Regras da casa
Laurinda apareceu na sala na hora certa, antes que eu pudesse dizer algo de que me arrependeria. Vi uma outra empregada aparecer. Eu ainda não a tinha conhecido. Era mais nova, parecia muito com Laurinda.
— Senhor, minha filha já se sente muito melhor. Não é Laura?
De trás de Laurinda saiu a moça, bonita por sinal, aparentando uns trinta e dois anos. Então ela era a faxineira?
— Bom dia, senhor Matteo, ontem eu estava muito indisposta, coisas de mulher.
Ele ergueu as sobrancelhas e deu um sorriso envergonhado imaginando coisas.
— Tudo bem, não vai ser descontada se é por isso que veio me falar.
— Obrigada, senhor. — Ela sorriu para ele e eu conhecia aquele tipo de sorriso e olhar.
Logo em seguida ela me olhou. Uma rival reconhece a outra. Eu não me lembrava dela. Sabia que Laurinda tinha uma filha mas que sempre morou com o pai em Goiás. Aquela sim era uma ameaça, uma péssima rival porque além de bonita, tinha mais de trinta anos e era branca. Eu e minha mania de que Matteo fosse se encantar mais por uma branca do que por mim ou de qualquer maneira fosse se encantar por qualquer outra e não por mim. Ele sequer olhava para os lados. A sua preocupação era com a mãe e com aquele piano da falecida e não em olhar para outras mulheres. De qualquer forma, ela estava de olho nele e era um perigo.
— Podemos almoçar. — Disse Laurinda.
— Vamos?
Ele me olhou, perguntando a mim e naquele momento me senti triunfante sobre ela. A mulher saiu a passos pesados da sala, começando a prender os cabelos no topo da cabeça. Eu pigarreei sorrindo.
Ele foi logo atrás.
— Minha mãe dorme ainda?
— Sim, senhor.
Pobre homem, refém das mulheres daquela casa e de algumas delas bem sedentas, como eu. Ele se sentou primeiro e eu me sentei depois. Mania dos tempos de infância.
Matteo ficou olhando o celular enquanto eu aguardava, ao lado da cabeceira da mesa. Laura, a filha de Laurinda começou a ajudá-la a por os pratos à mesa. Ela me olhou e sorriu com sarcasmo. Cerrei os olhos sem entender nada. Se ela tinha seus objetivos, que trabalhasse por eles mas não ficasse me olhando com aquele olhar de deboche e desafio. Sustentei o meu olhar a desafiando. Ninguém me olhava daquela maneira, eu sabia muito bem me defender e ser maldosa o suficiente com quem era comigo. Matteo atendeu o celular e se levantou da mesa. Laurinda decidiu esperar enquanto ele se afastava para falar animadamente com alguém. Olhei para Laurinda.
— Vamos esperar pelo jeito, não é?
— Não gosta de esperar pelo seu patrão? — Perguntou a tal Laura.
Eu sorri olhando para o lado. Laurinda não entendeu a animosidade da filha e cutucou seu braço.
— Laura, que é isso?
— Tudo bem, Laurinda, eu gosto de esperar sim afinal eu cresci nessa casa e conheço muito bem suas regras. Eram regras do senhor Giovanni a quem eu ...
Matteo voltou a mesa e nos olhou.
— Que tem meu pai?
Ele deu um último gole no whisky e o abandonou sobre a mesa. Os olhos azuis mais lindos do mundo agora nos inquiria, confusos.
— Eu dizia a Laura, que é nova aqui, que eu cresci nessa casa e que sei as regras do senhor Giovanni.
Matteo colocou os cotovelos sobre a mesa, sorrindo amigavelmente.
— Ah sim, eu peguei muito dos modos do meu pai. O que temos hoje?
— Ah senhor Matteo, temos uma galinhada especial.
— Delícia... Preciso almoçar e voltar a trabalhar logo.
Todos almoçamos em silêncio, mas ele olhava o celular muitas vezes. Aquilo me irritava. Enfim, terminei e sendo a primeira, logo me levantei e fui deixar meu prato sobre a pia.
— Não! Deixe aqui. — Disse Laurinda me advertindo para voltar a mesa pois ele não tinha terminado.
Aquela subserviência estava começando a me sufocar. Eu era acostumada a fazer tudo por mim mesma e trabalhar sozinha. A cidade fazia isso por nós. Esperar Matteo terminar era educado e subserviente porém nada prático. Ele demorou a terminar por ficar respondendo pessoas ao celular e eu precisava ir ver sua mãe. Então decidi pedir licença.
