Capítulo dois - Vida infernal

2400 Words
Grant se aproxima de mim lentamente com um sorriso no rosto. Ele está vestindo tudo preto e seu cabelo está coberto por capuz. Agora estou arrependida por ter vindo aqui. Devia ter ficado em casa com fome. Em tão pouco tempo que eu estou na faculdade, já sofri muitas humilhações e não pretendo passar por isso novamente. O que passou foi o suficiente. Além disso, já tenho o bastante que me preocupar em casa. Levanto para ir embora, mas Grant segura o meu braço me impedindo. Espero que Vladimir não esteja vendo essa cena. Não quero que ninguém se machuque por minha causa. — O que você faz aqui sozinha a essa hora? — Pergunta como isso o interessasse. — Não importa. O que você faz aqui? — Pergunto também. — Isso é um bar. Venho aqui algumas vezes. Só não esperava encontrar você. — Ele me larga. — Apesar de Bratt ter dito que já viu você aqui. — Eu... isso não importa. Você não me conhece. — Desvio o olhar. Como é que o Bratt já me viu aqui? — Tem razão. Eu não conheço. — Ele diz colocando as mãos nos bolsos. — Você é estranha. — Você pode ir embora! — Olho em direção ao bar. Se Vladimir estiver vendo isso, acabou. — Porquê? Não posso saber dos seus segredinhos? — Ele arqueia a sobrancelha. — Me deixa em paz! Viva a sua vida e eu vivo a minha. Você nunca falou comigo, porquê de repente quer fazer isso? — Olho para ele. — Tem razão. Não sabia que você falava demais. — Ele ri. — Eu não falo demais. Porquê tanta insistência? Será que ele vai dizer para todos que me viu aqui? Se isso acontecer, vou ser vítima daqueles meninos ricos novamente. Oiço a buzina do táxi, me salvando de uma situação bastante complicada. Da próxima vez, não venho para cá por mais fome que eu tenha. Não posso correr o risco de ser vista por ele novamente. — Eu preciso ir. — Entro no táxi rapidamente e fecho a porta. Grant fica olhando para mim enquanto coloco cinto de segurança e depois o motorista arranca. Mais um dia de aulas. Fico esperando todo mundo fazer comentários ruins sobre mim, mas ninguém faz. O que é bastante estranho porque Grant deve ter dito para todo mundo que me viu ontem. Passo pelos corredores e vou para a sala de aulas sentar no meu lugar. Abro o meu livro e fico lendo, mas sou interrompida por Chloe, Quentin e Kathleen que entram fazendo bastante barulho. Fecho o livro com raiva. Eles riem e falam demasiado alto. Não querem saber se estão interrompendo alguém. Não querem saber se eu estou aqui. Deito o meu rosto na mesa para que ninguém me veja furiosa. Não sei o que é ser amiga de alguém, mas não preciso ver essas coisas o tempo todo. Não quero ver coisas que eu não posso ter. Fecho os olhos e espero que o professor apareça. É pena que não sou rica para ter aulas particulares, assim não teria que passar por isso. — Tudo bem, Mia? — Oiço a voz da Chloe perto de mim e olho para cima. — O que você quer? Me humilhar? — Pergunto. — Claro que não! Eu sou uma pessoa diferente. — Ela senta ao meu lado. — E acho que a gente poderia ser amigas. — Eu não consigo acreditar em você. — Volto a deitar o rosto na mesa. — Gostaria de saber se você gostaria de almoçar com a gente. — Ela diz. Olho para ela novamente. Será que está dizendo a verdade? Ela quer ser minha amiga de verdade? Devo acreditar? — Eu... eu não sei. Eu não posso. — Digo. — Porquê não? — Tenho que estar em casa mais cedo e... — Por favor! Não faz m*l quebrar as regras um pouco. Você vai se divertir. — Ela sorri. — Eu prometo! — Não posso. — Porquê? — Ela pergunta. — É complicado. — Porquê eu estou falando com ela? — Kathleen e Quentin também vão. Vamos os quatro. A gente não vai ficar por muito tempo. Eu prometo! — Ela implora. — Eu vou pensar. — Respondo. — Está bem. — Ela levanta e vai falar com os seus amigos. Minutos depois, Kathleen vai embora, os outros estudantes entram e o professor também. A aula começa e faço os meus apontamentos. Espero que estudar mude a minha vida. Não quero estar presa ao Vladimir para sempre. Grant chega atrasado como sempre e senta duas filas à frente de mim. Ele conversa com seu amigo Max, depois olha para mim como se soubesse de