Julia respirava com dificuldade, a ansiedade apertando o peito.
— Eu preciso proteger a minha mãe e a minha irmã… — disse, aflita. — Ele pode ir atrás delas.
Gabriel não hesitou um segundo.
— Eu já cuidei disso. Tá tudo bem.
Ela ergueu os olhos, assustada.
— Como assim…?
— Eu fui até a casa da sua mãe — explicou com calma. — Disse que era um amigo seu. Contei o que aconteceu com você. Disse que você estava sob meus cuidados.
Julia levou a mão à boca, os olhos marejados.
— Minha mãe…?
— Ficou muito assustada, sim — respondeu com sinceridade. — Mas eu deixei seguranças lá. Dois do lado de fora, e uma segurança mulher dentro da casa, pra ela se sentir mais confortável. Sua irmã também tá protegida. Ninguém chega perto delas.
As lágrimas voltaram a escorrer.
— Eu juro que eu não queria nada disso, Gabriel… — a voz saiu fraca. — Eu não queria te envolver na minha vida. Você já tem seus problemas, sua vida… e eu tô trazendo mais problemas ainda.
Gabriel se aproximou mais da cama, ajoelhando ao lado dela para ficar na mesma altura de seus olhos.
— Olha pra mim, Julia.
Ela obedeceu.
— Você não é um problema — disse, firme. — O que aconteceu com você é uma injustiça. E injustiça não se ignora. Você não me trouxe caos nenhum. Você cruzou meu caminho, só isso.
Ele respirou fundo, mantendo a voz controlada.
— E a partir do momento que você me ligou pedindo ajuda… isso deixou de ser só seu. Agora é meu também. Eu não faço nada pela metade. Nunca fiz.
Julia balançou a cabeça, chorando.
— Eu sou só… uma garota comum.
— Não — ele respondeu sem hesitar. — Você é uma mulher forte, que passou por coisas que ninguém deveria passar. E mesmo assim, só pensou na mãe e na irmã antes de pensar em si mesma.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, sem forçar, apenas apoiando os dedos.
— Você não está sozinha. Não mais.
Ela fechou os olhos, soluçando, mas dessa vez se permitiu encostar o rosto na mão dele.
Pela primeira vez em muito tempo, Julia sentiu que alguém não estava ajudando por pena…
Mas por escolha.
E Gabriel, enquanto a via ali, frágil e ferida, teve absoluta certeza de uma coisa:
Ele não iria apenas protegê-la.
Ele iria garantir que ninguém jamais tivesse o poder de destruí-la outra vez.
Gabriel saiu daquela reunião com o coração pesado, mas com a certeza de que Júlia estaria segura. Pela primeira vez desde aquela noite, o medo não era mais o sentimento dominante. Agora era proteção. Controle. Justiça.
Quando ele chegou em casa, encontrou Júlia acordada, sentada na cama, abraçando os próprios joelhos. Os olhos estavam inchados, mas atentos, como se ela tivesse medo de dormir e tudo voltar a ser um pesadelo.
— Ei… — ele disse baixo, aproximando-se devagar. — Tá tudo bem. Eu tô aqui.
Ela levantou o olhar, frágil.
— Você voltou…
— Voltei. E não vou sair de perto de você.
Ele sentou ao lado dela, sem tocar, respeitando o espaço. Júlia respirou fundo antes de falar.
— Gabriel… ele vai atrás da minha mãe? Da minha irmã?
— Não. — A resposta veio firme. — Ninguém vai chegar perto delas. Nem de você. Eu cuidei de tudo.
Ela fechou os olhos e, pela primeira vez, chorou de verdade. Não aquele choro silencioso de quem aguenta tudo sozinha, mas o choro de quem finalmente pode cair.
Gabriel a puxou com cuidado para um abraço. Dessa vez, ela não recuou. Se agarrou à camisa dele como se aquele fosse o único lugar seguro do mundo.
— Eu tô com tanto medo… — ela sussurrou. — Eu achei que ia morrer naquela noite.
Ele fechou os olhos, contendo a própria raiva.
— Isso não vai se repetir. Eu te prometo.
Horas depois, Júlia acabou adormecendo, exausta. Gabriel ficou ali, sentado ao lado da cama, vigiando cada respiração dela. Pela primeira vez em muitos anos, ele percebeu que não estava apenas protegendo alguém por dever… mas porque queria.
Do outro lado da cidade, Carlos era arrancado da própria cama antes do amanhecer. Não houve gritos, nem explicações. Apenas homens sérios, silenciosos, que não responderam às ameaças nem aos pedidos desesperados.
— Vocês sabem quem eu sou?! — ele gritava, em pânico.
Um deles respondeu, frio:
— Sabemos. E é exatamente por isso que estamos aqui.
Carlos tentou resistir. Não adiantou. Foi colocado em um carro, sem saber para onde ia, sentindo pela primeira vez o gosto do medo real. Não o medo de perder dinheiro. Mas o medo de não ter mais controle algum.
Enquanto isso, Júlia acordava em uma casa segura, com café quente, roupas limpas e uma sensação estranha no peito: pela primeira vez na vida, alguém tinha ficado. Alguém tinha escolhido protegê-la sem pedir nada em troca.
Ela olhou pela janela e sussurrou para si mesma:
— Talvez… talvez a vida não tenha acabado pra mim.
E naquele mesmo instante, Gabriel observava de longe, com uma certeza silenciosa se formando dentro dele:
Carlos tinha sido o passado que tentou destruí-la.
Mas ele… ele seria o começo que ninguém jamais ousaria tocar.