Anoite após sair da empresa
Sr. Pereira
Pedro enxugava o balcão quando viu o Sr. Pereira entrar novamente, naquela noite. O restaurante já estava quase fechando, cadeiras viradas sobre as mesas, o cheiro de comida ainda suspenso no ar. Era a quarta vez naquela semana.
— Ainda tem cozinha? — perguntou o homem, sem olhar ao redor.
— Sempre — respondeu Pedro. — Mas vai ter que comer o que sobrou do dia.
O Sr. Pereira sentou-se.
— Surpreenda-me.
Pedro voltou para a cozinha sem pressa. Não era vaidade. Era intuição. Preparou algo simples, do jeito que sua mãe faria: comida quente, bem temperada, honesta. Quando colocou o prato à frente do cliente, notou algo diferente. O Sr. Pereira não abriu o celular. Não olhou o relógio. Comeu em silêncio.
— Você não mudou nada desde a primeira vez — disse ele, após alguns minutos. — Mesmo com mais gente vindo.
— Se mudar isso, perco o motivo — respondeu Pedro, apoiando-se no balcão.
O Sr. Pereira o observou com atenção incomum.
— Sabe o que acontece com a maioria das pessoas quando cresce?
Pedro deu de ombros.
— Esquecem de onde vieram.
— Exatamente.
Houve um silêncio confortável. Não constrangedor. Raro.
— Já pensou em expandir? — perguntou o Sr. Pereira, finalmente.
Pedro pensou antes de responder.
— Já. Mas só quando eu tiver certeza de que não vou virar algo que não reconheço.
Um canto do lábio do Sr. Pereira se moveu. Quase um sorriso.
— Você é mais velho do que parece.
— A vida tratou disso — respondeu Pedro.
Naquela noite, o Sr. Pereira pagou a conta e deixou o cartão sobre a mesa.
— Se um dia quiser conversar sobre negócios… — disse, levantando-se — sem pressa, sem promessa.
Pedro assentiu.
— Se for conversa de verdade, eu topo.
Quando o restaurante fechou de vez, Pedro ficou alguns minutos sentado sozinho. Pensou no homem que acabara de sair: poderoso, rígido, claramente solitário. Pensou também em Joelma, que o esperava em casa, cheia de planos e inquietações.
Ele estava no meio de dois mundos.
Dias depois, o convite veio. Um almoço fora do restaurante. Depois outro. Conversas que começaram técnicas e terminaram pessoais demais para serem ignoradas. O Sr. Pereira nunca falava de sentimentos, mas Pedro aprendia a ouvir o que ficava nos intervalos.
Foi em uma dessas conversas que o nome de Lita surgiu pela primeira vez.
— Tenho uma gerente que me desafia — disse o Sr. Pereira, como quem comenta o clima. — Não pede nada. Não teme nada.
Pedro ergueu o olhar.
— Gente assim costuma mudar coisas.
— Ou causar problemas — respondeu o outro.
Pedro sorriu de leve.
— Às vezes, é a mesma coisa.
O Sr. Pereira ficou em silêncio.
Naquele instante, Pedro não sabia, mas seu papel estava se ampliando. Ele não era mais apenas um empresário em ascensão ou um amigo improvável. Estava prestes a se tornar ponte — entre mundos, entre pessoas, entre escolhas que ainda resistiam a ser feitas.
E, como tudo na sua vida, Pedro seguiria com calma.
Porque algumas histórias não precisam ser apressadas. Elas apenas precisam ser sustentadas.
Na manha seguinte
No escritório...
Acordei antes do despertador tocar.
O quarto ainda estava escuro, silencioso demais. Fiquei alguns segundos encarando o teto, esperando aquela sensação automática de urgência que sempre me fazia levantar sem pensar. Ela não veio. No lugar, veio o rosto dela. A voz calma. A frase dita sem hesitação.
O problema não é técnico. É humano.
Passei a mão pelo rosto com força, como se pudesse apagar o pensamento. Levantei. O relógio marcava 4h42. A rotina ainda estava intacta, mas algo nela parecia fora de lugar.
No banheiro, deixei a água fria cair sobre o corpo por mais tempo do que o habitual. Fechei os olhos. Normalmente, esse era o momento em que minha mente se organizava. Números, decisões, listas. Naquela manhã, tudo voltava para a mesma conversa. Para o silêncio que veio depois. Para o fato incômodo de eu não ter encerrado a reunião como sempre fazia.
Vesti o terno com cuidado excessivo. Ajustei a gravata duas vezes. Nenhuma parecia certa. Afrouxei o nó e deixei assim. Um detalhe pequeno, irrelevante para qualquer outra pessoa — mas não para mim.
Na cozinha, ignorei a cafeteira sofisticada e abri uma cerveja esquecida na geladeira. Olhei para a lata por um segundo antes de fechá-la novamente. Ainda era cedo. Ou talvez eu só não quisesse mais usar isso como anestesia.
No trajeto até a empresa, observei a cidade acordando. Pessoas esperando ônibus, vendedores montando barracas, trabalhadores que nunca chegariam ao último andar de prédio nenhum. Pensei no que Lita diria sobre aquilo. No que eu sempre ignorei.
No escritório, a secretária levantou-se imediatamente.
— Bom dia, senhor.
— Bom dia — respondi, automático.
Entrei na sala e fechei a porta. A pasta do projeto da Zona Sul estava sobre a mesa, exatamente onde eu a deixara na noite anterior. Sentei-me e a abri novamente, mesmo já conhecendo cada número. Desta vez, li como se estivesse vendo tudo pela primeira vez.
Dois afastamentos. Horas extras acumuladas. Alertas ignorados.
Peguei o telefone.
— Traga a equipe de gestão às nove — disse. — E chame a Lita.
Houve uma breve pausa do outro lado.
— A senhora Lita?
— Sim.
Desliguei antes que qualquer pergunta viesse.
Encostei-me na cadeira e respirei fundo. Não era arrependimento. Também não era concessão. Era algo mais difícil de admitir: dúvida. Eu, que sempre soube exatamente o que fazer, agora precisava ouvir.
Olhei pela janela do último andar. A cidade parecia menor naquela manhã. Ou talvez eu estivesse começando a enxergar outras camadas dela.
Pela primeira vez em muitos anos, não pensei apenas no que precisava ser feito. Pensei em como.
E isso me incomodou.
Mas também — ainda que eu não admitisse — me manteve acordado de um jeito novo.
A reunião com Lita não tinha terminado no dia anterior.
Ela apenas tinha mudado de lugar.
Agora, estava dentro de mim.