todos os meus segredos. Aposto que esses comportamentos surgiram depois que me viu sozinha no bar. Não sei porquê tanto azar. Agora a minha vida será um inferno. Só espero que ele não diga nada a ninguém. Não quero que inventem coisas sobre mim. Desvio o olhar por alguns segundos, mas quando volto a olhar, ele continua me encarando. Porquê isso de repente? Preciso fazer alguma coisa. Ele sorri e continua me observando. O problema é que também não consigo parar de olhar. Mas só para me certificar de que ele pare de me olhar. Depois das aulas, estou decidida a impedir Grant de fazer o que quer que ele esteja pensando em fazer. Ele ficou olhando para mim em todas as aulas. Alguma coisa está acontecendo. Coloco a minha mochila no ombro e caminho em passos rápidos até ele que está falando com o seu amigo Max. Ele sorri quando me vê e levanta. Normalmente não tenho essas atitudes, mas preciso fazer isso. — A que deve a honra? — Ele pergunta. — Posso falar à sós com você? — Pergunto. — Não se preocupe! — Max levanta e sai da sala de aulas, depois de bater no ombro de Grant com um sorriso no rosto. Como se Grant estivesse dando em cima de mim. — Sou todo seu! — Ele pisca um olho para mim. — O que você pensa que está fazendo? — Pergunto. — Ah! Ela fala! — Ele brinca. — Como assim o que estou fazendo? É crime olhar para você? Você também estava olhando para mim, princesa. — Por favor, não faça isso. Esqueça que eu existo. Você pode se dar muito m*l se continuar com isso. — Digo. — Como assim? — Ele fica sério. Não devia ter dito isso. — Não importa. Eu só peço que me deixe em paz. Por favor! — Digo e caminho para fora da sala de aulas. Se ele soubesse que estou salvando a sua pele, ele agradeceria. Saio em passos rápidos e encontro Quentin, Kathleen e Chloe no carro. Eu esqueci completamente desses três. Não posso almoçar com eles. Não quero ser castigada. — Aonde você pensa que vai? — Quentin pergunta ficando na minha frente, me impedindo de passar. — Eu vou para a minha casa. — Digo. — Almoça com a gente. A gente só vai fazer uns trinta minutos. — Kathleen diz. — Mas... — Por favor! — Eles me levam para dentro do carro. Não me deixam falar nada e quando dou por mim, já estou com eles no carro e Quentin está dirigindo. — Eu não disse que sim. — Olho para Chloe que está do meu lado. Kathleen está na frente com Quentin. — Também não disse que não. — Kathleen responde. — Eu preciso ir para casa. — A gente leva você para casa depois. — Chloe responde. — Seus pais não deixam você sair? — Kathleen pergunta. — Eles... faleceram. — Respondo com tristeza. — Eu não sabia. Desculpa. — Kathleen. — Sinto muito. — Quentin presta atenção na estrada. — E com quem você vive? — Chloe pergunta. — Meu tutor. Eu não gosto de falar sobre mim. Agradecia se não fizessem perguntas sobre mim, por favor! — Olho pelo vidro do carro. — Está bem. — Chloe responde. — A gente não vai demorar, não é? — Pergunto. — Claro que não! — Quentin responde. Kathleen liga a rádio do carro e fica cantando uma música que eu não conheço. Chloe também começa a cantar e eu estou impressionada com a sua mudança. Se é que mudou realmente! Chegamos na pizzaria e descemos do carro. Não acredito que estou aqui. Porquê eu não saltei do carro? Assim todo o meu pesadelo teria acabado. Ocupamos uma mesa e depois fazemos o nosso pedido. Na verdade, Chloe pede por mim. Não estou acostumada a estar nesses lugares. Espero que eles não reparem. — Estou com saudades do meu pai. — Chloe diz. — E do Scott. — Por favor! — Quentin revira os olhos e Kathleen ri. Não me encaixo nesse grupo. — E você, Mia? — Kathleen olha para mim. — Já teve namorado? — Claro. — Respondo o mais rápido que posso, mas é tudo mentira. Vladimir me mantém fechada há muito tempo. Eu não sei o que é ter namorado, ir em festas, dormir na casa de uma amiga e chegar tarde em casa. — E como ele se chamava? — Kathleen pergunta. — Não gosto de falar sobre isso. — Cruzo os braços. — Tudo bem. Olho para a entrada e Grant entra na pizzaria com um sorriso no rosto. Ele olha para mim e depois ocupa um lugar onde consegue uma visão perfeita de mim. Quanto azar! A