A mais linda opção
Belo Vale era uma cidadezinha bonita, bem pequena porém tinha seu comércio. Fomos com Maria do Rosário a igreja e ela insistiu em comprar um rosário para mim. A mãe de Matteo escolheu logo um terço belíssimo de contas de pedra, que custou bem caro, mas como ajudaria a igreja também, Matteo não se importou. Bem, quem se importaria com o dinheiro que ele e sua mãe tinham, em gastar trinta reais em um rosário? Eu agradeci e fiquei muito feliz. Ao saírmos da igreja, ele colocou a mão no meu ombro, como que de costume para encaminhar as pessoas para fora de um recinto. Mas aquele gesto...Ele nunca me tocou na vida. A sensação dos dedos quentes no meu ombro desnudo me provocou um arrepio. Seria bom se ele não tivesse reparado em nada daquilo.
— Onde quer ir agora, mãe?
— Vamos a loja de roupas, quero dar um vestido a Isabela.
— Dona Maria, não precisa!
Eu estava ficando muito ressabiada e sem jeito de aceitar presentes. Só que a única coisa que eu não esperava jamais é que Matteo, andando ao nosso lado, se aproximaria do meu ouvido e diria aquelas palavras.
— Quando ela gosta, procura agradar. Obrigado por ter me alertado que eu fui um i****a com ela...
Aquelas palavras sussurradas ao pé do meu ouvido, repercutiram em todo o meu corpo. Eu pude sentir o hálito do chiclete de menta que ele mascava, quente, tocar em minha pele do pescoço. Era certo que eu ia sofrer. Quando aquele homem não notasse que eu era uma candidata ao seu amor e aparecesse com outra mulher a tira colo, eu ia sofrer. Talvez fosse melhor desistir de tudo e ir embora, desaparecer numa cortina de fumaça tal e qual eu tinha chegado e deixar aquele amor insano de adolescente para trás. O problema é que eu nem era mais adolescente e aquele amor estava tão vivo bem como andando ao meu lado. Como eu iria viver o resto dos meus dias o abandonando e à sua mãe? Como ia viver se praticasse esse ato egoísta de abandono? Não só ele não sairia da minha cabeça como também não ia entender nada. Era melhor tentar. Tentar a todo custo me fazer visível, me fazer adulta, me fazer mulher.
Entramos na loja de roupas e dona Maria escolheu um vestido de alças finas, de comprimento acima do joelho, de cor creme. Eu achei lindo mas não poderia vestir aquilo no trabalho.
— Melhor experimentar minha querida.
Eu olhei para ele de relance. Ele não me olhava, apenas se sentou no banco da pequena loja e pegou o celular. Aquilo me aborreceu. Peguei o vestido da mão dela e entrei em uma das cabines para experimentar. Eu teria que ser mulher, teria que ser visível. Teria que ser muito diferente da garotinha que ele conheceu. Eu precisava ser uma opção aos olhos do homem que ele era. Apertei bem o vestido, suspendi os s***s para ficarem marcados no vestido e saí da cabine. Os homens são primeiramente visuais. Era o que eu tinha aprendido. Primeiro reparam em nós e depois querem nos conhecer mais a fundo. Eu precisava mostrar que eu era uma adulta. Dona Maria sorriu ao me ver. Eu tinha um corpo bonito, bem marcado, s***s grandes, coxas grossas e uma barriguinha chapada da juventude. Os cabelos estavam soltos em cachos bem dispersos ao longos dos fios. Mexi nos meus cachos negros que desciam até pouco acima dos meus cotovelos. Matteo falava ao telefone e parou quando me viu. Um instante de sincronicidade. Dois ou três segundos decisivos que o fizeram perceber que eu não era mais uma garota e sim uma mulher. E uma mulher linda. Nossos olhos se cruzaram depois que ele atentou para meu corpo naquele vestido mas decidiu virar o olhar e voltar a conversa no celular. Olhei para dona Maria e sorri.
