1. Elena
A vida nunca foi justa comigo. Mas também... quem disse que deveria ser?
Nasci em uma casa onde o dinheiro sempre falou mais alto que o amor. Onde gritos eram mais constantes que abraços, e as aparências importavam mais que a verdade. Meu pai era um homem de muitos contatos: políticos, empresários, criminosos. Ele sabia sorrir em frente às câmeras e quebrar copos contra a parede quando as portas se fechavam. Um verdadeiro artista da hipocrisia.
Minha mãe foi embora quando eu tinha oito anos. Disse que não aguentava mais viver com um monstro. Me deixou pra trás como se eu fosse parte dele. Talvez eu fosse.
Cresci ouvindo que eu devia ser perfeita. Calada. Impecável. Comportada. Como se eu fosse um bibelô em exposição. Estudei em colégios caros, andei em carros de luxo, frequentei festas de gente podre por dentro com taças de cristal na mão. Mas por dentro, eu sempre fui outra coisa. Algo que ninguém enxergava.
Sempre soube que meu pai devia dinheiro. Ele vivia fazendo apostas, negociando com gente errada, fingindo ter mais poder do que realmente tinha. Só que, dessa vez, ele cruzou uma linha sem volta. E decidiu que a melhor maneira de resolver isso, era me vender.
— "Você é bonita, Elena. Vai servir pra alguma coisa na vida." — Essas foram as palavras dele quando assinou minha sentença.
Fui jogada no banco de trás de um carro preto, sem direito a malas ou despedidas. Nenhuma explicação. Nenhum plano de fuga. Só uma certeza que queimava dentro de mim: a partir de agora, minha vida não era mais minha.
Disseram que eu ia trabalhar em uma boate. Que o novo dono era um homem perigoso. Que bastava fazer o que ele mandasse e eu não teria problemas.
Fácil falar quando não é o seu corpo em jogo. Quando não é sua liberdade sendo arrancada.
Mas o que eles não sabiam... era que eu nunca fui tão fácil de quebrar quanto pareço. Podem ter vendido meu corpo Mas minha alma? Essa ninguém leva sem luta.
O carro parou em frente a uma fachada de vidro espelhado. Luxuosa. Imponente. Com um letreiro vermelho que piscava em silêncio: Inferno.
Pensei que fosse ironia. Mas não era. Era o nome da boate. Inferno.
Do lado de fora, parecia mais uma daquelas casas noturnas caras onde homens de terno compravam garrafas com preços obscenos só pra se sentirem importantes. Mas bastou uma porta abrir pra eu perceber que aquilo era muito mais do que uma boate. Era um império.
Luzes vermelhas. Correntes douradas pendendo do teto. Um palco circular no centro, com um pole de aço brilhante iluminado por holofotes. Mulheres dançavam com precisão quase artística. Não havia vulgaridade no movimento. Era beleza selvagem, controle, domínio. Elas pareciam livres. Mas eu sabia que não eram.
— Bem-vinda ao seu novo lar, princesa — murmurou o segurança ao meu lado, empurrando uma porta dupla.
Fui recebida por uma mulher elegante, vestida toda de preto, salto agulha e batom vermelho. Parecia saída de um filme de máfia.
— Elena, certo? Eu sou Rafaella. Sou a gerente daqui. Se fizer tudo certo, a vida pode ser muito mais fácil do que você imagina — ela disse, sorrindo com os lábios, mas não com os olhos.
Me entregaram um quarto no andar de cima, com cama king-size, closet embutido, banheiro de mármore. Um luxo sufocante. Como se quisessem me fazer esquecer que eu estava presa.
No dia seguinte, acordei com batidas secas na porta.
Era Rafaella de novo.
— Hora do treino.
Fui levada até um estúdio espelhado nos fundos da boate. Dentro, uma mulher chamada Ivy esperava. Alta, corpo escultural, cabelos vermelhos presos num coque. Ela não sorriu. Só apontou pro pole.
