3. Dante

1036 Words
Ela entrou como quem carregava o próprio luto na alma. Usava preto. Andava com raiva nos quadris. Mas quando segurou o pole... alguma coisa mudou no ar. Os homens começaram a reagir como sempre. Gritos, risos, assobios. Mas eu fiquei em silêncio. Porque ela não era como as outras. Ela não dançava pra eles. Ela dançava como se estivesse quebrando correntes invisíveis. Cada giro dela no metal parecia desafiar alguma coisa que eu não conseguia nomear. Ela não era perfeita tecnicamente. Ainda era nova naquilo. Mas havia uma fúria crua nos movimentos. Uma energia indomável. Bruta. Quase perigosa. Eu me inclinei pra frente no sofá de couro. Meu copo parou na mão, e tentei ver por baixo da mascara. — Quem é ela? — perguntei, sem tirar os olhos dela. Enrico olhou pela vidraça. — A nova. Elena. A garota que o deputado deixou aqui semana passada como parte do acerto. Disse que não queria colocá-la nos quartos. Que se ela dançasse bem, podia ficar só no palco. Lembra? Sim. Eu lembrava. Vagamente. Mas agora ela tinha um nome e um corpo que não tremia diante da multidão. Tinha fogo nos olhos. E cicatrizes na alma. Elena. A menina que dançava como quem sangrava em silêncio. Sorri de canto, pela primeira vez naquela noite. Talvez o circo tivesse ganhado uma nova atração. Ou talvez... algo muito mais perigoso. Perto do fim, ela desceu do pole e se apropriou do chão. Quem despreza floorwork não entende de dominância. Cotovelo, quadril, queixo alto, a cadência certa de alguém que sabe que o público quer ser conduzido. Pede aplauso sem pedir. Recebe. — Luz de saída, dois segundos mais lenta — aviso, e o técnico executa antes de pensar. O final precisa cair como porta que fecha sem barulho. Acaba. O silêncio dura uma respiração inteira antes do estalo de palmas. Eu conto mentalmente: três, quatro, cinco segundos para o primeiro VIP levantar. É tempo bom. Dinheiro se levanta com média de seis. Volto a respirar. Não sorrio. A minha parte do trabalho é fingir que tudo aconteceu como eu sabia que aconteceria e aconteceu, porque eu não permito que seja de outro jeito. Lorenzo me manda mensagem curta: "Benchmark registrado. Boa aquisição." Eu não respondo. Salvatore deve estar jogando roleta com Bianca em algum resort a dois fusos daqui. Luca, posando ao lado de uma ONG que a gente banca pela metade. A família é engrenagem. Eu sou a parte que gira rápido. No vidro do camarote, meu reflexo me devolve a pergunta que evito: o que exatamente você comprou? Não a mulher. Eu não compro gente. Eu compro eficiência, disciplina, potência. Comprei um vetor novo para um palco que já conheço de olhos fechados. O problema de lidar com o desejo... é que ele começa silencioso. E quando você percebe, já tá gritando dentro de você. Desde que vi aquela garota dançar, meu pensamento não conseguiu largar o cheiro da pele dela. A forma como ela se moveu, como se estivesse desafiando todo o maldito salão, inclusive a mim sem saber quem eu era. E eu gosto disso. Gosto quando elas não sabem. Gosto mais ainda quando aprendem. — Ela se saiu bem? — perguntei, de costas, enquanto Enrico fechava o relatório da noite anterior. — Os caras adoraram. Bateu recorde de consumo durante a apresentação dela. Teve cliente perguntando se já está disponível pro privado. Franzi o cenho. — Ela não está. — Eu sei. Só tô te dizendo. Dei um gole no uísque, e fiquei alguns segundos em silêncio, encarando a cidade lá fora pela janela de vidro escurecido. — Manda ela pro quarto de espelho — falei, sem virar o rosto. Enrico hesitou. — Quer que ela vá com alguém? — Não. Sozinha. Ele não fez mais perguntas. Porque sabia o que significava quando eu dava essa ordem. O quarto de espelho era reservado. Disfarçado atrás de uma parede espelhada no fundo da boate. Lá dentro, o cliente via tudo. A dançarina, nada. Luz suave, vermelha. Nenhuma voz. Nenhum nome. Nenhuma pergunta. Apenas o jogo silencioso de poder entre quem mostra... E quem observa. Mas naquela noite, o cliente era eu. Desci discretamente por dentro da estrutura da boate, sem passar pelo salão principal. O corredor que levava ao quarto escuro era estreito, abafado, como se já anunciasse o tipo de coisa que acontecia ali. Entrei, sentei no sofá de couro escuro. Apoiei os cotovelos nos joelhos e encarei o vidro escuro na minha frente, já iluminado pelo palco reservado. Minutos depois, ela entrou. Vestia apenas o básico: uma lingerie preta nova e salto alto. O olhar estava duro. Queixo erguido. Ombros retos. Mas eu conheço medo. Medo escondido é o que mais se sente. Ela não sabia quem estava do outro lado. Se era um velho podre de rico. Um político corrupto. Um c*****o querendo comprar. E mesmo assim, ela entrou. Se posicionou no centro e dançou. Mais do que no palco principal. Mais selvagem. Mais crua. Como se não tivesse mais nada a perder. Cada movimento dela me prendia como uma corrente. Ela não se oferecia. Ela se impunha. Fechei a mão em punho. Essa menina não foi feita pra ser vendida. Foi feita pra ser domada. Ou pra destruir quem tentar fazer isso. Inclinei o corpo pra frente, os olhos cravados nela. — Continua, Elena... — murmurei, sabendo que ela não podia ouvir. — Me mostra até onde você vai, sem saber quem está te observando. Ela girou uma última vez, parando de frente pro espelho falso. O olhar dela fixo. O peito subindo e descendo. A respiração pesada. Eu não deveria ter mandado ela pra cá. Mas agora que fiz isso… não sei se consigo parar. Ainda assim, há algo que incomoda, não como falha, mas como... interesse. Eu não gosto da palavra. Interesse é porta para afeto, e afeto é areia movediça. Meu pai, se estivesse vivo, repetiria: "Crie narrativas". Eu respondo, por dentro: Controle primeiro, desejo depois. No Inferno, nada acontece por acaso. Hoje, porém, reconheço o que não planejei: uma estreia que mexeu no meu pulso como se alguém tivesse trocado o metrônomo sem me avisar. Eu não gosto de surpresas. Mas algumas, admito, valem o ingresso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD