Regras da casa

1588 Words
Regras da casa Laurinda apareceu na sala na hora certa, antes que eu pudesse dizer algo de que me arrependeria. Vi uma outra empregada aparecer. Eu ainda não a tinha conhecido. Era mais nova, parecia muito com Laurinda. — Senhor, minha filha já se sente muito melhor. Não é Laura? De trás de Laurinda saiu a moça, bonita por sinal, aparentando uns trinta e dois anos. Então ela era a faxineira? — Bom dia, senhor Matteo, ontem eu estava muito indisposta, coisas de mulher. Ele ergueu as sobrancelhas e deu um sorriso envergonhado imaginando coisas. — Tudo bem, não vai ser descontada se é por isso que veio me falar. — Obrigada, senhor. — Ela sorriu para ele e eu conhecia aquele tipo de sorriso e olhar. Logo em seguida ela me olhou. Uma rival reconhece a outra. Eu não me lembrava dela. Sabia que Laurinda tinha uma filha mas que sempre morou com o pai em Goiás. Aquela sim era uma ameaça, uma péssima rival porque além de bonita, tinha mais de trinta anos e era branca. Eu e minha mania de que Matteo fosse se encantar mais por uma branca do que por mim ou de qualquer maneira fosse se encantar por qualquer outra e não por mim. Ele sequer olhava para os lados. A sua preocupação era com a mãe e com aquele piano da falecida e não em olhar para outras mulheres. De qualquer forma, ela estava de olho nele e era um perigo. — Podemos almoçar. — Disse Laurinda. — Vamos?  Ele me olhou, perguntando a mim e naquele momento me senti triunfante sobre ela. A mulher saiu a passos pesados da sala, começando a prender os cabelos no topo da cabeça. Eu pigarreei sorrindo. Ele foi logo atrás. — Minha mãe dorme ainda? — Sim, senhor. Pobre homem, refém das mulheres daquela casa e de algumas delas bem sedentas, como eu. Ele se sentou primeiro e eu me sentei depois. Mania dos tempos de infância. Matteo ficou olhando o celular enquanto eu aguardava, ao lado da cabeceira da mesa. Laura, a filha de Laurinda começou a ajudá-la a por os pratos à mesa. Ela me olhou e sorriu com sarcasmo. Cerrei os olhos sem entender nada. Se ela tinha seus objetivos, que trabalhasse por eles mas não ficasse me olhando com aquele olhar de deboche e desafio. Sustentei o meu olhar a desafiando. Ninguém me olhava daquela maneira, eu sabia muito bem me defender e ser maldosa o suficiente com quem era comigo. Matteo atendeu o celular e se levantou da mesa. Laurinda decidiu esperar enquanto ele se afastava para falar animadamente com alguém. Olhei para Laurinda. — Vamos esperar pelo jeito, não é? — Não gosta de esperar pelo seu patrão? — Perguntou a tal Laura. Eu sorri olhando para o lado. Laurinda não entendeu a animosidade da filha e cutucou seu braço. — Laura, que é isso? — Tudo bem, Laurinda, eu gosto de esperar sim afinal eu cresci nessa casa e conheço muito bem suas regras. Eram regras do senhor Giovanni a quem eu ... Matteo voltou a mesa e nos olhou. — Que tem meu pai? Ele deu um último gole no whisky e o abandonou sobre a mesa. Os olhos azuis mais lindos do mundo agora nos inquiria, confusos. — Eu dizia a Laura, que é nova aqui, que eu cresci nessa casa e que sei as regras do senhor Giovanni. Matteo colocou os cotovelos sobre a mesa, sorrindo amigavelmente. — Ah sim, eu peguei muito dos modos do meu pai. O que temos hoje? — Ah senhor Matteo, temos uma galinhada especial. — Delícia... Preciso almoçar e voltar a trabalhar logo. Todos almoçamos em silêncio, mas ele olhava o celular muitas vezes. Aquilo me irritava. Enfim, terminei e sendo a primeira, logo me levantei e fui deixar meu prato sobre a pia. — Não! Deixe aqui. — Disse Laurinda me advertindo para voltar a mesa pois ele não tinha terminado. Aquela subserviência estava começando a me sufocar. Eu era acostumada a fazer tudo por mim mesma e trabalhar sozinha. A cidade fazia isso por nós. Esperar Matteo terminar era educado e subserviente porém nada prático. Ele demorou a terminar por ficar respondendo pessoas ao celular e eu precisava ir ver sua mãe. Então decidi pedir licença. — Licença, senhor, preciso ver sua mãe. — Claro! Levantei e agradeci a Laurinda. — Estava uma delícia minha amiga. Você sempre arrasa nos seus pratos. Ela apenas sorriu, orgulhosa. Fui para o quarto de dona Maria e ao entrar ela ainda dormia. Devia estar morta de cansaço a pobrezinha. Só que era hora de um remédio e ela devia almoçar. Eu toquei em seu braço com calma e ela piscou os olhos várias vezes