Capítulo 1- Surpresa Amarga
O último ano da faculdade estava chegando ao fim e, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia verdadeiramente animada. Já fazia três longos meses desde a última vez que vi Rafael, meu namorado. Namorávamos desde o ensino médio, um amor que começou nos corredores da escola e que, mesmo com a distância da faculdade, nunca havia se abalado de verdade.
Estudávamos em cidades diferentes, mas nosso relacionamento sempre resistiu bem. Nos encontrávamos nas férias escolares e nos feriados prolongados. Passávamos dias inteiros juntos, abraçados, fazendo planos para o futuro. Havíamos prometido, com as mãos entrelaçadas e olhares cheios de esperança, que assim que formássemos iríamos nos casar. Eu imaginava tudo: uma cerimônia simples, talvez no interior, perto da minha família, com ele sorrindo daquele jeito que sempre me fazia derreter.
Por isso, decidi fazer uma surpresa especial naquele final de semana. Não avisei nada. Queria ver a cara dele quando abrisse a porta e me encontrasse ali, vestida para matar.
Passei a tarde me arrumando com cuidado. Escolhi minha melhor lingerie — um conjunto preto de renda que ele ainda não tinha visto. Era sexy, mas elegante. Coloquei por baixo de um vestido leve, peguei minha mala pequena e peguei o ônibus para a cidade dele. Durante a viagem, não conseguia parar de sorrir. Meu coração batia forte só de imaginar a reação dele. Eu já via a cena na minha cabeça: ele me pegando no colo, me beijando com saudade acumulada, dizendo o quanto havia sentido minha falta.
Cheguei à cidade já à noite. As ruas estavam movimentadas, mas eu conhecia o caminho de cor. Entrei no prédio usando a cópia da chave que ele havia me dado há alguns meses. O apartamento estava escuro e silencioso. O ar ainda tinha aquele cheiro familiar dele — uma mistura de colônia barata e o sabonete que ele sempre usava.
Fechei a porta devagar, acendi algumas luzes e comecei a preparar o jantar. Queria que tudo estivesse perfeito. Coloquei uma playlist romântica no celular, em volume baixo, e fui para a cozinha. Decidi fazer o prato preferido dele: macarrão à carbonara com tiras de bacon crocante, salada caprese e uma garrafa de vinho tinto que comprei no caminho.
Enquanto cortava os tomates para a salada, meus pensamentos voavam. Lembrei do nosso primeiro beijo, atrás da quadra da escola. Lembrei das noites em que ficávamos horas no telefone, mesmo cansados das aulas. Rafael sempre foi meu porto seguro. Mesmo com a distância, ele mandava mensagens todos os dias, mandava fotos do dia a dia e dizia que m*l podia esperar para passarmos o resto da vida juntos.
Terminei de cozinhar por volta das dez e meia. Arrumei a mesa com capricho: duas taças, velas que encontrei na gaveta e um arranjo simples de flores que trouxe comigo. O cheiro do jantar enchia o apartamento, deixando tudo ainda mais acolhedor.
Depois, tomei um banho rápido no banheiro dele, passei um perfume suave e vesti apenas a lingerie preta. Olhei no espelho e sorri. Me sentia bonita, desejada e cheia de expectativa. Apaguei as luzes da sala, deixando apenas a luminária do quarto acesa, e me deitei na cama king size dele. Peguei o celular para passar o tempo, respondendo algumas mensagens das amigas e olhando fotos antigas nossas.
O tempo foi passando.
Meia-noite se aproximou e eu comecei a sentir o cansaço da viagem. As pálpebras ficaram pesadas. Tentei lutar contra o sono, mas acabei cochilando com o celular ainda na mão.
Acordei sobressaltada com o barulho de chaves na porta. Meu coração disparou de imediato. Olhei o telefone: exatamente meia-noite. Um sorriso bobo surgiu no meu rosto enquanto eu me ajeitava na cama, tentando ficar o mais sensual possível.
Esperei.
E esperei.
Mas ele não veio para o quarto.
Foi quando ouvi os gemidos baixos vindos da sala. Gemidos que não eram meus. Gemidos que definitivamente não eram de dor.
Levantei-me devagar, sentindo um frio estranho na barriga. Caminhei até a porta do quarto e espiei.
O que vi me destruiu.
Uma mulher estava ajoelhada na frente de Rafael, no sofá da sala. Os dois completamente nus. Os movimentos eram claros, íntimos, traiçoeiros.
— Que p***a é essa? — explodi, a voz saindo mais alta do que eu pretendia. — Você tá me traindo, Rafa?
A mulher se levantou rapidamente, pegando as roupas espalhadas no chão com pressa.
— Amor, quem é essa? — perguntou ela, confusa e irritada. — E por que ela tá de lingerie no seu apartamento?
Não consegui ficar nem mais um segundo ali. Deixei os dois discutindo e saí do apartamento só de lingerie, batendo a porta atrás de mim.
No corredor m*l iluminado, esbarrei em alguém. Meu corpo ainda tremia de choque e humilhação.
Foi então que ouvi a voz de Rafael ecoando atrás de mim, cheia de veneno e desprezo:
— Quem além de mim iria querer ficar com alguém como você, Lívia?
Se você virar as costas pra mim, vai morrer sozinha.
Ninguém vai querer uma garota do campo cujo pai catava lixo.
Parei no meio do corredor, o sangue fervendo nas veias.
— Cala essa boca quando falar do meu pai! — respondi, virando-me com os olhos cheios de lágrimas de raiva. — Sim, ele catava lixo. E daí? Foi com esse trabalho honesto que ele pagou minha faculdade. Eu não tenho vergonha nenhuma disso!
Respirei fundo, a voz saindo trêmula mas forte:
— E você é péssimo de cama. Meu vibrador me satisfaz muito mais do que esse seu brinquedinho aí.
E vou te provar agora mesmo que consigo alguém bem melhor que você.
— Eu duvido — ele respondeu com um sorriso debochado, ainda parado na porta.
Virei-me para o rapaz em quem tinha esbarrado. Sem pensar duas vezes, segurei seu rosto com as duas mãos e o beijei.
Ele congelou por um segundo. Depois soltou um som rouco e retribuiu com força. Suas mãos desceram pela minha cintura quase nua, puxando meu corpo contra o dele. O beijo era quente, urgente, faminto. Senti o calor da pele dele, o gosto leve de bebida em sua língua e os dedos apertando minha carne com desejo. Um calor perigoso subiu pelo meu corpo.
Por um instante, o mundo inteiro desapareceu.
Eu me afastei primeiro, ofegante, os lábios latejando.
Foi quando Rafael explodiu:
— Mas que p***a é essa, Lívia?! — gritou ele, a voz carregada de choque e raiva. — Você ficou louca?!
Olhei para ele uma última vez. Seu rosto estava vermelho, os olhos arregalados de fúria. A outra mulher assistia tudo boquiaberta.
— Tá tudo acabado entre a gente — declarei, mesmo com as lágrimas escorrendo pelo rosto. — Adeus.
Virei as costas e saí correndo pelo corredor, o coração disparado, o corpo tremendo e a mente ainda tentando processar tudo o que havia acontecido naquela noite que deveria ser perfeita.