4. Elena

1178 Words
Me vesti às pressas. As luzes do quarto escuro ainda estavam acesas quando a porta se abriu, e a segurança me chamou de volta com o mesmo tom indiferente de sempre. Como se eu tivesse acabado de servir um drinque, e não... dançado para um fantasma. Não consegui olhar nos olhos de ninguém quando passei pelo corredor. Meu coração batia alto, como se tivesse apanhado por dentro. E o pior? Eu nem sabia por quê. Era só um quarto. Uma parede espelhada. Um homem do outro lado. Silencioso. Imóvel. Invisível. Mas alguma coisa me atravessou. Durante a dança, senti como se fosse a única coisa viva naquela sala. Como se o olhar dele me despisse mais do que qualquer mão. Não houve palavra. Nem barulho. Nem gesto. Só aquela maldita sensação de ser examinada por inteiro. Cheguei no camarim, sentei no banco e fiquei olhando pro próprio reflexo. O suor ainda escorria pela lateral do meu pescoço. Minhas mãos estavam tremendo. — Foi sua primeira vez lá, né? — perguntou Ivy, surgindo atrás de mim com uma garrafa de água. Assenti. — É sempre assim? — Não. Normalmente os homens ficam excitados, batem nas paredes, assoviam... querem mostrar que estão ali. — Ela deu um meio sorriso. — Esse não fez nada. — Então você dançou pra alguém perigoso. Ela saiu antes que eu pudesse perguntar mais. E eu fiquei ali, sozinha, com a cabeça latejando. "Alguém perigoso." Essas palavras ecoaram dentro de mim. Será que era um político? Um cliente VIP? Um desses homens que podem comprar qualquer coisa, até a alma de alguém? Ou será que...? Não. Não podia ser ele. Não podia ser o dono disso tudo. Dante Valentini. Eu nunca tinha visto ele pessoalmente. Só ouvira histórias. Vozes sussurrando o nome dele com mais medo do que respeito. Diziam que ele era o d***o em pele de homem. Frio, calmo, calculista. Que não falava muito, mas quando falava, alguém sangrava. Se tivesse sido ele... Por que me colocaria lá? Por que não simplesmente me chamar, me ordenar, me usar? Bebi a água de um gole só e respirei fundo. Não importa quem estava lá dentro. Não importa se gostou, se odiou, se vai me chamar de novo. O que importa é que eu sobrevivi. E toda vez que sobrevivo, eu ganho. Mesmo que tenha dançado com o coração preso na garganta. Mesmo que, por um segundo, aquele olhar invisível tenha me feito sentir... nua de verdade. (…) Os dias viraram uma repetição silenciosa. Acordava com a luz do sol tentando atravessar as cortinas pesadas do meu quarto, tomava banho com pressa, como se a sujeira que sentia pudesse ser lavada na água, colocava a roupa preta que me davam e descia. Pole. Ensaio. Pole de novo. Make. Cabelo. Música alta. Palco. No começo, meu corpo doía tanto que eu m*l conseguia andar no fim do dia. Mas depois, a dor se tornou rotina. Parte de mim. Como se os hematomas fossem lembranças diárias de que eu ainda existia. As outras meninas me olhavam de cima a baixo. Algumas com desdém. Outras com inveja, e havia aquelas que só queriam que eu sumisse. — Você acha que é melhor que a gente? — uma delas sussurrou, certa noite, no corredor. — Não. Eu só não quero ser ninguém. Rafaella me observava com olhos de águia. Toda vez que passava por mim, ela dizia a mesma coisa: — Postura, Elena. Você dança como se estivesse com raiva. Isso assusta os clientes. Boa. Que se assustem. Desde a noite do quarto escuro, ninguém tocou no assunto. Nem uma palavra. Nem um recado. Nenhuma convocação. Mas a sensação de estar sendo observada... não passava. Às vezes, no meio do show, eu sentia. Um arrepio correndo pela nuca. Como se tivesse alguém me olhando do escuro. E toda vez que isso acontecia, eu olhava pro camarote de vidro no andar de cima. Ele sempre estava vazio. Mas alguma coisa me dizia que, em algum lugar... ele estava ali. Dante Valentini. O nome pesava nos corredores como se fosse sagrado. Nenhuma funcionária o via. Nenhuma dançarina falava sobre ele. E, ainda assim, todas sabiam que ele existia. Que tudo ali dentro era dele. Até a nossa respiração. Criei minha rotina como um escudo. Ensaio às dez. Palco às duas da manhã. Descanso às cinco. Me tornei eficiente. Rígida. Intocável. Mas quanto mais eu fingia estar no controle, mais meu corpo traía essa ilusão. As noites ficaram mais longas. Os sonhos, mais confusos. E às vezes... no escuro do quarto, eu me pegava imaginando como seria a voz dele. Será que era grave? Lenta? Fria como gelo ou quente como pecado? Me odeio por isso. Por estar começando a pensar nele. Por sentir esse nó no estômago cada vez que desço a escada esperando que, talvez hoje, ele apareça. Por temer que, quando ele vier... Eu não saiba dizer "não". Eu não sou forte. Eu só finjo bem. Por dentro, continuo a mesma garota que sempre sonhou em sair de casa e viver uma vida normal. Fazer faculdade, trabalhar com algo que eu amasse, voltar pra casa com as pernas cansadas e o coração em paz. Ser invisível. Ser livre. Mas aqui dentro... eu aprendi a sorrir com os lábios e fechar o coração. Não porque eu sou má. Mas porque, se eu abrir qualquer parte de mim, eles arrancam o resto. E ainda assim... Eu continuo vendo beleza nas coisas pequenas. Na forma como a luz do camarim brilha quando reflete nos espelhos. Na Ivy, que finge ser durona, mas sempre deixa uma garrafa de água gelada pra mim no final do ensaio. No segurança da porta dos fundos que me chama de "mocinha" e pergunta se eu dormi bem. E até nas outras meninas, mesmo quando me odeiam. Porque sei que, no fundo, elas só estão com medo, como eu. Ninguém nasce fria. A gente se congela com o tempo. Hoje, depois do ensaio, sentei no canto do palco vazio e tirei os saltos. Meus pés estavam vermelhos, latejando. Mas o silêncio me fez bem. Por alguns minutos, pude respirar sem ninguém me olhando. Ou pelo menos, achei que não estavam. Senti o mesmo arrepio. O mesmo calor estranho subindo pela espinha. Olhei pro camarote escuro lá em cima. Vazio. De novo. Ou não. Talvez tenha alguém me observando, sim. Talvez ele esteja ali. O homem que dizem ser dono de tudo. O homem que nunca aparece, mas faz todo mundo andar na linha com um olhar. Será que ele já me viu? Será que sabe meu nome? Será que fui só mais uma noite no quarto escuro, entre tantas outras? Engoli em seco. Não quero chamar atenção. Só quero sobreviver. Mas às vezes... não sei se estou sobrevivendo ou só me deixando morrer aos poucos. Porque, por mais que eu tente ser forte, por mais que eu finja estar no controle. No fundo, continuo sendo a garota boba que ainda acredita que existe saída. E talvez seja exatamente por isso... Que eu me torne a próxima presa fácil.
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