2. Dante

897 Words
Meu pai não deixou um testamento. Deixou uma lista de mandamentos. Foi numa tarde em que o cheiro de éter competia com o das flores roubadas do jardim da minha mãe. O velho estava sentado, a camisa aberta, a pele já fina como papel caro. Lorenzo de pé, sólido como sempre. Salvatore encostado na janela, fumando sem acender. Luca fingindo leveza, a mão tremendo no bolso. Eu no pé da cama, contando batimentos pelo pescoço do homem que nos fez. — Dinheiro sem história cheira a sangue — disse. — Vocês querem manter o reino? Cada um constrói um império limpo. Legal. Auditável. Bonito de olhar. E grande o suficiente para engolir o que a gente esconde. Ergueu dois dedos: — Um, façam dinheiro que paga imposto. Dois, criem narrativas: o público precisa acreditar que a riqueza de vocês vem do que dá para por numa capa de revista. O resto foi silêncio. Na semana seguinte, ele morreu. Salvatore vestiu a coroa enquanto a sala ainda tinha cadeira vazia de condolências. Meses depois, Lorenzo assumiu como Don porque o conselho precisa dormir de noite, e Lorenzo é o único que faz monstros parecerem planilhas. Eu não precisei pensar muito. Cassinos eram do Salvatore. Fundos e tecnologia, do Lorenzo. Luca... Luca tem alma de vitrine, caridade, eventos, sorrisos que tiram foto sozinhos. Sobrava o noite. O teatro onde homens mostram mais quando acham que ninguém está vendo. Boates. Casas noturnas. Palcos. Luz. Som. Controle. Não foi impulso. Eu sentei com advogados que falam como notários e com fiscais que falam com os olhos. Desenhei uma teia de empresas com nomes discretos, holdings, sociedades de propósito específico, prestadoras de serviço. Comprei licenças onde dava, aluguei onde não dava, apadrinhei quem assinava alvarás. Investi no que muita gente ignora: acústica que não incomoda vizinho, rota de saída que não vira manchete, treinamento de segurança para imobilizar sem filmagem feia. Descobri o óbvio que ninguém admite: a noite é um banco sem fila. Fluxo de caixa constante, pagamento imediato, poucas devoluções. O resto é matemática moral: bebem mais onde se sentem protegidos, gastam mais onde se sentem vistos. Então eu vendo sensação com a mesma frieza com que o Lorenzo vende previsões. Integrei tudo. Bebida com importadora nossa. Segurança contratada da nossa empresa. DJ residente que só toca por nossa agência. Iluminação, som, bar, limpeza, tudo conversando sob a mesma farsa bem-feita. Onde o dinheiro entra, eu decido por onde ele sai. E nada, nada, acontece sem passar pela minha mão, nem a música. Regra não é mania. É alavanca. Eu escrevi as minhas nos bastidores, numa lousa que ninguém ousa apagar: 1. Ninguém encosta em quem trabalha. 2. Ninguém bebe trabalhando. 3. Pontualidade não negocia. 4. O palco é soberano. 5. Quem insiste, aprende. (E comigo, se for o caso.) Chamam isso de sadismo. Eu chamo de engenharia. Dor ensina. Medo educa. Repetição faz milagre. O Inferno foi o primeiro templo. Depois vieram o Purgatório, o Paraíso (ironia barata vende mesa), as filiais internacionais com nomes de drinks que turistas pronunciam errado. Mantive os camarotes escuros suficientes para caber pecado caro, e luz suficiente para câmera enxergar rosto. Um lugar onde o homem que manda esquecer do dia também assina contrato depois do terceiro uísque. Onde promessas, como meu pai ensinou, ganham história para parecerem limpas. Foi nesse circuito fechado, funcional, sem sobressaltos, que alguém bateu a porta do meu escritório com um problema que cheirava a alcool barato e a desespero. — A dívida é alta, Dante — me disseram. — O homem não tem mais nada. Ofereceu a filha. Eu não compro gente. Eu posso. Não é o meu modelo. Mas modelos existem até que alguém inventa uma exceção. O pai de Elena me deveu antes de me conhecer. Devia a cidade, devia a si mesmo. Gente assim troca qualquer coisa, inclusive quem não devia entrar na conta. Eu olhei para números, riscos, mensagem. E aceitei. Não por necessidade. Por controle. Aquela boate era um circo. Luxuoso, sim. Lotado, também. Mas ainda assim, um maldito circo. E como todo circo, tinha palhaço querendo fazer graça onde não devia. — Me diz de novo por que o caixa da noite passada não fechou? — rosnei, encarando Enrico, meu gerente, com os olhos semicerrados. — Tivemos um problema com a entrega das bebidas... e um segurança novo recebeu gorjeta por fora. Já mandei tirar ele da escala — respondeu ele, suando frio. — Não quero problemas pequenos acumulando, Enrico. Pequenas falhas viram rachaduras. E rachaduras afundam navios. Entendido? Ele assentiu, pálido. Fechei a pasta sobre a mesa e me recostei na cadeira. Não era pra eu estar ali naquela noite. Tinha negócios maiores a resolver, uma reunião com os russos marcada pra dali dois dias, e meu irmão mais novo ligando no meu ouvido sobre a entrega de armamento no porto. Mas o Inferno precisava de presença, a minha presença. E quando o dono some, as cobras começam a sair do buraco. Peguei um copo de uísque no bar do escritório, servindo mais pela necessidade de silenciar a cabeça do que por prazer. O vidro do meu camarote dava visão direta pro palco, mas eu raramente olhava. Já tinha visto centenas dançarem ali. Todas lindas. Todas treinadas. Todas esquecíveis. Até que a música mudou. Um grave sensual, lento, envolvente. Não sei por que olhei naquela hora. Mas olhei e vi…
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