Um almoço constrangedor
Na hora do almoço, reuniram-se em um restaurante simples próximo à obra. A mesa era grande, retangular, ocupada por fornecedores, engenheiros e um dos donos do prédio, o senhor Álvaro. Um homem mais velho, voz grossa, olhar duro, acostumado a mandar sem ser questionado.
No início, a conversa foi protocolar. Pratos chegaram, copos se encheram. Lita manteve-se focada, profissional. Até que Álvaro resolveu falar.
— Essas normas que você está impondo — disse ele, olhando diretamente para Lita — vão atrasar tudo. Sempre fizemos assim e nunca caiu prédio nenhum.
Ela respirou fundo, mantendo a calma.
— Com todo respeito, senhor Álvaro, as normas não são imposições minhas. São exigências legais e técnicas. Ignorá-las agora pode gerar riscos sérios.
Ele deu uma risada curta, desdenhosa.
— Olha… — inclinou-se para trás na cadeira — eu já vi muito engenheiro jovem querendo mostrar serviço. Mas isso aqui é obra de verdade.
O silêncio se espalhou pela mesa.
Lita sustentou o olhar dele.
— Justamente por ser obra de verdade é que precisamos seguir os protocolos — respondeu, firme. — Não estou aqui para mostrar serviço, estou aqui para garantir segurança e qualidade, mediante ao contrato que o senhor fechou com o nosso escritório.
Álvaro estreitou os olhos.
— Você tem certeza que entende mesmo do que está falando? — perguntou, com um sorriso enviesado. — Esse tipo de coisa costuma ser… complicado.
Havia algo no tom. Não era apenas desconfiança profissional. Era preconceito. Racismo velado, mas ainda assim nítido para quem já o conhecia bem demais.
Lita sentiu o estômago contrair por um segundo. Não de fraqueza — de memória. Quantas vezes já ouvira aquilo, em variações diferentes?
Ela se endireitou na cadeira.
— Tenho certeza, sim — respondeu. — Minha formação, minha experiência e os dados que apresentei comprovam isso.
— Pois eu prefiro ouvir alguém com mais… estrada — rebateu ele, olhando rapidamente para Rogério, como se buscasse validação masculina e branca.
O ar ficou pesado.
Rogério pousou os talheres lentamente sobre o prato.
— O senhor já está ouvindo alguém com estrada — disse, com a voz baixa, mas firme. — Lita é a responsável técnica pelo projeto. E tudo o que ela apresentou tem meu total respaldo.
Álvaro pareceu surpreso. Não esperava aquela reação.
— Rogério, você sabe como essas coisas funcionam… — tentou amenizar. — Não é pessoal.
— É pessoal quando se questiona competência sem argumentos técnicos — respondeu ele, sem elevar o tom. — E não aceitaremos isso.
Lita sentiu algo diferente atravessá-la. Não era alívio. Era reconhecimento. Ele não estava apenas ao lado dela — estava com ela.
Álvaro pigarreou, visivelmente desconfortável, mas ainda deixa bem claro sua insatisfação, como ele iria aceitar algo de uma mulher ainda mais como aparência da Lita.
— Bom… — disse, desviando o olhar. — Vamos analisar melhor.
— Vamos — respondeu Lita. — Mas dentro do que é correto.
O almoço seguiu em um clima tenso, mas controlado. Alguns fornecedores trocaram olhares constrangidos, outros pareciam repensar suas posturas. O preconceito, quando exposto à luz, raramente se sustenta com elegância.
Álvaro para tentar se redimir fala: convido vocês para um coquetel hoje em um dos meus hotéis onde foi inaugurado semana passada, faço questão da presença de vocês. Irei pedir para a minha secretaria enviar o convite.
Ao saírem do restaurante, Lita respirou fundo, sentindo o peso do episódio finalmente assentar.
— Você está bem? — perguntou Rogério, assim que ficaram a sós.
— Estou — respondeu ela, após alguns segundos. — Não é a primeira vez. Mas nunca é fácil.
Ele parou, olhando-a com seriedade.
— Aquilo não vai se repetir — disse. — Não comigo aqui. Se você não quiser ir no coquetel hoje não precisamos ir.
Ela o encarou, com uma mistura de gratidão e cautela.
— Eu sei me defender, Rogério, mas agradeço sua preocupação. Sim iremos nesse coquetel pois, sou responsável e profissional
— Eu sei — respondeu ele. — Mas isso não significa que você precise enfrentar tudo sozinha.
O olhar entre eles carregava algo novo. Não posse. Não controle. Mas parceria.
Lita assentiu lentamente.
— Obrigada — disse, simplesmente.
Voltaram à obra com passos mais alinhados. O dia ainda exigiria decisões difíceis, negociações duras, resistência. Mas algo havia mudado. O pequeno conflito da manhã ganhara outra camada, mais profunda e real. Era também escolher de que lado ficar quando o mundo tentava diminuir quem se ama.
E Rogério havia escolhido o lado dela