Capítulo um - Apenas o início
Às vezes, eu me pergunto o que seria de mim se Vladimir nunca tivesse aparecido na minha vida. Não sei a resposta, mas com certeza qualquer coisa deve ser melhor do que o que estou vivendo. Qualquer coisa deve ser melhor do que ter que olhar para seu rosto assustador todos os dias.
Meus pais se foram quando eu tinha catorze anos, e Vladimir era amigo deles, por isso ficou comigo. Ele ficou comigo porque eu não tinha mais ninguém. Pelo menos, é isso que ele diz sempre.
Ele cuida de mim desde então, mas não me deixa sair sem a sua permissão, não me deixa ter amigos, não posso trabalhar, tenho que fazer tudo o que ele mandar. Mas há a parte pior. Ele olha para mim de um jeito completamente diferente. Ele está apaixonado por mim.
Pelo menos, é isso que ele diz o tempo todo. Ele diz que eu o pertenço e que não posso ficar com ninguém. Mas eu acho que ele é doente.
Vladimir tem trinta e quatro anos e trabalha para Jacob Evanovisk há anos, mas seu chefe não sabe que ele é apaixonado por mim. Vladimir diz que se ele souber, vai acabar comigo, por isso está me protegendo.
Ele gosta que faça tudo o que ele manda e quando não faço ele me castiga. Algumas vezes, ele perdoa e me deixa em paz. E eu tenho muito medo de acabar do lado dele até ao fim da minha vida.
Olho para o espelho do meu quarto que Vladimir tinha quebrado uma vez por eu ter ido atrás dele no bar onde ele "trabalha". Estou usando jeans, uma blusa branca e ténis.
Vladimir tem bastante dinheiro, mas eu não gosto que ele compre coisas para mim com o seu dinheiro sujo. Eu prefiro usar as que eu tenho até que não prestem mais.
Saio do quarto com a minha mochila e sento na mesa para comer. A nossa casa é pequena porque Vladimir diz que não gosta de chamar atenção. Também é por isso que ele conseguiu uma bolsa para mim na universidade.
Sirvo suco num copo e Vladimir vem para a sala sentar na minha frente. Ele é gigante, tem quase dois metros, é forte, cabelos castanhos e olhos verdes. Para muitas mulheres, ele é irresistível, mas para mim não. Detesto quando ele me toca.
— Bom dia, meu amor! — Ele sorri. — Você está linda. Gosto quando prende o cabelo.
Não digo nada. Como uma torrada para não ter que responder. Não sei porquê ele acha que a minha vida pertence a ele. Ele acha que eu sou dele.
— Desculpa ter chegado tarde ontem. — Ele serve café para si. — Eu tive muito o que fazer. Você sabe como o meu chefe é. Espero que isso não volte a acontecer.
— Está bem. — Digo.
Ele olha para o relógio no pulso. — d***a! Eu esqueci que tenho que fazer uma coisa. — Ele bebe o café todo de uma vez e levanta.
— Eu vou sozinha? — Pergunto.
— Desculpa. — Ele beija a minha testa. — Amanhã não volta a acontecer.
Ele sai apressado e eu limpo a minha testa com nojo. Na verdade, gostaria que não voltasse mais. Assim eu estaria livre dele.
Chego na NYU de ónibus e vou correndo para a faculdade de gestão empresarial. Eu escolhi esse curso porque li um livro que o meu pai tinha sobre o mesmo assunto e adorei. Decidi que faria isso na faculdade. E é o que estou fazendo.
Mas não é fácil estudar numa universidade de ricos quando você é pobre e sofre com xingamentos todos os dias. Eu sofri bastante nas mãos da Chloe. Ela até já me chamou de p********a.
Gosto de chegar sempre cedo porque poucas pessoas vão olhar para mim. Não sou como Chloe que gosta de chamar atenção, pelo contrário, eu gosto de ser discreta. Eu preciso ser.
Entro na sala de aulas e sento no mesmo lugar de sempre. No fundo à esquerda, separada das outras pessoas. Não é que eu seja uma sociopata, mas Vladimir me proibiu de ter amigos e principalmente namorado porque ele se considera meu namorado.
Eu gostaria de ter amigas. Também gostaria que um garoto gostasse de mim de verdade. Todos sabem que eu tenho uma queda pelo Brian, mas eu acho que já não gosto tanto dele assim. Não mais.
Pego no meu diário e escrevo sobre isso. Sobre estar apagando Brian do meu coração. No fundo, eu sei que é melhor esquecer a história de namoro. Não quero me iludir mais.
Fecho o diário para ler o livro que Vladimir comprou para mim. É um presente de aniversário e eu gostei do livro. Também é o único que eu tenho.