— Sobe. Quero ver do que você é feita.
Nunca tinha dançado. Nunca tinha subido num poste. Mas tinha raiva o suficiente pra me manter de pé.
As primeiras tentativas foram um desastre. Escorreguei, caí, ralei o braço. Ivy nem piscou. Só cruzou os braços e disse:
— Se você aprender a dançar, só dançar, talvez o patrão mantenha sua palavra.
— Que palavra? — perguntei, ofegante.
— Que você não vai precisar abrir as pernas pra ninguém.
Engoli em seco. Então era isso. Uma barganha. Um jogo de desempenho. Se eu brilhasse no palco, podia manter alguma dignidade. Se não... bem, eu já sabia o que acontecia com as que não brilham.
Nos dias seguintes, meu corpo passou a doer inteiro. Músculos que eu nem sabia que existiam latejavam. Eu treinava até minhas mãos não conseguirem mais segurar a barra. Mas eu não parei. Porque eu preferia me quebrar por dentro do que deixar alguém me quebrar por fora.
A cada queda, eu me levantava mais dura. A cada roxo novo na pele, uma parte da antiga Elena morria. A frágil. A obediente. A que aceitava tudo calada.
Eu ia aprender. Ia me tornar a melhor dançarina daquela maldita boate. Porque era isso ou virar mais uma alma vazia vendida no escuro.
(…)
A música pulsava como um coração fora do peito.
Eu podia ouvir os graves batendo sob meus pés, o som dos copos se chocando, das risadas masculinas, do estalo de dedos chamando garçonetes. Lá fora, a boate fervia. Aqui dentro, na coxia, minhas mãos tremiam.
— Você está pronta — disse Ivy, com o mesmo tom frio de sempre. — Vai entrar quando a luz vermelha acender. Lembre-se: os olhos deles não importam. Só os seus.
— E se eu errar? — minha voz saiu baixa, quase engasgada.
— Então você sorri, joga o cabelo e continua. Aqui, até a queda pode ser sexy.
Ela me virou de costas, ajeitou o laço da minha lingerie preta e passou os dedos pela minha nuca com firmeza. Um gesto que parecia mais de alerta do que de carinho.
A luz vermelha acendeu era meu sinal.
Entrei.
O salão se abriu diante de mim como um inferno decorado com ouro. Homens em ternos caros ocupavam mesas, taças na mão, cigarros acesos, olhos famintos. Luzes rubras banhavam tudo de forma sensual, e no centro... o pole.
Minha prisão de metal.
Cada passo que dei até o centro foi como andar sobre cacos de vidro. Mas eu mantive a cabeça erguida. Se eles queriam um show, iam ter.
A música começou. Um ritmo lento, provocante. Grave. Fechei os olhos. Inspirei fundo e me movi.
Meus dedos deslizaram pela barra como aprendi, minhas pernas giraram com mais confiança do que eu achei que teria. A dor nos braços, nas coxas, nos pés... tudo desapareceu quando senti os primeiros aplausos abafados.
Homens sorrindo. Outros rosnando. Alguns apenas encarando, como se quisessem me desmontar com o olhar.
Mas eu continuei. Porque cada giro meu era um "f**a-se" pro meu pai. Cada arquear do meu corpo era um grito entalado na garganta. Cada vez que eu dançava, eu roubava de volta um pedaço da minha liberdade.
E foi quando eu estava no topo do pole, pernas cruzadas em volta do aço, que senti. Um olhar diferente. Mais frio. Mais fundo. Como uma lâmina.
Meus olhos varreram o salão.
No camarote escuro, no andar de cima, havia uma silhueta sentada, observando. Não bebia. Não sorria. Não se mexia. Só olhava. Como se estivesse me estudando.
Eu soube. Antes mesmo de ver seu rosto com clareza. Era ele: Dante Valentini.
O homem que comprou minha liberdade. O d***o vestido de terno. O dono do inferno.