nossa pizza é trazida e comemos. Quentin fala sobre coisas de nerds, não que ele seja um, mas nunca pensei que gostasse de ficção científica, xadrez e banda desenhada. Não sei como ele é amigo da Chloe. Tento me concentrar na conversa, mas sinto olhares em mim. São os olhos âmbar me encarando. Parece que hoje eu sou a única no seu campo de visão. Não sei o que ele quer. — Pára, Quent! — Chloe ri de alguma coisa que não percebi. — Quem tem razão, Mia? Olho para eles. Não faço ideia do que estão falando, mas nunca daria razão à Chloe Rogers. — O Quentin! — Respondo. — Eu sabia! — Quentin sorri e dá uma mordida na pizza. — Tudo bem. É melhor acreditar que isso não é uma questão pessoal. — Chloe diz. Olho para Grant novamente, que se levanta e vem ter com a gente. Se ele tocar no assunto de ontem, eu vou desistir dos estudos. Tenho a certeza que Vladimir não vai se importar. Oh, meu Deus! Vladimir! Eu esqueci completamente dele. Ele já deve ter ligado para casa para saber se eu já cheguei. O que eu vou dizer para ele? Não posso dizer que estive com alguém. — Oi, cunhada e amigos! — Grant diz para Chloe. — Mia Summer! — Grant! — Desvio o olhar. — O que você quer? — Chloe pergunta. — Apenas dizer um "oi". — Oi! — Quentin diz. — É estranho ver você com alguém, Mia Summer. — Grant olha para mim. — Você costuma estar sempre sozinha. — Eu sei. — Levanto. — Preciso ir embora. — Porquê? — Kathleen pergunta. — Está ficando tarde. Eu tenho coisas para fazer em casa. — Tudo bem. — Chloe diz. — A gente leva você. — Não precisa. Eu vou sozinha. — Digo e saio da pizzaria, mas Grant vem correndo e fica na minha frente. — Porquê tanta pressa? É por minha causa? — Ele pergunta. — Não! Claro que não! Eu não quero saber de você. Eu realmente preciso ir para casa. — Digo e passo por ele, mas segura o meu braço. Isso já está ficando muito chato! — Me deixa em paz! — Olho para ele. — Está bem. Eu vou deixar você ir. — Ele larga. — Tem certeza que não quer carona? — Tenho. Eu vou correndo para pegar um ónibus o mais rápido possível. Não posso correr o risco de Vladimir me ver descendo do carro de alguém. Chego em casa e fecho a porta com cuidado. Encontro Vladimir sentado no sofá olhando para mim como se quisesse me m***r. Eu tenho muito medo dele e do que possa fazer comigo. Espero que me perdoe. Ele levanta e se aproxima de mim devagar. Não me movo, nem olho para ele, mas já começo a chorar. Eu sei que ele vai me castigar. Sua mão passa pelo meu cabelo e a outra fica no meu pescoço, mas ele não aperta. Sinto a sua respiração no meu rosto e fecho os para não olhar para ele. — Onde você estava? — Ele pergunta. — Eu... — Olha para mim! — Ele ordena. Parece furioso. — Eu estava na biblioteca. — Olho para ele. — Estava estudando e perdi a noção do tempo. — PERDEU A NOÇÃO DO TEMPO? — Ele grita. — Como assim, Mia? — Desculpa! — Choro mais ainda. — Você sabe que eu não gosto quando me desobedece! Você não percebe que sua rebeldia pode afastar a gente? — Ele olha para mim e puxa o meu cabelo. — Aí! Desculpa! — Peço chorando. — Não volta a acontecer. — E agora? O que é suposto eu fazer? Perdoar? — Ele me empurra no sofá. — DIGA! — Desculpa! — Eu detesto castigar você, meu amor, mas você pede por isso. Não tenho outra opção. — Ele passa a mão pelo rosto, irritado. — Por favor, não! — Eu peço. — Sinto muito, Mia. Tenho que castigar você para que não volte a cometer o mesmo erro. — Ele me agarra e me leva para o sótão. Ele sabe que eu detesto ficar ali, mas ele me leva para lá — Vladimir! — Eu puxo a sua camisa. — Eu preciso fazer isso para a gente ficar bem. — Ele diz. — Ou você prefere que eu bata em você? Não respondo. Eu prefiro o escuro do que isso. Ele dificilmente bate em mim, mas quando me bate, ele se transforma no pior dos monstros. — Foi o que eu pensei! — Ele fecha a porta do sótão com o cadeado. — Nunca mais me desobedece! Seus passos se afastam e eu caio no chão e choro. Está escuro, está frio e ele vai me obrigar a ficar aqui até amanhã. Não devia ter ido com Chloe e seus amigos. Devia ter feito o que ele disse. Sempre!
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