33. Dante

1054 Words
— Eu consigo andar sozinha, obrigada! — eu disse. Dante não se irritou. Isso foi pior. Porque a calma dele parecia calculada, como se ele estivesse escolhendo quais partes de si eu tinha permissão de ver. — Eu sei que consegue — ele respondeu. — Mas você vai comigo. A palavra "vai" tinha peso de decreto. Eu engoli seco e comecei a andar ao lado dele, sem aceitar a mão. O paletó dele escorregou um pouco do meu ombro e eu ajustei, brusca, como se o tecido tivesse culpa. Quando a porta se abriu, o ar da rua me acertou no rosto. O mundo de fora era outro mundo. Mais frio. Mais escuro. Mais real. Os carros estavam alinhados, pretos, com os vidros escuros. Homens espalhados em pontos estratégicos. Eu vi pelo canto do olho a forma como eles olhavam tudo: cada esquina, cada sombra, cada ruído. Não era paranoia. Era rotina. Dante me guiou até o carro sem encostar em mim, mas com o corpo ocupando espaço entre mim e o resto do mundo. Um escudo andando. A porta traseira abriu. Eu parei antes de entrar. Foi ali. Aquele segundo antes do couro do banco, antes do vidro escuro, antes do silêncio do carro. O segundo em que eu ainda podia decidir gritar. Ou correr. Ou fazer alguma coisa que mudasse a história. Eu não fiz. Mas eu falei. — Você tá fazendo hora com a minha cara? — minha voz saiu baixa, cortante, porque eu não queria que os homens dele ouvissem. Eu queria que aquilo fosse só entre nós. Um crime particular. — Me manda embora. Me puxa de volta. Me trata como se eu fosse... sei lá o quê. E depois aparece e faz isso... e some de novo. Dante ficou imóvel. O rosto dele não mudou. Mas os olhos... os olhos escureceram. Não de desejo. De tensão. — Entra no carro — ele disse. — Não — eu respondi, e minha coragem veio do lugar mais feio do mundo: do cansaço. — Não até você me responder. Dante olhou ao redor, rápido, conferindo o perímetro. Depois voltou pra mim. Um passo. — Você quer discutir aqui fora? — ele perguntou, baixo. — Eu quero entender — eu respondi. — Ou pelo menos parar de ser feita de i****a. A palavra "i****a" pareceu acertar nele como um tapa que ele não esperava. Um segundo de silêncio. Então Dante pegou meu pulso. Não com brutalidade. Com firmeza. Com aquela força que diz "eu poderia quebrar, mas não vou". Ele me puxou pra dentro do carro e entrou atrás, fechando a porta com um som seco, definitivo. O mundo de fora morreu. Ficamos só nós dois e o cheiro dele em mim. O carro começou a andar. Por alguns segundos, ele não falou nada. Só respirou, devagar, como se estivesse segurando um animal dentro do peito. Eu não suportei o silêncio. — Você gosta disso? — perguntei, a voz tremendo de raiva. — Gosta de me deixar confusa? De me puxar e soltar? De me fazer sentir... e depois fingir que nada aconteceu? Dante virou o rosto lentamente na minha direção. — Eu não finjo. — Finge sim — eu cortei. — Você me mandou de volta pra boate como se eu fosse um problema. Como se eu fosse uma sujeira que você precisava tirar da sua casa. Dante ficou mais duro. — Eu mandei você de volta porque era mais seguro. Eu ri, curta, amarga. — Seguro pra quem? Pra mim? Ou pra você? O silêncio que veio foi pesado porque a resposta estava no ar. Dante não negou. Ele olhou pro vidro escuro, como se a cidade lá fora fosse mais fácil de encarar do que eu. — Você não entende o que eu sou — ele disse, finalmente. — Então explica — eu respondi. — Porque até agora eu só tô aprendendo do pior jeito. Dante inspirou pelo nariz, devagar. — Eu sou o tipo de homem que transforma sentimento em fraqueza — ele disse. — E fraqueza... é convite. Meu estômago apertou. — Convite pra quem? Dante me olhou como se eu fosse lenta por não ter nascido naquele mundo. — Pra qualquer um que queira ver meu sangue — ele disse. — Pra qualquer um que queira ver Lorenzo cair. Pra qualquer um que queira tirar Salvatore do caminho. Pra qualquer um que queira usar Luca. Ele aproximou o rosto um pouco, a voz ficando mais baixa. — E, principalmente, pra qualquer um que queira me controlar. Eu senti a pele arrepiar. — E eu... sou isso? Um jeito de te controlar? Dante respondeu rápido demais. — Não. A força do "não" me atingiu como um choque. Não era negação fria. Era defesa. Eu engoli em seco. — Então por que você me trata como se eu fosse uma coisa? — a minha voz falhou no final, e eu odiei dar esse gosto. — Você diz que eu sou sua. Você decide meu dia, minha roupa, meu palco. Você me afasta quando quer e me puxa quando quer. Dante ficou em silêncio por um segundo longo, olhando pro nada. Quando ele falou, a voz dele veio diferente. Não suave. Mas... mais nua. — Porque quando eu não decido, eu perco — ele disse. — E eu não fui criado pra perder. Eu senti minha raiva se transformar em outra coisa mais perigosa: dor. — Eu não sou um jogo — eu sussurrei. Dante virou o rosto, e o olhar dele me prendeu de novo. — Eu sei. — Não sabe não — eu explodi, baixinho, pra não chamar atenção do motorista. — Porque você entra no meu espaço e me marca como se tivesse direito. E eu... eu tenho que voltar pro camarim e ouvir aquelas meninas me chamando de tudo quanto é nome. Eu tenho que subir no palco e fingir que eu não tô desmoronando por dentro. Meu peito subia e descia rápido. Eu sentia a garganta apertar. Eu estava a um passo de chorar, e aquilo me humilhava mais do que qualquer insulto. Dante me observou como se eu fosse uma ferida aberta. — Eu resolvi porque eu não aguento mais ser esmagada. E vou continuar não aceitando. Dante inclinou a cabeça, como se aquilo fosse a coisa mais verdadeira que eu já disse.
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