Capitulo 32

746 Words
Um almoço constrangedor Na hora do almoço, reuniram-se em um restaurante simples próximo à obra. A mesa era grande, retangular, ocupada por fornecedores, engenheiros e um dos donos do prédio, o senhor Álvaro. Um homem mais velho, voz grossa, olhar duro, acostumado a mandar sem ser questionado. No início, a conversa foi protocolar. Pratos chegaram, copos se encheram. Lita manteve-se focada, profissional. Até que Álvaro resolveu falar. — Essas normas que você está impondo — disse ele, olhando diretamente para Lita — vão atrasar tudo. Sempre fizemos assim e nunca caiu prédio nenhum. Ela respirou fundo, mantendo a calma. — Com todo respeito, senhor Álvaro, as normas não são imposições minhas. São exigências legais e técnicas. Ignorá-las agora pode gerar riscos sérios. Ele deu uma risada curta, desdenhosa. — Olha… — inclinou-se para trás na cadeira — eu já vi muito engenheiro jovem querendo mostrar serviço. Mas isso aqui é obra de verdade. O silêncio se espalhou pela mesa. Lita sustentou o olhar dele. — Justamente por ser obra de verdade é que precisamos seguir os protocolos — respondeu, firme. — Não estou aqui para mostrar serviço, estou aqui para garantir segurança e qualidade, mediante ao contrato que o senhor fechou com o nosso escritório. Álvaro estreitou os olhos. — Você tem certeza que entende mesmo do que está falando? — perguntou, com um sorriso enviesado. — Esse tipo de coisa costuma ser… complicado. Havia algo no tom. Não era apenas desconfiança profissional. Era preconceito. Racismo velado, mas ainda assim nítido para quem já o conhecia bem demais. Lita sentiu o estômago contrair por um segundo. Não de fraqueza — de memória. Quantas vezes já ouvira aquilo, em variações diferentes? Ela se endireitou na cadeira. — Tenho certeza, sim — respondeu. — Minha formação, minha experiência e os dados que apresentei comprovam isso. — Pois eu prefiro ouvir alguém com mais… estrada — rebateu ele, olhando rapidamente para Rogério, como se buscasse validação masculina e branca. O ar ficou pesado. Rogério pousou os talheres lentamente sobre o prato. — O senhor já está ouvindo alguém com estrada — disse, com a voz baixa, mas firme. — Lita é a responsável técnica pelo projeto. E tudo o que ela apresentou tem meu total respaldo. Álvaro pareceu surpreso. Não esperava aquela reação. — Rogério, você sabe como essas coisas funcionam… — tentou amenizar. — Não é pessoal. — É pessoal quando se questiona competência sem argumentos técnicos — respondeu ele, sem elevar o tom. — E não aceitaremos isso. Lita sentiu algo diferente atravessá-la. Não era alívio. Era reconhecimento. Ele não estava apenas ao lado dela — estava com ela. Álvaro pigarreou, visivelmente desconfortável, mas ainda deixa bem claro sua insatisfação, como ele iria aceitar algo de uma mulher ainda mais como aparência da Lita. — Bom… — disse, desviando o olhar. — Vamos analisar melhor. — Vamos — respondeu Lita. — Mas dentro do que é correto. O almoço seguiu em um clima tenso, mas controlado. Alguns fornecedores trocaram olhares constrangidos, outros pareciam repensar suas posturas. O preconceito, quando exposto à luz, raramente se sustenta com elegância. Álvaro para tentar se redimir fala: convido vocês para um coquetel hoje em um dos meus hotéis onde foi inaugurado semana passada, faço questão da presença de vocês. Irei pedir para a minha secretaria enviar o convite. Ao saírem do restaurante, Lita respirou fundo, sentindo o peso do episódio finalmente assentar. — Você está bem? — perguntou Rogério, assim que ficaram a sós. — Estou — respondeu ela, após alguns segundos. — Não é a primeira vez. Mas nunca é fácil. Ele parou, olhando-a com seriedade. — Aquilo não vai se repetir — disse. — Não comigo aqui. Se você não quiser ir no coquetel hoje não precisamos ir. Ela o encarou, com uma mistura de gratidão e cautela. — Eu sei me defender, Rogério, mas agradeço sua preocupação. Sim iremos nesse coquetel pois, sou responsável e profissional — Eu sei — respondeu ele. — Mas isso não significa que você precise enfrentar tudo sozinha. O olhar entre eles carregava algo novo. Não posse. Não controle. Mas parceria. Lita assentiu lentamente. — Obrigada — disse, simplesmente. Voltaram à obra com passos mais alinhados. O dia ainda exigiria decisões difíceis, negociações duras, resistência. Mas algo havia mudado. O pequeno conflito da manhã ganhara outra camada, mais profunda e real. Era também escolher de que lado ficar quando o mundo tentava diminuir quem se ama. E Rogério havia escolhido o lado dela
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