Capitulo 9

518 Words
Onde Ela Respira... A chave girou devagar na fechadura. Antes mesmo de fechar a porta, Lita ouviu a voz da filha vindo da sala: — Mãe? — Sou eu, meu amor. A mochila caiu no chão antes que ela alcançasse o sofá. Ela correu até a mãe, os braços gordinhos envolvendo sua cintura com força. Lita se abaixou e o apertou contra o peito, fechando os olhos por um segundo a mais do que o necessário. — Demorou hoje — ela disse, o rosto enterrado na blusa dela. — Demorei porque precisei ser corajosa — respondeu, beijando-lhe o cabelo. Ela riu. — Você sempre é. Na cozinha, Lita lavou as mãos enquanto a filha falava sem parar sobre a escola, um trabalho de ciências, uma colega nova. Ela ouvia com atenção real, mesmo cansada. Aquela voz pequena era o lugar onde tudo fazia sentido. — O que vamos comer? — ela perguntou, subindo no banquinho. — O que sobrou de nós dois — disse ela, abrindo a geladeira. — Arroz, feijão e um pouco de improviso. — Meu prato favorito — respondeu ela, sério demais para a idade. Enquanto a comida esquentava, ela fez a lição à mesa. Lita observava de longe, apoiada na pia. Pensou em como aquela menina tinha crescido rápido. Pensou em tudo que não pôde ser: noites sem dormir, aulas perdidas, textos inacabados. Mas também pensou no que ganhou. Sempre pensava. — Mãe — ela chamou, de repente. — Você fica triste no trabalho? Ela parou por um instante. — Às vezes fico cansada — respondeu, escolhendo as palavras. — Mas hoje… hoje foi um dia importante. — Importante como quando eu aprendi a andar de bicicleta? Ela sorriu. — Quase isso. Só que com mais gente olhando. Eles comeram juntos, sentados no chão da sala, dividindo o prato e o silêncio confortável. Depois, deitaram lado a lado no sofá, a menina com a cabeça apoiada no braço dela. — Você vai escrever hoje? — ela perguntou, sonolento. — Talvez — respondeu. — Por quê? — Gosto quando você escreve. Parece que você fica mais você. O peito de Lita apertou. — Um dia você vai ler tudo — disse ela, baixinho. — Promete? — Prometo. Depois de colocá-la na cama, Lita apagou a luz e ficou alguns minutos observando o corpo pequeno respirar com calma. Passou a mão pelos cabelos dela, como fazia quando ela era menor. Como ainda precisava fazer. Na sala, sentou-se com o caderno antigo sobre o colo. Abriu em uma página em branco. A caneta hesitou. Pensou no Sr. Pereira. Na sala de vidro. No respeito inesperado. Pensou em como sua vida sempre foi feita de resistências silenciosas. Escreveu uma frase apenas: “Ser ouvida é um risco que nem todo mundo está disposto a correr.” Fechou o caderno. Naquela noite, antes de dormir, Lita entendeu algo com clareza rara: ela não estava mais apenas sobrevivendo. Estava, aos poucos, ocupando o espaço que sempre foi seu. E, pela primeira vez em muito tempo, adormeceu sem o peso do medo. Somente com o cansaço bom de quem seguiu inteira.
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