Olho para a porta assim que Chloe e Quentin entram conversando animadamente. Eu gosto da amizade deles, tenho até inveja porque gostaria de ter o mesmo. Amigos de verdade.
Também gostaria de saber se Chloe está realmente arrependida por tudo o que me fez e se quer ser minha amiga. Mas que garota como ela quer ser amiga de alguém como eu? Ela mesma disse uma vez que eu não sou nada. E ela é filha de pais muito ricos. Não ia dar certo.
Entra agora o Brian. Ele passa por Chloe e senta no seu lugar com o rosto nada amigável. Não sei o que aconteceu, o que Chloe fez com ele, mas deve ter sido h******l. Só que ultimamente ela tem sido boa com algumas pessoas. Não parece mais ser aquele demônio.
Não sei se é tudo verdade.
Depois da maioria dos alunos entrarem, o professor também entra. Ele é talvez o meu professor prefiro. Eu amo matemática e ele sabe como ensinar. Nunca me canso das aulas dele.
Pego no caderno para fazer apontamentos, mas noto que Chloe está olhando para mim, então finjo não perceber e presto atenção na aula. Acho que ainda não sou capaz de perdoar o que ela fez. Quem sabe com o tempo!
Depois da aula de matemática, a maioria dos estudantes sai correndo para ir para o refeitório. Eu raramente estou lá porque não tenho companhia e porque nem sempre tenho dinheiro.
Eu coloco a minha mochila para ir até à biblioteca e quando estou prestes a sair pela porta, meu corpo bate brutalmente contra o de alguém que vem correndo e caímos no chão.
Felizmente não acabo machucada porque eu sou muito fraca, senão Vladimir aí notar que eu me machuquei e ia atrás da pessoa que me machucou.
A minha vida é um inferno, eu sei!
— Desculpa! — Ele diz.
Olho para Grant que se levanta imediatamente e estende a mão para mim. É a primeira vez que ele me pede desculpa. O que será que aconteceu com ele? Da última vez não quis saber.
— Não faz m*l. — Seguro na sua mão grande e forte. Ele me ajuda a levantar e olho para seus olhos castanhos tão claros que parecem mais amarelos.
Nunca tinha reparado que ele tinha olhos tão bonitos, cílios cheios e compridos, sobrancelhas bem cheias, lábios carnudos e cabelos castanhos muito sedosos.
Ele está vestindo uma camiseta da Adidas branca, calças jeans e ténis. Praticamente, uma versão masculina do que estou usando, mas tudo fica bem nele.
— Mia, não é? — Ele pergunta. Eu volto à vida real. Não acredito que sabe o meu nome.
— É. — Digo. — M-Mia... Mia Summer. — Gaguejo.
— Claro. — Ele sorri.
— Eu preciso ir! — Passo por ele correndo para não ter que continuar com aquela conversa. Vladimir pode ser muito c***l quando alguém chega perto de mim. Sei disso porque no ensino médio, um garoto que gostava de mim ficou em coma por causa dele. E eu soube que ele só voltou a acordar há dois meses. Pelo menos, acordou.
Vou para a biblioteca ler. O melhor que eu posso fazer é me afastar de todo mundo. Assim, ninguém se machuca.
Sento numa mesa com o livro e me concentro em ler, mas alguém toca o meu ombro e eu assusto.
— Calma! — Grant diz e senta ao meu lado. — Sabia que é má educação sair correndo quando alguém está conversando com você?
— Eu estou lendo, por favor, me deixe sozinha. — Desvio o olhar para o livro.
— Não respondeu a minha pergunta. — Ele fecha o livro.
— Não. Eu não sabia. Agora pode me deixar ler? Eu gosto de estar sozinha enquanto leio. — Olho para ele.
— Só estava tentando ser simpático. — Ele levanta. — Mia! — Ele vai embora.
Suspiro e volto a ler o meu livro. Gostaria de saber se Vladimir tem um espião aqui para me controlar.
Quando as aulas terminam, eu arrumo as minhas coisas para ir correndo para casa. Vladimir vai ligar para casa daqui a pouco e eu preciso estar lá para atender. É assim que ele sempre sabe que estou em casa.
Todos saem, alguns entusiasmados e outros exaustos, e eu saio em último porque não gosto que prestem atenção em mim.
Levanto do meu lugar e vou em passos rápidos até à saída da sala de aulas. Olho para o chão para não ter que encarar as pessoas me olhando de um jeito estranho. Podem me chamar do que quiser, o importante é que estarão todos bem.
Se Vladimir soubesse o que Chloe Rogers fez comigo, ela provavelmente estaria internada. Ainda bem que nunca descobriu.