— Eu amei, é lindo!
— Eu achei mesmo a sua cara, não é Matteo? — Ela piscou para mim.
— Sim, mãe, é sim.
Ele tornou a olhar para agradar a mãe mas não voltou a fazer contato visual comigo. Já tinha sido demais por um dia. Ele estava percebendo aos poucos que eu era mulher. Ao sairmos da loja de roupas, ele quis ir até a loja de ferragens comprar algumas coisas. Nós duas ficamos na pracinha. A mãe dele me olhava com um olhar felino atento.
— E então?
— O que?
— Ele olhou?
— Olhou mas não foi aquiiiilo tudo.
— Já é alguma coisa, só quero que ele pare de beber agora. Isso anda aumentando.
Fiquei preocupada.
— Com que frequência?
— Todo fim de semana e as vezes durante a semana.
— Vamos precisar fazer isso parar.
Ela riu e apontou a si mesma.
— Isso agora é com você. Vá até a mãe das águas e peça que ela te dê esse homem.
— Iara? — Fiquei abismada, não sabia que ela acreditava em lendas e sabia que Iara não concedia desejos. — A mãe d'agua não nos dá nada, dona Maria.
— Então peça a Deus...
Ela estava realmente desesperada de medo de morrer e deixar o filho se acabar no álcool e sozinho. Mas eu desconfiava que Matteo era bem mais esperto que isso.
— Já tem outra pedindo. — Sussurrei para ela.
— Como assim?
— Eu ouvi uma conversa ontem a noite, no escritório, ele marcou um encontro com uma mulher. — Baixei a cabeça tristemente.
— Mas não podemos permitir isso! Isabela, nós não vamos deixar isso!
— Vamos fazer o que?
— Eu vou passar m*l no dia em que ele for sair.
Nós rimos. Gargalhamos. Ela era astuta e usaria as armas que podia para afastar desconhecidas do filho.
— Ele está vindo. — Eu disse — Trazendo sorvetes.
— Quantos?
Não deu tempo de responder. Matteo trazia três sorvetes, ora ele tinha lembrado que eu existia! No braço também trazia uma sacola de compras da loja. Quando ele se curvou para entregar meu sorvete, este caiu um bocado que já derretia na minha blusa. No seio.
— Meu Deus, me desculpa!
Eu segurei a casquinha do sorvete e ele riu.
— Está tudo bem, Matteo.
Ele se afastou, me observando limpar a blusa com o guardanapo que enrolava a casquinha, sem sucesso. Aquela mancha tinha deixado molhado o meu seio e feito grudar a blusa na minha pele. Quando olhei para ele o flagrei olhando para a forma do meu mamilo sob a blusa. Quase sorri para mim mesma e tratei de começar a tomar o sorvete. Maria do Rosário gargalhava da situação e Matteo gostou de ver a mãe rir.
— Há muitos meses a senhora não se diverte assim, minha mãe.
— Verdade, é que ela está com a blusa manchada bem no peito.
Eu queria rir mas não podia, até que nós duas explodimos em risadas e ele ficou sem entender nada, ali de pé tomando o sorvete. Aquele italiano lindo devia estar achando que a mãe encontrou uma perfeita i****a para rir com ela, tal como minha mãe e ela faziam antigamente. m*l sabia ele que nós estávamos rindo mancomunadas para que ele me notasse.
A volta para casa me deu mais algumas respostas. Ele me olhou pelo retrovisor do carro umas três vezes no trajeto. Eu fingi que não vi duas delas mas ele buscava olhar a blusa discretamente. m*l sabia ele que a minha vontade era tirar tudo com ele e deitar no estábulo, sobre o feno, sentindo seus beijos quentes e gostosos. Mas isso estava apenas nos meus sonhos. Eu precisava traçar um plano para deixar ele louco de desejo e não somente pelo meu corpo, mas também pelo meu intelecto.