— Licença, senhor, preciso ver sua mãe.
— Claro!
Levantei e agradeci a Laurinda.
— Estava uma delícia minha amiga. Você sempre arrasa nos seus pratos.
Ela apenas sorriu, orgulhosa.
Fui para o quarto de dona Maria e ao entrar ela ainda dormia. Devia estar morta de cansaço a pobrezinha. Só que era hora de um remédio e ela devia almoçar. Eu toquei em seu braço com calma e ela piscou os olhos várias vezes me olhando.
— Isabela? Quanto tempo dormi?
— Umas duas horas, mas não importa, a senhora estava cansada. Vamos almoçar e tomar seu remedinho? Primeiro o remédio da pressão que já passou da hora.
Ela tentou puxar o corpo para cima e tentou se sentar mas não conseguia. Minhas costas ficariam acabadas de puxá-la sempre. Aquela era uma conversa que eu teria que ter com Matteo, sobre uma cuidadora, eu não ia aguentar muito tempo sendo cuidadora e enfermeira. Por fim, levei o almoço até o quarto já que ela estava cansada e ela manifestou o desejo de continuar almoçando e jantando em seu quarto. Eu era contra mas não podia contrariar suas ordens. Quando já descansávamos do almoço, resolvi perguntar.
— A Laura também gosta dele?
Dona Maria, que estava usando óculos para ler um livro, retirou os óculos e me olhou com fúria.
— O que ela fez agora?
— Ela fez alguma coisa?
Remexi-me na cadeira, incomodada.
— Ela se esfrega na cara do meu Matteo essa ordinária.
— Como assim?
Ajeitei meu corpo, chegando mais para perto dela, com um ciúme inexplicável de intenso.
— Ela veio para cá, perto da mãe, quando o noivado lá em Goiás terminou. Eu... — Falou mais baixo — Ouvi algo delas sobre um aborto. Então ela veio para cá tem uns seis meses e anda se engraçando para cima do meu filho.
Eu tinha que ser complacente e até chamar dona Maria a razão.
— Mas só porque ela teve um noivado e um aborto? Qualquer mulher pode ter essa falta de sorte.
Ela sorriu para mim.
— Ainda tão inocente, Isabela... Você nunca vê a maldade nas pessoas?
— Vejo e vi nela mas não vi uma maldade assim, eu só notei que ela olha diferente para Matteo.
— Ela não olha só diferente para Matteo, ela olha diferente para todo mundo. — Ela se arvorou.
— Sshhhh...
— Está bem, está bem.
— Eu não gostei dela, ela fala comigo com deboche. Eu odeio deboche.
— Se reparar bem, ela usa saias mais curtas, decotes maiores, cabelos soltos, ela usa todas as armas para que ele repare nela.
— Mas ele não repara. — Eu sorri.
— Mas pode começar. Cuidado com ela, é do tipo sonsa.
— Eu notei. Se ele se interessar por uma mulher dessas, eu nem ia saber mais quem é o Matteo porque ela é muito vulgar. Sabe, não é sobre ex-noivo ou aborto mas é a respeito de como ela se porta com a gente.
— E você vai esperar que ela tome seu lugar? Vamos agir!
Eu comecei a rir da cara de dona Maria. Estava sempre querendo armar confusões. Ela e minha mãe devem ter armado muitas confusões quando mais novas porque o senhor Giovanni também era de aprontar. Ela riu. Matteo entrou no quarto e paramos.
— Eu estava passando para pegar um café, do que tanto vocês duas estão rindo?
Ele sorria aquele lindo sorriso dos Ricci. Estava parado com as mãos na cintura e nos olhava curioso.
— A gente estava pensando como seria bom dar uma festa de rodeio!
Olhei para ela com cara de horrorizada e caí na gargalhada. Matteo começou a rir junto, sem entender nada.
— Uma festa? Eu?
— Meu filho, seu aniversário está chegando, até quando vai ficar sem receber os amigos, só preso no passado?
Ele baixou a cabeça e eu fiquei séria. Aquilo deve ter mexido com ele. Se já faziam três anos, sua mãe estava certa.
— Eu trabalho muito, mãe.
— Meu filho, uma festa de aniversário pode reunir até parceiros, negociadores, é uma forma de mostrar a qualidade da nossa fazenda e do nosso gado.
De onde ela tirava tanta criatividade de repente? Ela não lia aqueles livros, ela devia ficar disfarçando e matutando que coisas mirabolantes ia inventar para arrumar uma esposa para o filho.
Ele ficou um tempo pensando.
Eu o observava de cima a baixo. