5. Elena

916 Words
Naquela noite, alguma coisa já parecia errada. Não sei explicar. Talvez o jeito que a luz piscava diferente, ou o silêncio esquisito no camarim enquanto eu me arrumava. As meninas riam baixo, cochichavam. E quando eu entrei, pararam. Só isso já dizia tudo. A inveja ali dentro era mais venenosa que o perfume que borrifavam no corredor e eu sabia que estava incomodando. Eu não era a melhor. Nem a mais sexy. Mas estava chamando atenção. E isso, naquele lugar, era o suficiente pra virar alvo. Ivy me ajudou a prender o cabelo. Rafaella passou com a prancheta na mão e disse, como sempre: — Capricha, Elena. A casa está cheia hoje. Senti o estômago virar, mas caminhei com pressa até o palco, me posicionando no centro sem sorrir para agradar absolutamente ninguém. Mas a música começou. A luz vermelha acendeu. A boate estava lotada. O som vibrava sob meus pés. A fumaça subia devagar, criando aquele efeito sensual que todos amavam. Comecei a dança como sempre. Cabeça erguida. Olhar firme. Deslizei pela barra com a delicadeza que aprendi na dor. Mas quando girei no pole, com o peso do corpo jogado no salto o sapato cedeu. O salto quebrou. Seco. c***l. Rangido de morte. Caí no chão com tudo. De lado. Com a perna dobrada num ângulo estranho. O som da queda abafou a música por um segundo. Alguém riu. Alguém ficou em silêncio. A dor no tornozelo explodiu. Como se algo tivesse rasgado por dentro. Mas mais do que dor, era a vergonha. Era a humilhação de estar ali, caída, em frente a todos. Minha visão turvou por um instante. Eu podia chorar. Podia rastejar pra fora. Podia sumir. Mas aí eu lembrei. Do quarto escuro. Do silêncio que me rasgou mais do que palavras. Do olhar que eu sentia me seguir todas as noites. Se ele estivesse vendo... se aquele homem estivesse ali, me observando... Eu não deixaria que me visse fraca. Mordi o lábio até sangrar. Apoiei a perna boa no chão e me levantei. O tornozelo latejava, quente, inchando. Mas eu continuei. Dancei. Sem salto. Mancando. Girando com a dor cortando como lâmina. O público se calou. Ninguém ria mais. Porque ali, naquela hora, eu não era só uma garota dançando. Eu era resistência. Terminei a música com o corpo em chamas. Quase caí de novo quando saí do palco, mas mantive a cabeça erguida até o fim. E quando a cortina se fechou atrás de mim, desabei. A respiração falhava. O pé já inchava. E as lágrimas, finalmente, caíram. Mas eu sorri. Porque, naquele palco, ninguém me derrubou. Nem o salto. Nem a dor. Nem a maldita inveja. Eu continuei e agora, eles nunca mais vão esquecer meu nome. — Levanta, Elena... vamos, senta aqui. A voz da Ivy não era doce. Nunca era. Mas naquela hora, soou menos fria do que o normal. Ela me ajudou a caminhar mancando até um sofá estreito no camarim dos bastidores. Meu tornozelo latejava, e o inchaço já começava a mudar a cor da pele. — Fica parada. — Ela sumiu por alguns segundos e voltou com um saquinho de gelo improvisado, embrulhado numa toalha. — Se continuar forçando esse pé, não vai dançar por semanas. — Tá doendo — sussurrei, com a garganta apertada. — Claro que tá. Você caiu de cima com um salto quebrado. Ela se agachou diante de mim, ajeitando o gelo com cuidado no local. — Foi sabotagem, não foi? — perguntou sem me encarar diretamente. Eu hesitei. Não queria acusar ninguém. Mas não precisava. Ela já sabia. — Não se preocupa. Quem fez isso vai cair também. Sempre cai. — disse, se levantando com um estalar de costas. — Você foi corajosa. Burra, mas corajosa. Podia ter se machucado de verdade ali. — Eu não queria parecer fraca — confessei, baixinho. Ela me olhou por um segundo. E, pela primeira vez, sorriu de verdade. Pequeno, discreto, mas real. — Isso... você não pareceu. O momento durou pouco. A porta se abriu com um estalo seco, e uma funcionária da gerência apareceu. O tipo de mulher que só desce dos andares superiores quando algo sério acontece. — Elena — disse, com a expressão neutra. — O senhor Valentini quer te ver. Agora. O camarim inteiro silenciou. Até a respiração das outras meninas pareceu parar por um segundo. Aí veio o sussurro venenoso, cortante como navalha, vindo da loira que sempre me lançava olhares atravessados: — Será que é agora que a santinha é expulsa do Inferno pelo chefão? As outras riram baixo. Mas eu só consegui engolir em seco. Ele. O dono disso tudo. O homem que todos temiam. O que podia ser o homem por trás do vidro do quarto escuro. O homem cujo olhar eu ainda sentia arder na pele. Tentei me levantar sozinha, mas o pé cedeu. Ivy segurou meu braço e me firmou sem dizer nada. Ajudou a colocar um dos tênis baixos que guardava no camarim e ajeitou meu cabelo com um grampo de última hora. — Vai, Elena. Não mostra medo. — E se ele...? — Então você encara. Com o queixo erguido, como fez no palco. Respirei fundo. O corredor até o elevador parecia mais longo naquela noite. Cada passo doía. Cada pensamento sussurrava uma nova tragédia. Mas eu continuei. Porque, mesmo tremendo por dentro. Eu ia conhecer o homem que mandava em tudo e talvez... o homem que já morava nos meus pensamentos, mesmo sem ter dito uma única palavra.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD