6. Elena

1052 Words
O elevador subia devagar. Ou talvez fosse o meu coração que batia rápido demais, fazendo tudo parecer lento. O espelho ao fundo refletia meu rosto ainda suado, o cabelo um pouco bagunçado, o batom quase apagado. Meus olhos estavam vermelhos. Mas eu estava de pé e isso já era alguma coisa. A porta se abriu com um som seco. Do lado de fora, um segurança me esperava. Alto, calado, terno preto, olhar de pedra. Fez sinal com a cabeça e começou a andar. Corredores limpos, paredes escuras, cheiro de madeira cara misturado com perfume masculino. Parou em frente a uma porta dupla. Bateu duas vezes e abriu. — Pode entrar. Meu coração travou, as pernas também. Mas entrei. O escritório era amplo, silencioso. As luzes baixas. A janela mostrava a cidade lá fora, as luzes dos prédios como estrelas invertidas. E ali, atrás da mesa de madeira escura... Ele. Dante Valentini. Não precisei perguntar. O ambiente se moldava à presença dele. Alto. Postura impecável. Camisa preta com as mangas dobradas até o antebraço, relógio de metal, olhar escuro demais pra ser lido. Ele não sorriu. Não se levantou. Apenas me olhou como se já soubesse tudo o que precisava. — Sente-se — disse, com a voz grave, baixa e firme. Obedeci sem discutir. A cadeira era macia, mas meu corpo estava rígido demais pra sentir qualquer conforto. Ele me observou por longos segundos num silencio absoluto. Só o barulho do gelo se movendo no copo que ele segurava. — O salto foi sabotado — afirmou. Não perguntou. — Eu... não sei. — menti. — Não minta pra mim, Elena. O som do meu nome saindo da boca dele me deu calafrios. Ele sabia meu nome. Ele sabia tudo. Abaixei os olhos, nervosa. Ele continuou: — Você caiu feio. Torceu o tornozelo. Podia ter se machucado seriamente. — Mas eu continuei — falei, como se precisasse justificar. Pela primeira vez, os olhos dele mudaram. Um leve... quase imperceptível brilho de aprovação. Mas sumiu rápido. — Por quê? — Porque... — respirei fundo — ...ninguém me tira do palco. Nem com dor. Nem com humilhação. O silêncio voltou e então ele se levantou com passos lentos e precisos. Deu a volta na mesa e ficou diante de mim. A presença dele era sufocante. Cheiro de poder, perigo e alguma coisa que eu não sabia nomear. Ele abaixou um pouco o olhar, encarando minha perna. — Mostra. — O quê? — perguntei, confusa. — O pé. Minha respiração falhou. Mas obedeci. Tirei o tênis devagar. O tornozelo estava feio, roxo, inchado. Dante ajoelhou. Sim. O chefão ajoelhou diante de mim. Segurou meu pé com firmeza, mas sem força. Os dedos frios contra minha pele quente. — Vai precisar de gelo, repouso e anti-inflamatório. — Você... é médico agora? — soltei, sem pensar. Ele ergueu os olhos. Por um segundo, achei que fosse me matar com aquele olhar. Mas um canto da boca dele subiu. Ele estava sorrindo. — Sou tudo o que eu precisar ser. Ficamos em silêncio. O coração martelava no meu peito e ele ainda segurava meu pé. Como se não tivesse pressa. Como se já tivesse me tomado, mesmo sem tocar de verdade. — A partir de hoje, você não dança mais no palco principal. Minha garganta secou. — Eu... fui rebaixada? Ele ficou de pé, voltou a encarar de cima. — Não. Você foi promovida. — Promovida? Ele bebeu o resto do uísque. Virando de costas. — Você dança só pra mim agora. — Não — falei, quase num sussurro. — Por favor, não faz isso comigo. Dante parou no mesmo instante. Virou de volta devagar, como se minhas palavras tivessem prendido o ar do cômodo. — Como disse? — Eu não posso dançar só pra você. Isso vai... vai me colocar na mira. Mais do que já estou. — engoli em seco, sentindo meu peito apertar. — Tem meninas aqui há anos. Com mais técnica. Com mais... tudo. Eu ainda sou nova. Fraca. Eu nem devia estar aqui. Minha voz falhava. Mas eu continuei. — Eu só quero trabalhar em paz. Aprender. Ficar invisível. Me esconder. — respirei fundo. — Não quero privilégios. Não quero palco exclusivo. Por favor... não me escolhe. Ele ficou me olhando como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo. — Você tá pedindo pra voltar pro meio da multidão? Mesmo com essas meninas tentando te engolir viva? — Eu só dancei. — Não. Você caiu. E se levantou. Machucada. E ainda assim terminou a apresentação como se fosse a única no palco. Sabe quantas ali fariam isso? — Qualquer uma — respondi, sincera. — Porque todas estão desesperadas por atenção. Ele deu um passo à frente. A presença dele me engoliu. — Mas você não. — Exatamente. Eu não quero atenção. — E é por isso que eu quero você. — O quê? — Meus olhos se arregalaram. — Eu poderia ter escolhido qualquer uma. Tem meninas mais experientes, mais ousadas, mais moldadas pro palco. Mas elas são previsíveis. Ambiciosas. Fáceis de ler. — ele se inclinou um pouco. — Você não. Você é... diferente. — Diferente não é melhor — rebati, com a voz tremendo. — É só mais perigoso. — Essa decisão não é delas. — O olhar dele ficou mais sério. — Mas elas vão me odiar. — E o que elas sentem não muda o que eu quero. Meu coração parou. Por um segundo, o silêncio pesou entre nós. Eu queria gritar. Queria correr. Mas também queria entender o motivo por trás daquela obsessão. — Por que você está fazendo isso? Ele me encarou por longos segundos, os olhos escuros como um abismo. — Porque você me intriga. — Eu não quero intrigar ninguém. — Pena. Porque você já conseguiu. Senti um nó na garganta. As mãos suadas. O corpo leve, como se eu não pertencesse mais a lugar nenhum. — Você parece ser c***l — sussurrei, com sinceridade. — Não. — ele se aproximou, devagar, até ficar tão perto que eu pude sentir o perfume amadeirado da pele dele. — c***l seria deixar você ali no meio das cobras. — E me puxar pra cova do lobo é melhor? Ele sorriu. De canto. Lento. Letal. — Pelo menos aqui, você vai saber exatamente quem tá te devorando.
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