Inseguranças à Vista

1298 Words
A viagem de volta à propriedade foi silenciosa, algo que não era comum entre Filipe, Isabela e Susana. Enquanto Filipe conduzia com um sorriso relaxado no rosto, a estrada serpenteava pela paisagem verdejante, mas a tensão no carro era palpável. Isabela estava calada, sentada no banco de trás, com os braços cruzados e o olhar fixo na estrada à sua frente. Ela não podia deixar de se sentir irritada. Tudo tinha sido perfeito até aquele momento, mas algo na atitude de Susana a incomodava profundamente. Filipe parecia completamente à vontade, conversando e rindo com Susana, que estava no banco da frente. Isabela não conseguia desviar os olhos da cena. A maneira como ela se inclinava para falar com Filipe, como ria das suas piadas, fazia-a sentir-se como uma intrusa. Era como se Susana estivesse ali, ocupando o seu lugar, e ela não podia fazer nada para impedir. Quando chegaram à propriedade, Filipe estacionou o carro e desligou o motor, mas a tensão no ar não desapareceu. Isabela não esperou Filipe ou Susana saírem do carro. Ela abriu a porta rapidamente e foi a passos largos até à casa. Filipe tentou apressar-se para alcançá-la, mas ela já estava quase dentro de casa, e ele sentiu o peso da situação antes mesmo de falar. Ao entrar na casa, ele a viu à distância, parada na sala, com as mãos no quadril. Ele sabia que ela estava chateada. Não precisava de ser um gênio para perceber. Susana, por outro lado, ficou atrás, vendo a troca silenciosa entre os dois, sem ousar interferir. Filipe respirou fundo, aproximando-se de Isabela. — Ei... — disse ele, com a voz suave. — O que está a acontecer? Isabela não olhou para ele de imediato, mas sabia que ele estava ali, à espera de uma explicação. — Porque é que Susana teve de ficar no banco da frente? — A pergunta saiu quase de forma ríspida, mas ela não podia mais esconder os ciúmes. — Era suposto sermos nós dois, como sempre. Mas agora ela ocupa tudo, não só o lugar da frente, mas a sua atenção também. E depois... e depois é como se eu não estivesse aqui. Filipe olhou-a, surpreso com a franqueza, mas ao mesmo tempo, entendeu. Isabela estava a ser honesta com ele, e ele sabia que precisaria lidar com aquilo de uma maneira sensível. — Isabela, eu não queria te fazer sentir assim. Não foi nada disso. Eu só... — Filipe hesitou, tentando organizar as palavras. — Eu só queria que todos estivéssemos juntos. A Susana também vai para a universidade e... sei lá, queria que se sentisse incluída. Eu devia ter dado mais atenção a você, eu sei. Isabela olhou-o finalmente, os olhos um pouco marejados, mas tentando não mostrar a fragilidade que sentia. Ela sabia que Filipe não tinha intenções de magoá-la, mas a insegurança tinha tomado conta dela de uma forma que não conseguia controlar. — Não estou a dizer que ela não tem direito de ir com você, Filipe. Mas, quando estou com você, eu sou sua prioridade, entende? Não quero te ver tão à vontade com ela. Parece que... parece que não sou mais a única para você. Filipe deu um passo mais perto dela, a expressão dele suavizando. Ele sabia o quanto Isabela era insegura, mas também sabia que a insegurança que ela sentia não era sem razão. Ele olhou-a profundamente, tocando-lhe o rosto com a palma da mão. — Eu te amo, Isabela. A Susana é apenas uma amiga, e eu nunca te trocaria por ela, ok? Eu entendo que esteja chateada, e vou melhorar. Eu só queria que todos estivessem confortáveis, mas vi que errei em não te dar a atenção que merece. Isabela mordeu o lábio inferior, tentando conter o turbilhão de emoções dentro de si. Ela não queria ser ciumenta, mas a verdade era que o lugar de Filipe no coração dela estava sendo ameaçado, mesmo que de forma indireta. O