Capitulo 8

1178 Words
A Sala de Vidro... A sala de reuniões estava cheia quando Lita entrou. Todos já estavam sentados. Gestores, coordenadores, gente acostumada a falar apenas quando solicitada. O Sr. Pereira permanecia de pé, de costas para a mesa, olhando a cidade através da parede de vidro. Ao ouvir o som discreto da porta se fechando, virou-se devagar. Os olhares se cruzaram por um segundo a mais do que o necessário. — Bom dia — disse ele. — Bom dia — respondeu Lita, firme. Ela sentou-se sem pedir permissão, postura ereta, pasta apoiada no colo. Não havia desafio em seus gestos, mas também não havia recuo. Aquilo foi notado por todos. O Sr. Pereira voltou à cabeceira da mesa. — Chamei esta reunião para rever prazos, processos e… pessoas. Um leve desconforto percorreu a sala. — Quero começar pelo projeto da Zona Sul — continuou. — Lita, você levantou pontos importantes ontem. Repita para o grupo. Alguns rostos se viraram na direção dela, surpresos. Não era comum o Sr. Pereira pedir reforço de opinião — muito menos publicamente. Lita respirou fundo antes de falar. — O cronograma atual ignora o desgaste da equipe técnica. Não é uma questão de competência, é de limite humano. Estamos corrigindo erros causados por exaustão. — Sempre trabalhamos sob pressão — interrompeu um dos gerentes. Lita virou-se para ele, calma. — Pressão não é o problema. O problema é fingir que ela não cobra um preço. O silêncio se instalou novamente. O Sr. Pereira observava em silêncio, os dedos apoiados na mesa. — Continue — disse, por fim. Lita abriu a pasta. — Dois afastamentos por estafa. Quatro pedidos de transferência negados. Horas extras acumuladas que não aparecem nos relatórios oficiais. Ela deslizou alguns papéis sobre a mesa. — Isso não é eficiência. É adiamento de um colapso. O maxilar do Sr. Pereira se contraiu levemente, mas ele não interrompeu. — Está sugerindo reduzir ritmo? — perguntou outro gestor. — Estou sugerindo reorganizar — respondeu Lita. — Ou vamos pagar depois. Com atraso, prejuízo e gente indo embora. Todos aguardaram a reação dele. O Sr. Pereira se sentou lentamente. Era raro vê-lo fazê-lo no meio de uma discussão. — Se ajustarmos os prazos — disse —, perdemos contratos. — Se não ajustarmos — respondeu Lita —, perdemos pessoas. E sem elas, não há contrato que se sustente. A troca foi direta. Sem elevação de voz. Sem ataque pessoal. O Sr. Pereira inclinou-se para frente. — Você entende o peso do que está propondo? — Entendo — respondeu ela. — E assumo. Outro silêncio. Mais denso. — Quero um plano revisado até o fim do dia — disse ele, finalmente. — Com números. Com impacto real. Lita assentiu. — Eu entrego. — E quero você liderando essa revisão — completou ele. Houve um murmúrio contido na sala. Promoção implícita. Responsabilidade explícita. Lita sustentou o olhar dele por um instante. — Então precisamos de autonomia. Ele a encarou. — Você terá. A reunião foi encerrada minutos depois. As pessoas saíram em pequenos grupos, cochichando. Quando a sala ficou quase vazia, Lita recolheu seus papéis. — Lita — chamou ele. Ela parou, mas não se virou de imediato. — Sim, senhor? — Ontem… — ele hesitou, coisa raríssima. — Você não recuou. Ela se virou então. — Porque não havia para onde recuar sem trair meu trabalho. Ele assentiu lentamente. — Nem todo mundo teria feito isso. — Nem todo mundo pode — respondeu ela. Houve um silêncio estranho. Menos rígido. Mais atento. — Pode ir — disse ele, retomando o tom profissional. Lita saiu. O Sr. Pereira ficou sozinho na sala de vidro, observando a porta fechada. Não sentia raiva. Sentia algo mais perigoso: respeito. E talvez, pela primeira vez em muitos anos, a sensação incômoda de que alguém tinha entrado em sua empresa — e em sua rotina — sem pedir licença. E não pretendia sair tão cedo. Lita Depois da Sala de Vidro... Lita saiu da sala com o coração acelerado, mas os passos firmes. Só quando a porta do elevador se fechou é que permitiu a si mesma respirar fundo. A reunião tinha sido mais pesada do que esperava. Não pelo embate — disso ela estava acostumada —, mas pela forma como o Sr. Pereira a ouviu. Aquilo a desestabilizou mais do que qualquer confronto direto. Ela não confiava em mudanças rápidas. Muito menos em homens como ele. No corredor, alguns colegas desviaram o olhar. Outros arriscaram um sorriso curto, respeitoso. Havia também os que cochichavam. Lita conhecia aquele tipo de silêncio: vinha acompanhado de expectativa e inveja contida. De volta à sua sala, fechou a porta e se apoiou na mesa por um instante. Pensou no filha. Sempre pensava nele quando sentia o peso das decisões. Era por ela que continuava enfrentando ambientes hostis, reuniões engessadas, jornadas exaustivas. Não podia falhar. Não tinha esse luxo. Sentou-se e abriu o computador. O plano que o Sr. Pereira pedira precisava estar pronto até o fim do dia. Autonomia vinha sempre acompanhada de cobrança — e ela sabia disso melhor do que ninguém. Enquanto organizava os dados, a mente insistia em voltar àquele instante específico: quando ele se sentara. Um gesto simples, mas simbólico. O homem que governava de pé tinha, pela primeira vez, escolhido ouvir sentado. — Não romantiza — murmurou para si mesma. À hora do almoço, Joelma apareceu na porta, apoiando o corpo no batente. — Posso entrar ou você virou intocável agora? Lita sorriu de canto. — Entra antes que eu me arrependa. — O prédio inteiro tá falando de você — disse Joelma, sentando-se. — Dizem que o senhor todo-poderoso pediu sua opinião. Em público. — Pediu — respondeu Lita, sem entusiasmo. — E isso me preocupa. — Por quê? — Porque mudanças assim nunca vêm sem resistência. E eu virei o rosto da mudança. Joelma a observou com atenção. — Você sempre foi. Lita voltou ao teclado. — Sim. E sempre paguei por isso. Horas depois, entregou o plano revisado. Recebeu um e-mail curto como resposta: Recebido. Vamos avançar. Sem elogios. Sem suavidade. Ainda assim, algo ali soava diferente. Respeito seco, mas real. No fim do expediente, enquanto organizava a bolsa, sentiu o peso do dia cair sobre os ombros. Pensou em Roberto, no passado interrompido, nos textos que nunca terminou. Pensou em como a vida a levou para longe da literatura e a colocou em lugares onde precisava lutar todos os dias para existir. No elevador, sozinha, encarou o próprio reflexo no espelho. — Você não está aqui por acaso — disse em voz baixa. Ao sair do prédio, a cidade já estava acesa. Lita caminhou até o ponto de ônibus com passos decididos. Sabia que aquela reunião não tinha sido apenas profissional. Algo tinha sido acionado. Uma engrenagem que não pararia facilmente. E, embora se recusasse a admitir, uma parte dela sentia medo. Não do Sr. Pereira. Mas do que aquela escuta poderia significar. Porque ser ouvida muda tudo. E nem sempre o mundo está pronto para mulheres que sabem exatamente o que estão dizendo.
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