capitulo 31

1302 Words
Ecos de ciúme A manhã avançava com uma tranquilidade apenas aparente. A suíte ainda guardava vestígios da noite anterior: o cheiro de café recém-passado, a luz clara entrando sem pedir licença, e um silêncio que já não era o mesmo — agora carregava pequenas tensões que nenhum dos dois ousava nomear. Lita estava perto da janela, vestida de forma simples e elegante para o dia de trabalho. Uma calça de corte reto, camisa clara, cabelo preso com praticidade. Havia retomado, quase instintivamente, a mulher organizada e eficiente que sempre fora. Rogério, por sua vez, observava-a enquanto ajustava o relógio no pulso. O olhar era atento demais, como se buscasse garantias onde ainda não havia promessas. Mesmo diante das tensões, ainda fluía uma boa conversa e reajuste do que tinha que ser feito na reunião e nas obras. Rogerio sempre ali cercando e tentado ler a linguagem corporal da Lita O celular de Lita vibrou sobre a mesa. Ela olhou o nome no visor e sentiu um leve aperto no peito: Roberto. Atendeu com naturalidade. — Bom dia, Roberto. Do outro lado da linha, a voz calorosa e entusiasmada do professor de literatura trouxe um contraste imediato com o ambiente silencioso da suíte. — Lita, que bom falar com você! Estava pensando… você estaria livre para almoçarmos hoje? Conheço um lugar tranquilo, acho que você ia gostar. Lita respirou fundo, consciente de que Rogério estava a poucos passos de distância. Não havia nada de errado naquela ligação — ainda assim, algo parecia delicado demais para aquele momento. — Roberto, eu adoraria — respondeu com sinceridade —, mas estou em viagem de trabalho. Fora do país, inclusive. — Ah… — ele pareceu surpreso. — Que pena. Mas quando voltar, combinamos? — Claro. A gente marca sim — respondeu, com gentileza. Despediram-se com cordialidade. Ao desligar, Lita percebeu o silêncio denso atrás de si. Virou-se. Rogério estava parado, braços cruzados, expressão fechada demais para quem, horas antes, falava em conexão e paz. — Um almoço? — perguntou ele, num tom que tentava soar casual, mas falhava. — Um amigo — respondeu Lita, direta. — Roberto. Professor de literatura. Um grande admirador… das palavras. Ela tentou suavizar com um meio sorriso, mas Rogério não acompanhou. — Admirador… — repetiu, como se a palavra tivesse gosto amargo. — Rogério, não começa — disse ela, já prevendo o caminho daquela conversa. Ele deu alguns passos pelo ambiente, inquieto. — Não estou começando nada. Só estou… tentando entender. — Entender o quê? — Quem mais está orbitando você — respondeu, sem rodeios. Lita sentiu o incômodo crescer. Não pelo ciúme em si — ela entendia a fragilidade daquele início —, mas pela forma como ele surgia tão cedo, quase como uma sombra. — Eu te disse ontem que precisava ir devagar — falou com calma, mas firmeza. — E isso inclui minha vida fora daqui. Eu tenho amigos e minha vida não gira em torno de você. Eu conheço o Rogerio a anos e tenho muita gratidão por tudo que ele fez por mim no tempo da faculdade. E confesso que também tenho um admiração pelo profissional que ele é. — Eu sei — respondeu ele, passando a mão pelos cabelos. — Mas você entende como isso soa, não entende? Um homem te liga, te chama para almoçar… um homem que eu nem conheço. Isso é muito estranho — E eu digo que estou em viagem de trabalho — interrompeu ela. — Não menti. Não escondi. Não criei nada. Apenas fui sincera e disse o que estava acontecendo Ele a encarou por alguns segundos, como se lutasse internamente contra algo maior que a razão. — Eu não gosto da ideia de dividir você — confessou, por fim. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Rogério… — disse ela, aproximando-se um pouco. — Você não me divide com ninguém, porque você não é meu dono. A palavra pareceu atingir em cheio. — Eu sei — respondeu ele, mais baixo. — Mas me senti ameaçado. Não estou acostumado a sentir isso. Eu tenho tudo que eu quero, e o que eu não tenho eu luto para conquistar, sei que você não é um produto, mas olha para você Lita. Uma mulher linda, nova cheia de vida, gostosa, profissional qual homem que não te deseja? Eu sou um homem de 50 anos pai de 4 filhos um casamento frustrado e um divorcio problemático como você quer comparar? Ela suspirou. Havia ali uma vulnerabilidade real, quase crua. Ainda assim, precisava colocar limites. — Eu sou uma mulher livre. Sempre fui. Ontem foi especial, sim. Mas isso não apaga quem eu sou, nem as pessoas que fazem parte da minha vida. Ele assentiu lentamente, ainda digerindo. — Não quero te afastar — disse. — Só… não quero perder o que começou, eu estou sozinho a muitos anos Lita, e você me deixa fora do plumo. Você tira minha estabilidade. — Então confia — respondeu ela. — Confia em mim. Confia no que estamos construindo. Ciúme cedo demais pode matar algo bonito antes mesmo de crescer. Rogério a olhou por alguns segundos longos. Havia orgulho ali, mas também aprendizado. Finalmente, respirou fundo. — Você tem razão. Desculpa. Ela tocou levemente o braço dele, num gesto conciliador. — Está tudo bem sentir. Só não podemos deixar que o medo conduza as coisas. O clima se acalmou aos poucos. Ainda havia um resquício de tensão no ar, mas também algo novo: a consciência de que o que estavam vivendo exigiria maturidade, diálogo e respeito aos espaços individuais. Enquanto se preparavam para sair rumo aos compromissos do dia, ambos sabiam que aquele pequeno conflito era apenas o primeiro teste. Não um sinal de ruptura — mas um aviso silencioso de que amar, em sua forma mais adulta, também significava aprender a lidar com inseguranças. E Lita, firme em si mesma, sabia: não abriria mão da própria liberdade para caber no desejo de ninguém. Principalmente no de Rogerio. Na obra A obra ficava a poucas quadras do hotel. Um prédio antigo, de fachada imponente, mas com feridas visíveis no concreto, nos corredores estreitos e nos olhares desconfiados de quem ainda resistia a mudanças. Assim que chegaram, Lita sentiu o peso do ambiente — não físico, mas simbólico. Obras sempre foram territórios masculinos, espaços onde mulheres precisavam provar o dobro para serem ouvidas. Mulheres negras, então, precisavam provar tudo o tempo todo. Ela caminhava com postura firme, tablet em mãos, usando um conjunto de calça escura e blazer claro que destacava sua elegância profissional. O cabelo preso de forma prática, o rosto sereno, mas atento. Rogério seguia ao seu lado, observando não apenas o espaço técnico, mas também as reações ao redor. Alguns dos sócios e responsáveis pela obra lançavam olhares longos demais para Lita. Não eram olhares de admiração respeitosa — eram olhares de cobiça, curiosidade atravessada, como se tentassem encaixá-la em um lugar que não era o da competência. Um deles chegou a sorrir de canto, avaliando seu corpo de cima a baixo, sem qualquer pudor. Lita percebeu. Sempre percebia. Não mudou o passo, nem o tom de voz. — Aqui está um dos pontos críticos — disse ela, apontando para a estrutura com precisão. — O problema não é estético, é de segurança. Se não for resolvido agora, o custo será muito maior depois. Os homens se entreolharam. Um deles murmurou algo inaudível, outro apenas cruzou os braços. Rogério percebeu o desconforto e se manteve atento. Pela primeira vez desde que a conhecia, sentiu um orgulho silencioso e profundo da firmeza dela. Lita não se encolhia. Ela ocupava o espaço. Durante a vistoria, as decisões técnicas foram expostas com clareza. Lita conduzia a conversa com autoridade, embasando cada ponto com dados, normas e prazos. Ainda assim, havia resistência — não técnica, mas pessoal.
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