sorriso dele era tão fácil de conquistar, e ela temia perder essa facilidade para alguém mais. — Eu sei que você não tem intenção de me magoar, Filipe... — disse ela, mais calma agora, mas ainda com um tom de frustração. — Mas é difícil quando tenho de conviver com as suas atenções divididas, especialmente com alguém que, por mais que você não perceba, tem sentimentos por ti. Filipe olhou para ela com um novo entendimento nos olhos. Ele sabia que Isabela se sentia ameaçada por Susana, e era algo que ele nunca tinha realmente compreendido antes. Mas agora, ao olhar para a namorada, ele viu a vulnerabilidade que ela estava a tentar esconder. — Eu vou fazer um esforço, Isabela. Não te vou deixar em segundo plano. Quero que saiba disso. Quero que você sinta que é a única para mim. Ela olhou para ele, sentindo um pequeno alívio. O ciúme ainda estava lá, mas a promessa dele a acalmou um pouco. — Só... se lembre de mim, Filipe. Sempre. Ele sorriu, puxando-a para um abraço apertado. — Sempre. Enquanto Filipe tentava dissipar a tensão no ar com as suas palavras, a conversa seguiu para um terreno mais delicado. Isabela, ainda com a cabeça cheia de emoções e um pouco de frustração, olhou para ele, os olhos suavizando um pouco, mas ainda carregados de insegurança. — Então, quer sair mais tarde? Só nós dois? — Filipe perguntou, tentando encontrar uma forma de aliviar a situação e fazer Isabela se sentir melhor. — Podemos dar uma volta no carro, só nós dois, como antes... Eu só quero me divertir contigo, sem mais ninguém por perto. Isabela hesitou por um momento, ainda sentindo o peso da conversa anterior. A ideia de ficar sozinha com Filipe, sem as distrações de Susana, parecia reconfortante. Mas, ao mesmo tempo, ela não queria parecer que estava a se submeter à situação, especialmente depois de tudo o que acontecera no carro. — Eu adoraria, Filipe — disse ela finalmente, mas a dúvida ainda estava visível no seu rosto. — Mas preciso primeiro de pedir autorização aos meus pais. Sabe como eles são, gostam de saber onde vou e com quem, especialmente à noite. Filipe deu um sorriso compreensivo, sabendo que os pais de Isabela eram protetores e bastante cautelosos com os passeios à noite. Ele sabia que isso era algo com o qual ela estava acostumada e que as regras em casa eram claras. — Claro, entendo. Não tem pressa. A gente pode ir depois do jantar. Vai lá pedir. — Ele a olhou com carinho, tentando transmitir segurança e confiança, sabendo que ela precisava disso. Isabela assentiu, ainda com um pouco de insegurança em seus olhos, mas também com a leve esperança de que essa noite, com Filipe, fosse uma chance para recuperar a confiança entre eles, longe de qualquer interferência externa. Ela olhou para ele e, pela primeira vez naquela noite, o sorriso apareceu de volta no seu rosto. — Vou fazer isso. Filipe deu-lhe um sorriso caloroso, tocando suavemente a sua mão. — Vou esperar. — Ele disse, a promessa sincera de que a noite seria especial para ambos, sem pressões. Isabela, agora mais tranquila, levantou-se e foi em direção à cozinha, onde seus pais estavam a conversar. No fundo, se sentia um pouco culpada por se ter deixado levar pelo ciúme, mas ao mesmo tempo, sabia que precisava dessa confirmação, esse momento sozinha com Filipe. Ela queria sentir que ele a amava da mesma forma que antes, sem distrações. E enquanto ela saía da sala, Filipe permaneceu onde estava, pensativo. Ele sabia que a insegurança de Isabela era natural, mas ele também estava comprometido em lhe provar que ele era dela, por completo. Quando ela voltasse, ele faria tudo para garantir que ela soubesse, mais uma vez, o quanto ele a amava.
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