O celular de Julia começou a vibrar em cima da mesa do trabalho. Ela olhou a tela e o coração apertou por um segundo.
Carlos.
Ela hesitou, respirou fundo… e atendeu.
— Alô? — disse, firme.
— Júlia… — a voz dele veio diferente, forçada. — Finalmente você atendeu. Eu precisava falar com você. Me desculpa, tá? Eu andei ocupado esses dias, pensei bastante… a gente precisa conversar.
Ela fechou os olhos por um instante. Quinze dias. Quinze dias de silêncio.
— Carlos, acabou — respondeu, calma, mas decidida.
Do outro lado da linha, o silêncio foi breve, depois veio o tom irritado.
— Como assim acabou? Você não vai terminar comigo desse jeito.
Julia sentiu algo mudar dentro dela. Não era mais dor. Era clareza.
— Já terminei, Carlos. — disse, sem elevar a voz. — Você me abandonou por quinze dias. Sumiu. Não ligou, não mandou mensagem, não deu satisfação nenhuma.
— Júlia, você tá exagerando…
— Não — ela interrompeu. — Eu fiquei sentada num restaurante caro enquanto você ficava de papo com aquela mulher na minha frente. Me tocando nela, falando baixo, me ignorando. Quando eu perguntei por que você não me apresentou, você disse que eu tava estragando o jantar.
Ele tentou falar, mas ela continuou.
— Você me deixou em casa sem dizer tchau. Não perguntou se eu cheguei bem. Não me procurou depois. Isso não é relacionamento, Carlos. Isso é desprezo.
— Você tá fazendo drama por causa de nada — ele disse, já impaciente. — Aquela mulher não significava nada.
Julia riu, um riso curto, sem humor.
— Não significava nada pra você. Mas pra mim significou tudo. Significou que eu nunca tive lugar nenhum ao seu lado.
— Júlia, você vai se arrepender disso — ele respondeu, frio.
— Talvez — ela disse, serena. — Mas eu me arrependeria muito mais de continuar aceitando migalha.
Ela respirou fundo.
— Acabou, Carlos. De verdade. Não me liga mais.
— Você não manda em mim — ele rebateu.
— Mando sim — ela respondeu, antes de desligar. — Na minha vida, mando eu.
Julia ficou alguns segundos olhando para o celular na mão. O coração batia rápido, mas, pela primeira vez em muito tempo, não era de dor.
Era liberdade.
Ela bloqueou o número.
Do outro lado da cidade, Carlos encarava o celular com raiva, o orgulho ferido. Ele não estava acostumado a ser deixado.
E enquanto Julia voltava ao trabalho tentando controlar as mãos trêmulas, ela não fazia ideia de que aquele término — simples, direto e definitivo — acabava de colocá-la definitivamente fora de um mundo…
e perigosamente dentro de outro.
Carlos jogou o celular longe assim que a ligação terminou. O aparelho bateu contra o sofá e caiu no chão. O rosto dele estava vermelho, os olhos cheios de ódio.
— Ela não pode fazer isso comigo… — rosnou, andando de um lado pro outro. — Ninguém termina comigo desse jeito.
O orgulho ferido ardia mais do que qualquer sentimento. Para Carlos, não era sobre amor. Era sobre controle. Julia tinha ousado dizer não. Ousado ir embora.
Ele pegou o celular de novo, digitou rápido, os dedos tremendo de raiva.
— Quero aquela garota fora da empresa — disse ao telefone, a voz fria, autoritária. — Hoje. Sem explicação. Eu não quero mais ver o nome dela lá dentro.
Do outro lado, houve um breve silêncio.
— Mas, Carlos… ela é dedicada, não fez nada errado…
— Eu não perguntei isso — ele cortou. — Eu mandei demitir. Resolve.
Ele desligou sem esperar resposta.
Dois dias depois, Julia foi chamada na sala do gerente. O clima estava estranho desde cedo. Olhares desviados, cochichos pelos corredores.
Ela sentou-se na cadeira, o coração acelerado.
— Júlia… — começou o gerente, desconfortável. — A empresa decidiu encerrar seu contrato.
— Encerrar? — ela sentiu o chão sumir. — Mas… eu fiz alguma coisa errada?
O homem suspirou.
— Não. Pelo contrário. Mas a decisão veio de cima. Não temos muito o que fazer.
Julia apertou as mãos no colo para não chorar ali mesmo.
— Eu preciso desse trabalho — disse, com a voz baixa. — Eu tenho família pra sustentar.
— Eu sei… — ele respondeu, sem encará-la. — Sinto muito.
Ela saiu da sala com a cabeça erguida, mas assim que chegou ao banheiro, as lágrimas vieram. Não de desespero… mas de confirmação.
Carlos tinha feito exatamente o que ela sempre temeu.
Minutos depois, o celular vibrou.
Gabriel.
> Gabriel: Tá tudo bem? Senti você diferente.
Julia olhou para a tela, respirou fundo e digitou com os dedos trêmulos.
> Julia: Não… eu fui demitida hoje.
Do outro lado da cidade, o semblante de Gabriel mudou instantaneamente.
A raiva surgiu fria, silenciosa.
— Então foi assim… — murmurou.
Ele pegou o telefone e fez uma ligação curta.
— Descobre quem mandou demitir a Julia. Agora.
A engrenagem começava a girar.
E Carlos, furioso e arrogante, ainda não fazia ideia de com quem havia acabado de comprar guerra.