorriso habilmente calculado. — Igualmente — murmurei, retribuindo o cumprimento. E então veio ele. A voz que eu reconheceria em meio a um apocalipse zumbi. — Senhorita Carter. — Mason disse meu nome com aquele tom irritantemente superior que me dá vontade de pedir demissão só pela entonação. — Que surpresa encontrá-la aqui. — Mason — respondi seca, desviando o olhar para Samantha, que já nos observava com a curiosidade de quem vê gasolina e fósforo no mesmo cômodo. — Vocês já se conhecem? — ela perguntou, franzindo as sobrancelhas. Eu m*l abri a boca. Não que tivesse chance, porque Mason entrou na frente com a graça de um rinoceronte em uma vitrine de cristal. — Há um bom tempo. A senhorita Carter é minha secretária há cerca de dois anos. — Ele disse com aquele ar de “eu respiro autoridade”. — Para minha infelicidade — sussurrei baixo. Christopher ouviu. E sorriu. Um sorriso torto, cúmplice, quase debochado. Senti meus pulmões esquecerem como funcionava respiração. — Isso é muita loucura — disse Samantha, gargalhando quando Mason a puxou pela cintura. — Você não imagina o quanto — respondi com meu melhor sorriso falso. E então virei para ela. — Mas você disse que estão noivos… parabéns, Sammy. De verdade. Você merece toda a felicidade do mundo. Era sincero. Se Mason fosse a pessoa que fazia minha amiga sorrir desse jeito — ok. Eu lidaria. Engoliria. Faria xixi de raiva no banho e seguiria vivendo. Samantha me abraçou com força, aquele tipo de abraço que espanta qualquer sombra. Depois seguimos para uma mesa já ocupada por outras pessoas. Conversa vai, conversa vem, apresentações feitas, risadas distribuídas… a noite prometia. Enquanto eu me mantinha ao lado de Summer, Christopher puxou assunto. Descobri que ele era um ano mais novo que Mason — mesma diferença que Summer e Samantha. Conversamos sobre tudo e nada, sobre trabalho, rotina, Vancouver, gatos (ele tem alergia, infelizmente), e descobri que ele tinha um humor leve, meio irônico, fácil. Mas eu não saí de casa pra virar peça de decoração em mesa de VIP. Avistei a pista e decidi me perder nela. — Vou dançar — avisei Summer. Ela piscou, ocupada demais com o homem ao seu lado para sequer fingir hipocrisia. Perfeito. Passei pelo bar, pedi o drink mais forte que encontrei, ignorei o garçom praticamente afogando o olhar no meu decote, virei a bebida como quem bebe coragem líquida e fui engolida pela pista. Ali, sob luzes psicodélicas e música pulsante, meu corpo se libertou. Dancei. Me deixei levar. Senti mãos na minha cintura, rostos que eu m*l via, perfumes desconhecidos… e eu só respirei. Só existi. Depois de várias músicas e uma leve tontura deliciosa, voltei para a mesa. Summer ainda estava mergulhada numa conversa suspeitosamente animada com o cara misterioso. Samantha conversava com algumas amigas. Christopher e Mason… bom… discutiam. Discutiam sério. Mason estava tenso, mandíbula travada, olhos faiscando uma irritação que quase dava pra tocar. A energia dele prometia tempestade. E o que eu faço? Simples: ignoro. Porque não estou emocionalmente equipada — nem medicada o suficiente — para lidar com surtos de Mason fora do expediente. Meu psicológico já paga aluguel atrasado, não preciso aumentar a dívida. Voltei para a mesa e me sentei ao lado de Christopher, que sorriu como se já estivesse me esperando. Fiz sinal para um garçom, pedindo outra bebida, e antes mesmo de o cara se afastar ouvi aquela voz masculina grave sussurrar bem perto do meu ouvido: — Eu poderia observá-la dançar daquela forma a noite inteira sem cansar. Ah, pronto. Lá vem. Ri, porque só podia ser brincadeira — ou audácia pura. — Isso era pra ser uma cantada? — perguntei, arqueando a sobrancelha. Christopher inclinou a cabeça, aquele meio sorriso preguiçoso surgindo nos lábios. Um sorriso que parecia ter sido treinado com anos de prática e espelhos bem iluminados. — Estou apenas constatando um fato — murmurou. — Você dança bem. E eu seria o homem mais feliz do mundo se pudesse vê-la dançando só para mim. A voz dele roçou meu pescoço como se tivesse vida própria. Arrepio instantâneo. Reação automática. E uma gargalhada escapou antes que eu pudesse segurar. Christopher riu também, riu forte, riu como quem não teme o ridículo — e isso, honestamente, foi o que mais me agradou. — Você é péssimo com cantadas — declarei, pegando meu drink. — Talvez — ele admitiu, ainda sorrindo — mas ao menos eu tento. Já que minhas investidas falharam, diga: o que devo fazer para conseguir seu número… ou uma dança? — perguntou com genuína curiosidade. — Bastava pedir — respondi. Ele me entregou o celular, e eu digitei meu contato com calma, ciente demais do olhar dele sobre meus dedos, sobre minha boca, sobre mim inteira. Ao devolver o aparelho, vi o sorriso dele se abrir, satisfeito, quase menino. Pedi licença, peguei minha bolsa e segui para o corredor lateral indicado pela placa dos banheiros. A boate parecia um organismo vivo, pulsando ao redor — luzes, sombras, música, corpos. No corredor escuro, algumas pessoas vacilavam de um lado para o outro, bêbadas demais para entender a própria existência. No banheiro, fiz o básico, lavei as mãos e retoquei a maquiagem. Meus cachos ainda estavam dignos, obrigada. Quando saí… Fui prensada contra a parede com a força de alguém que não sabe o próprio tamanho. Minhas mãos foram presas ao alto da minha cabeça, e a respiração quente tocou minha face. Quase gritei por ajuda, mas fui interrompida por aquele cheiro. O perfume denunciou o i****a antes mesmo que eu pudesse reconhecer seu rosto. — Dá pra tirar suas mãos de mim ou tá difícil? — rosnei, encarando aqueles olhos negros tão cheios de raiva quanto… desejo? Mason. Óbvio que seria Mason. O universo me odeia de graça. — Qual é o seu jogo, Carter? — ele disparou, a voz baixa, dura, carregada de veneno. — Você vem ao aniversário da minha noiva… m*l olha pra mim, dança daquele jeito só para me provocar... — sua mão apertou minha cintura — e agora tá dando trela pro meu irmão. O que você quer com tudo isso? Ele parecia intoxicado — drogado talvez, e isso de alguma forma tornava tudo pior. — E la vamos nós. — respondi, tentando manter a paciência que eu definitivamente não tinha. — Não sei que tipo de droga você andou usando, mas claramente não fez um bom efeito. Agora você vai me soltar, eu vou voltar pra mesa, e ninguém precisa sair daqui sem um rim. Entendido? Ele aproximou o rosto do meu, tão perto que senti a respiração quente. — Você não consegue ficar perto de mim sem me desejar — ele sussurrou, como se estivesse anunciando alguma verdade absoluta do universo. — Conheço o seu jogo, Carter. Finge ser amiga da Samantha, mas tá só esperando a primeira chance pra dar o bote. Eu pisquei. Depois pisquei de novo. E então ri. De incredulidade. De raiva. De nojo. — Você tá se ouvindo? — perguntei lenta e friamente. — Tá ouvindo a MERDA que saiu da sua boca? Os olhos dele arderam. Toquei no ponto certo. — Dane-se se você tá aqui ou que é noivo da minha amiga — continuei, sem desviar o olhar. — Você me ta tentando me tirar do serio desde que chegamos e agora quer pagar de ofendido? Poupa-me do seu teatro, Mason. Senti o aperto diminuir. Leve, quase imperceptível. Fraqueza momentânea. — E, se você tem a mínima intenção de ter filhos algum dia, eu sugiro que me solte agora. Ele sorriu. Aquele sorriso perigoso que precede burrice. — E se eu não soltar? O que de tão horrível pode acontecer? — sibilou, voz carregada de desafio. Pois bem. Ele pediu. — Isso. Em um movimento fluido, forte e preciso — a mão que estava presa escapou, desceu, e meu joelho encontrou o destino com perfeição cirúrgica. Mason caiu com um gemido gutural, xingando tudo o que existe e o que ainda vai existir. — Eu avisei — declarei, ajeitando a bolsa no ombro antes de seguir meu caminho. Voltei para a mesa como se nada tivesse acontecido, embora meu coração batesse tão rápido que poderia facilmente ser confundido com trauma ou adrenalina. — Onde você tava? — Summer perguntou, já chamando atenção de todo mundo. — Banheiro — respondi, simples. — E, bem, tô indo embora. Summer fez aquela cara de cachorro abandonado na chuva. — Você prometeu. — Estou exausta. Nos vemos depois. E não precisa se preocupar — disse com um sorriso tranquilizador — já liguei para o Tyler. Ele tá vindo me buscar. Samantha, ainda na vibe festa-infinita, tentou me convencer a ficar por mais algumas horas. Usei duas ou três mentiras leves sobre meu irmão ser impaciente, e finalmente consegui escapar. Do lado de fora da boate, o ar fresco me atingiu como um presente dos céus. Chamei um táxi e me joguei no banco, sentindo cada músculo do meu corpo implorar pela minha cama. Tudo o que eu queria era dormir. E esquecer Mason por algumas horas.
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