Saio dos corredores da faculdade e vejo Grant conversando com o Scott e Chloe. Não sei porquê, mas eu paro como se estivessem falando sobre mim. Mas é impossível. Quem iria falar sobre mim?
Eu me aproximo lentamente para ouvir mais de perto o que eles estão dizendo. E parece que é realmente sobre mim.
— Aquela garota é estranha. — Grant diz. — Acho que é psicopata.
— Ou sociopata. — Scott responde.
— Ela não gosta de estar com ninguém. Não sorri, não fala nada. — Grant.
— Não falem assim dela. Vocês não sabem porquê ela é assim. — Chloe diz.
Estou surpresa por Chloe Rogers estar me defendendo. Ela tem razão. Que motivos eu tenho para sorrir se a minha vida é uma porcaria? Às vezes me pergunto porquê eu ainda estou aqui.
Passo por eles, saio da Universidade e vou esperar o ónibus. Eu sempre volto sozinha para casa, Vladimir só me deixa, mas hoje vim sozinha. Ainda bem.
Detesto estar perto dele. Ele fica dizendo o tempo todo que vai construir um futuro comigo, que vai me fazer muito feliz e não gosto de ouvir isso. Detesto saber que não tenho uma saída.
Fico em casa vendo TV, quando o meu estômago pede comida. Levanto e vou para a cozinha ver o que tem na geladeira, mas só tem coisas que eu não posso comer: Cervejas, maçãs (odeio maçãs)e leite.
Abro os armários para ver se tem alguma coisa, mas não. Parece que hoje ele estava tão ocupado que nem teve tempo de passar no supermercado. Eu poderia fazer isso, mas ele nunca deixa. Só em caso de desespero.
Vou buscar o meu casaco no quarto e pego nas chaves para sair de casa. Fecho a porta e vou à pé até onde Vladimir trabalha. Não é tão longe assim, mas mesmo que fosse, não tenho dinheiro.
Quando chego até ao bar um pouco exausta, eu fico na frente de um segurança corpulento e loiro que já me viu aqui algumas vezes. Peço para ele chamar Vladimir e fico esperando fora do bar num banco da calçada.
Em menos de quinze minutos, ele aparece com o rosto furioso. Eu levanto imediatamente e espero que não grite comigo. Ele não gosta quando venho aqui.
— O que você está fazendo aqui, Mia? — Ele pergunta.
— Desculpa. É que eu estou com muita fome e não tem nada para eu comer. — Olho para os meus pés.
— Eu esqueci de comprar comida, outra vez. — Ele tira a carteira do bolso. — Da próxima vez liga para mim antes de vir para cá.
— Está bem. — Respondo.
— Olhe para mim! — Ele ordena. — Olhe para mim, Mia! — Ele repete.
Olho para ele.
— Você é muito bonita! — Ele passa a mão no meu rosto. — Nunca se esqueça que você é minha, entendido?
— Entendido! — Tenho vontade de chorar.
— Eu amo você. Agora vai para casa. Eu vou chamar um táxi para você. — Ele diz e me entrega o dinheiro. — Não vá antes do táxi chegar.
— Sim. — Digo.
— Ótimo. Gosto quando você se esforça para me fazer feliz. — Ele diz. Na verdade, só faço isso para sobreviver. — Você não imagina como você me faz o homem mais feliz desse mundo.
Não digo nada. Eu tenho apenas dezoito anos e ele tem trinta e quatro. Não sei porquê é tão obcecado por mim. Quando eu tinha catorze anos, ele não me tocava, mas dizia que era apaixonado por mim e que ia esperar que eu tivesse dezoito anos. Mas aos dezesseis, ele não aguentou. Ele começou a me tocar, felizmente apenas no meu rosto e nos meus braços, às vezes me abraça e me dá um beijo casto, mas não passa disso. Sua obsessão só aumenta a cada dia que passa.
Infelizmente, ele é tudo que eu tenho nesse mundo.
Ele olha para todos os lugares e depois beija o meu rosto. São quatro anos que eu vivo com ele, e pelo menos nunca me obrigou a t*****r com ele. Mas ele deixa bem claro que um dia vai fazer isso. E eu espero morrer antes que isso aconteça.
Vladimir entra no bar e eu fico esperando o táxi no banco da calçada. Espero que não demore muito. Não quero ficar aqui muito tempo. Estou com fome.
— Mia? — Oiço o meu nome e me viro imediatamente. — Mia Summer? — Grant está saindo do bar e olha para mim. Não tem lugar para eu me esconder nem posso sair correndo.
Isso não está acontecendo comigo!