Assim que chegamos a casa, levei dona Maria para o quarto. Ela estava bem cansada e queria tirar uma soneca antes do almoço. Eu a ajudei a ir para a cama e fui trocar de blusa. Optei por uma alcinha preta dessa vez. A outra blusa eu levei para a máquina de lavar e foi nesse momento que vi Matteo passar para a sala com um copo de whisky na mão. Estava bebendo. Já que dona Maria estava dormindo, cansada do passeio, decidi ir ver o que Matteo estava fazendo. Quando cheguei à sala, ele estava parado, olhando o piano com uma das mãos sobre ele enquanto a outra mão segurava o copo de whisky. Eu nem tinha reparado que ali existia um piano. Não me lembrava que alguém na casa tocasse piano. Ele me viu e me lançou um sorriso tímido.
— Lembra bem dessa casa?
— Sim, lembro senhor.
Ele apertou os olhos como se tivesse ouvido um palavrão.
— Matteo — Eu sorri e consertei.
— Ah me desculpa pelo que eu fiz...é... com o sorvete.
Ele estava sendo o Matteo que eu conheci novamente. Talvez eu tivesse o pego um dia cheio, talvez estivesse estressado no jantar.
— Tudo bem, não há o que se desculpar, essas coisas acontecem.
Ele ficou um tempo em silêncio e eu achei que deveria me retirar para que ele pudesse aproveitar sua privacidade sozinho. Eu já ia me levantar quando ele me olhou.
— Sabe? Ah... Perdão, você já ia.
— Não! Eu... — Pausei com vergonha — Não ia. Ia, sim mas era para lhe deixar em paz.
— Ah, estou bem, na verdade ia perguntar se acha que devo me livrar desse piano.
Fiz uma expressão de interrogação.
— Era dela, da Claúdia.
— Ahh, da sua esposa...
O que dizer? Ele estava ensaiando deixar seu luto e eu não podia dar uma resposta errada. Se eu desse uma opinião que o influenciasse e depois se arrependesse? Pensei bem.
— Eu acredito que deve fazer isso na hora certa, se o senhor sente que essa é a hora certa... Eu entendo que é difícil.
— Não faz ideia do quanto mas já faz três anos. Eu ouço minha mãe falar todo dia sobre isso, mas...— Ele se sentou no sofá, com aquele copo na mão — Me sinto culpado.
Eu me aproximei e sentei no sofá perto dele mas não tão perto a ponto de sentir vontade de pular no seu colo. Estrategicamente falando, eu sentei de forma a não ficar tão próxima.
— Não é culpado, senhor... Acidentes acontecem, é terrível mas acontecem e precisamos seguir em frente. Onde quer que ela esteja, já está seguindo seu propósito.
— Propósito? Ela não está no colo do senhor?
Oras eu havia me encrencado de novo. Ele era católico enquanto minha família era umbandista. Como falar daquilo para ele?
— Sim, propósito de estar com nosso senhor Jesus.
— Ah sim. Talvez, as vezes duvido das minhas crenças.
Estávamos conversando? Que inacreditável! Eu estava feliz por ele estar se abrindo comigo mas acredito que só estava fazendo aquilo porque eu era muito conhecida.
— As vezes, senhor, é melhor deixar os mortos descansarem. O que acha?
Ele baixou os olhos para o copo.
— Acho que sim. Vou amadurecer essa ideia e quando estiver pronto vou dar esse piano a quem saiba tocar.
Olhei o bonito piano. Era uma peça que para nós, umbandistas, não deveria pertencer aquela casa pois era uma ligação muito forte com o espírito da falecida. Quanto mais ele se agarrasse a imagem dela, mais ele sofreria e mais ela sofreria. Mas como eu ia explicar isso a quem não era da minha religião? Resolvi fazer isso quando fosse o momento certo. O piano me deu arrepios.