Um Presente Especial para Filipe

1069 Words
Era uma manhã clara e ensolarada no vinhedo, com o cheiro doce das uvas maduras preenchendo o ar. Filipe desceu as escadas da grande casa D'Aurelia sentindo-se um pouco mais adulto. Ele havia acabado de tirar sua carteira de motorista e a expectativa de iniciar a faculdade logo o enchia de entusiasmo e nervosismo. No pátio da propriedade, sua família já o esperava. Carlos, seu pai, estava de pé ao lado de Beatriz, que segurava um pequeno bolo decorado com a palavra — Parabéns — A bandeira da família tremulava ao vento, e um grupo de empregados reunidos sorria enquanto cochichavam entre si. — Filipe! Meu rapaz! — Carlos abriu os braços para abraçá-lo. — Hoje é um dia importante. Você está a um passo de começar sua jornada como homem e como futuro líder desta família. Filipe sorriu, orgulhoso, mas ainda sem entender completamente a razão de tanto alvoroço. Ele olhou para Isabela, que estava ao lado de Ana e Ricardo. Com um sorriso maroto, ela parecia saber de algo que ele não sabia. — Parabéns, Filipe — disse Ana, aproximando-se para abraçá-lo. — Tenho certeza de que sua mãe e seu pai estão muito orgulhosos de você. — Isso mesmo — completou Beatriz. — E por isso, decidimos que você merece um presente especial. Carlos fez um gesto com a mão, e um empregado abriu as grandes portas da garagem da família. Lá dentro, reluzindo sob o sol matinal, estava um carro esportivo preto, elegante e sofisticado. Filipe congelou por um momento, olhando para o veículo como se fosse um sonho impossível. — É seu, filho — disse Carlos, sorrindo com orgulho. — Você merece. Agora poderá ir e voltar da faculdade sempre que quiser, e não haverá desculpas para não vir nos visitar. Filipe caminhou lentamente até o carro, os olhos arregalados de espanto. Ele tocou a pintura impecável com reverência, quase sem acreditar. — É sério? Isso é mesmo pra mim? — Ele olhou para os pais, ainda tentando processar. — Completamente seu, garantiu Beatriz. — Claro, você terá de cuidar bem dele. Este carro é tão parte da família quanto você — Isabela aproximou-se e cutucou seu braço. — É melhor me levar para um passeio primeiro, senão vou contar para todo mundo que você chorou ao receber o presente. Filipe riu, embora seus olhos estivessem de fato um pouco marejados. Ele deu um abraço apertado nos pais, agradecendo repetidamente. — Eu prometo que vou cuidar bem dele, obrigado — disse ele, emocionado. No pátio ensolarado da casa D’Aurelia, enquanto Filipe ainda processava a emoção de receber o carro, outra figura importante da família observava a cena com olhos marejados de orgulho. D. Custódia, a governanta da casa, estava ao lado da neta, Susana. Com seu avental impecável e mãos fortes, marcadas por anos de trabalho, ela parecia uma extensão natural daquela propriedade, uma presença constante e acolhedora. D. Custódia havia perdido os dois filhos, pais de Susana, em um trágico acidente de carro há seis anos. Quando Susana, então com 12 anos, ficou órfã, a família D’Aurelia não hesitou em acolhê-la. D. Custódia e a neta mudaram-se para a casa principal, vivendo em um pequeno anexo da propriedade, tratado como uma extensão do lar. Carlos e Beatriz não só ofereceram um teto, mas também garantiram os estudos de Susana, valorizando o elo profundo que existia entre as famílias. Agora, Susana estava prestes a embarcar na mesma jornada que Filipe: ambos haviam sido aceitos na mesma universidade. Ela era uma jovem de 18 anos, cheia de vida e inteligência, com um sorriso que iluminava o ambiente. Embora tratasse Filipe como um amigo próximo, Susana guardava em silêncio um amor profundo por ele, uma chama que ela escondia até de si mesma. — Parabéns, Filipe — disse Susana, aproximando-se com uma energia contagiante. — Esse carro é incrível! Acho que a gente deveria testar agora mesmo. Filipe riu, ainda sem acreditar completamente. — Eu nem sei pra onde ir! Mas... tem razão, seria um desperdício não experimentar. Que tal dar uma volta com todos nós? Eu, você, Isabela, e quem mais quiser? Afinal, um presente desses precisa ser estreado em grande estilo — sugeriu Susana, com um olhar brincalhão. D. Custódia, sempre vigilante, sorriu ao ver a neta tão animada. — Vão com calma, meus jovens. E, Filipe, lembre-se do que seu pai disse: trate esse carro como parte da família. — Eu prometo, D. Custódia — respondeu Filipe, sorrindo. — E você, vem junto? — Ah, não, não! Eu fico aqui com os seus pais. Aproveitem vocês, que a juventude é pra isso. Enquanto Filipe se preparava para abrir as portas do carro, Isabela observava a cena com atenção. Embora confiasse plenamente no amor de Filipe por ela, não conseguia evitar o incômodo sempre que Susana estava por perto. O fato de Susana morar na propriedade só intensificava aquele sentimento. — Você vem, Isa? — Filipe chamou, sem perceber a hesitação no rosto dela. — Claro que vou — respondeu Isabela, esforçando-se para parecer casual. Os três — Filipe, Susana e Isabela — entraram no carro, com Susana se acomodando no banco da frente ao lado de Filipe. Enquanto dirigiam pelas estradas sinuosas que rodeavam os vinhedos, Susana comentava animadamente sobre o futuro na universidade, as aulas e como estava ansiosa para essa nova fase. Filipe ouvia atentamente, respondendo com entusiasmo, enquanto Isabela, no banco de trás, sentia a insegurança crescer. Eles iam juntos pada a mesma universidade e ela ia ficar, seguir o seu sonho no curso de enologia mas tão distante dele. Para Susana, aquele momento era perfeito: o vento no rosto, a sensação de liberdade e a companhia de Filipe. Para Isabela, porém, parecia que algo estava fora do lugar. Ela sabia que Filipe não via Susana de outra forma além de uma amiga, mas era impossível ignorar o brilho nos olhos da jovem ao falar com ele. Naquele dia, Filipe aproveitou cada segundo da nova conquista, alheio à tensão sutil que pairava no ar. Já Susana e Isabela, ainda que por razões opostas, carregaram consigo memórias conflitantes daquele passeio, um prenúncio de como as relações entre eles poderiam ser complexas nos anos que estavam por vir. E assim, enquanto o carro deslizava pelo asfalto, um momento de celebração tornava-se também o início de sentimentos não ditos e tensões não resolvidas, com o potencial de moldar o futuro dessas vidas entrelaçadas.
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