me olhando. — Isabela? Quanto tempo dormi? — Umas duas horas, mas não importa, a senhora estava cansada. Vamos almoçar e tomar seu remedinho? Primeiro o remédio da pressão que já passou da hora. Ela tentou puxar o corpo para cima e tentou se sentar mas não conseguia. Minhas costas ficariam acabadas de puxá-la sempre. Aquela era uma conversa que eu teria que ter com Matteo, sobre uma cuidadora, eu não ia aguentar muito tempo sendo cuidadora e enfermeira. Por fim, levei o almoço até o quarto já que ela estava cansada e ela manifestou o desejo de continuar almoçando e jantando em seu quarto. Eu era contra mas não podia contrariar suas ordens. Quando já descansávamos do almoço, resolvi perguntar. — A Laura também gosta dele? Dona Maria, que estava usando óculos para ler um livro, retirou os óculos e me olhou com fúria. — O que ela fez agora? — Ela fez alguma coisa? Remexi-me na cadeira, incomodada. — Ela se esfrega na cara do meu Matteo essa ordinária. — Como assim? Ajeitei meu corpo, chegando mais para perto dela, com um ciúme inexplicável de intenso. — Ela veio para cá, perto da mãe, quando o noivado lá em Goiás terminou. Eu... — Falou mais baixo — Ouvi algo delas sobre um aborto. Então ela veio para cá tem uns seis meses e anda se engraçando para cima do meu filho. Eu tinha que ser complacente e até chamar dona Maria a razão. — Mas só porque ela teve um noivado e um aborto? Qualquer mulher pode ter essa falta de sorte. Ela sorriu para mim. — Ainda tão inocente, Isabela... Você nunca vê a maldade nas pessoas? — Vejo e vi nela mas não vi uma maldade assim, eu só notei que ela olha diferente para Matteo. — Ela não olha só diferente para Matteo, ela olha diferente para todo mundo. — Ela se arvorou. — Sshhhh... — Está bem, está bem. — Eu não gostei dela, ela fala comigo com deboche. Eu odeio deboche. — Se reparar bem, ela usa saias mais curtas, decotes maiores, cabelos soltos, ela usa todas as armas para que ele repare nela. — Mas ele não repara. — Eu sorri. — Mas pode começar. Cuidado com ela, é do tipo sonsa. — Eu notei. Se ele se interessar por uma mulher dessas, eu nem ia saber mais quem é o Matteo porque ela é muito vulgar. Sabe, não é sobre ex-noivo ou aborto mas é a respeito de como ela se porta com a gente. — E você vai esperar que ela tome seu lugar? Vamos agir! Eu comecei a rir da cara de dona Maria. Estava sempre querendo armar confusões. Ela e minha mãe devem ter armado muitas confusões quando mais novas porque o senhor Giovanni também era de aprontar. Ela riu. Matteo entrou no quarto e paramos. — Eu estava passando para pegar um café, do que tanto vocês duas estão rindo? Ele sorria aquele lindo sorriso dos Ricci. Estava parado com as mãos na cintura e nos olhava curioso. — A gente estava pensando como seria bom dar uma festa de rodeio! Olhei para ela com cara de horrorizada e caí na gargalhada. Matteo começou a rir junto, sem entender nada. — Uma festa? Eu? — Meu filho, seu aniversário está chegando, até quando vai ficar sem receber os amigos, só preso no passado? Ele baixou a cabeça e eu fiquei séria. Aquilo deve ter mexido com ele. Se já faziam três anos, sua mãe estava certa. — Eu trabalho muito, mãe. — Meu filho, uma festa de aniversário pode reunir até parceiros, negociadores, é uma forma de mostrar a qualidade da nossa fazenda e do nosso gado. De onde ela tirava tanta criatividade de repente? Ela não lia aqueles livros, ela devia ficar disfarçando e matutando que coisas mirabolantes ia inventar para arrumar uma esposa para o filho.  Ele ficou um tempo pensando.  Eu o observava de cima a baixo. Era minha oportunidade de reparar em seu belo rosto e corpo sem que ele conseguisse reparar. Mas ele me pegou. Ao me olhar de repente, Matteo me pegou correndo os olhos por seu corpo. — Acha a mesma coisa, Isabela? Eu olhei para dona Maria com ar cúmplice. Ela sabia o que estava passando pela minha cabeça. Ele estava me consultando. Isso era muito positivo e me dava um frio no estomago. — Eu acho uma ótima ideia, comemorar aniversário é sempre uma ótima ideia. — Então vou pensar sobre isso... Vou buscar meu café. Ele saiu e nós duas nos entreolhamos rindo. — Seja a mais linda opção nessa festa, minha querida. Nós gargalhamos de novo. Observações: Gostando da história? Deixe um comentário, coração, vou adorar te responder! Beijinhos!  A autora.
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