A Sala de Vidro...
A sala de reuniões estava cheia quando Lita entrou.
Todos já estavam sentados. Gestores, coordenadores, gente acostumada a falar apenas quando solicitada. O Sr. Pereira permanecia de pé, de costas para a mesa, olhando a cidade através da parede de vidro. Ao ouvir o som discreto da porta se fechando, virou-se devagar.
Os olhares se cruzaram por um segundo a mais do que o necessário.
— Bom dia — disse ele.
— Bom dia — respondeu Lita, firme.
Ela sentou-se sem pedir permissão, postura ereta, pasta apoiada no colo. Não havia desafio em seus gestos, mas também não havia recuo. Aquilo foi notado por todos.
O Sr. Pereira voltou à cabeceira da mesa.
— Chamei esta reunião para rever prazos, processos e… pessoas.
Um leve desconforto percorreu a sala.
— Quero começar pelo projeto da Zona Sul — continuou. — Lita, você levantou pontos importantes ontem. Repita para o grupo.
Alguns rostos se viraram na direção dela, surpresos. Não era comum o Sr. Pereira pedir reforço de opinião — muito menos publicamente.
Lita respirou fundo antes de falar.
— O cronograma atual ignora o desgaste da equipe técnica. Não é uma questão de competência, é de limite humano. Estamos corrigindo erros causados por exaustão.
— Sempre trabalhamos sob pressão — interrompeu um dos gerentes.
Lita virou-se para ele, calma.
— Pressão não é o problema. O problema é fingir que ela não cobra um preço.
O silêncio se instalou novamente.
O Sr. Pereira observava em silêncio, os dedos apoiados na mesa.
— Continue — disse, por fim.
Lita abriu a pasta.
— Dois afastamentos por estafa. Quatro pedidos de transferência negados. Horas extras acumuladas que não aparecem nos relatórios oficiais.
Ela deslizou alguns papéis sobre a mesa.
— Isso não é eficiência. É adiamento de um colapso.
O maxilar do Sr. Pereira se contraiu levemente, mas ele não interrompeu.
— Está sugerindo reduzir ritmo? — perguntou outro gestor.
— Estou sugerindo reorganizar — respondeu Lita. — Ou vamos pagar depois. Com atraso, prejuízo e gente indo embora.
Todos aguardaram a reação dele.
O Sr. Pereira se sentou lentamente. Era raro vê-lo fazê-lo no meio de uma discussão.
— Se ajustarmos os prazos — disse —, perdemos contratos.
— Se não ajustarmos — respondeu Lita —, perdemos pessoas. E sem elas, não há contrato que se sustente.
A troca foi direta. Sem elevação de voz. Sem ataque pessoal.
O Sr. Pereira inclinou-se para frente.
— Você entende o peso do que está propondo?
— Entendo — respondeu ela. — E assumo.
Outro silêncio. Mais denso.
— Quero um plano revisado até o fim do dia — disse ele, finalmente. — Com números. Com impacto real.
Lita assentiu.
— Eu entrego.
— E quero você liderando essa revisão — completou ele.
Houve um murmúrio contido na sala. Promoção implícita. Responsabilidade explícita.
Lita sustentou o olhar dele por um instante.
— Então precisamos de autonomia.
Ele a encarou.
— Você terá.
A reunião foi encerrada minutos depois. As pessoas saíram em pequenos grupos, cochichando. Quando a sala ficou quase vazia, Lita recolheu seus papéis.
— Lita — chamou ele.
Ela parou, mas não se virou de imediato.
— Sim, senhor?
— Ontem… — ele hesitou, coisa raríssima. — Você não recuou.
Ela se virou então.
— Porque não havia para onde recuar sem trair meu trabalho.
Ele assentiu lentamente.
— Nem todo mundo teria feito isso.
— Nem todo mundo pode — respondeu ela.
Houve um silêncio estranho. Menos rígido. Mais atento.
— Pode ir — disse ele, retomando o tom profissional.
Lita saiu.
O Sr. Pereira ficou sozinho na sala de vidro, observando a porta fechada. Não sentia raiva. Sentia algo mais perigoso: respeito.
E talvez, pela primeira vez em muitos anos, a sensação incômoda de que alguém tinha entrado em sua empresa — e em sua rotina — sem pedir licença.
E não pretendia sair tão cedo.
Lita
Depois da Sala de Vidro...
Lita saiu da sala com o coração acelerado, mas os passos firmes.
Só quando a porta do elevador se fechou é que permitiu a si mesma respirar fundo. A reunião tinha sido mais pesada do que esperava. Não pelo embate — disso ela estava acostumada —, mas pela forma como o Sr. Pereira a ouviu. Aquilo a desestabilizou mais do que qualquer confronto direto.
Ela não confiava em mudanças rápidas. Muito menos em homens como ele.
No corredor, alguns colegas desviaram o olhar. Outros arriscaram um sorriso curto, respeitoso. Havia também os que cochichavam. Lita conhecia aquele tipo de silêncio: vinha acompanhado de expectativa e inveja contida.
De volta à sua sala, fechou a porta e se apoiou na mesa por um instante. Pensou no filha. Sempre pensava nele quando sentia o peso das decisões. Era por ela que continuava enfrentando ambientes hostis, reuniões engessadas, jornadas exaustivas. Não podia falhar. Não tinha esse luxo.
Sentou-se e abriu o computador. O plano que o Sr. Pereira pedira precisava estar pronto até o fim do dia. Autonomia vinha sempre acompanhada de cobrança — e ela sabia disso melhor do que ninguém.
Enquanto organizava os dados, a mente insistia em voltar àquele instante específico: quando ele se sentara. Um gesto simples, mas simbólico. O homem que governava de pé tinha, pela primeira vez, escolhido ouvir sentado.
— Não romantiza — murmurou para si mesma.
À hora do almoço, Joelma apareceu na porta, apoiando o corpo no batente.
— Posso entrar ou você virou intocável agora?
Lita sorriu de canto.
— Entra antes que eu me arrependa.
— O prédio inteiro tá falando de você — disse Joelma, sentando-se. — Dizem que o senhor todo-poderoso pediu sua opinião. Em público.
— Pediu — respondeu Lita, sem entusiasmo. — E isso me preocupa.
— Por quê?
— Porque mudanças assim nunca vêm sem resistência. E eu virei o rosto da mudança.
Joelma a observou com atenção.
— Você sempre foi.
Lita voltou ao teclado.
— Sim. E sempre paguei por isso.
Horas depois, entregou o plano revisado. Recebeu um e-mail curto como resposta:
Recebido. Vamos avançar.
Sem elogios. Sem suavidade. Ainda assim, algo ali soava diferente. Respeito seco, mas real.
No fim do expediente, enquanto organizava a bolsa, sentiu o peso do dia cair sobre os ombros. Pensou em Roberto, no passado interrompido, nos textos que nunca terminou. Pensou em como a vida a levou para longe da literatura e a colocou em lugares onde precisava lutar todos os dias para existir.
No elevador, sozinha, encarou o próprio reflexo no espelho.
— Você não está aqui por acaso — disse em voz baixa.
Ao sair do prédio, a cidade já estava acesa. Lita caminhou até o ponto de ônibus com passos decididos. Sabia que aquela reunião não tinha sido apenas profissional. Algo tinha sido acionado. Uma engrenagem que não pararia facilmente.
E, embora se recusasse a admitir, uma parte dela sentia medo.
Não do Sr. Pereira.
Mas do que aquela escuta poderia significar.
Porque ser ouvida muda tudo.
E nem sempre o mundo está pronto para mulheres que sabem exatamente o que estão dizendo.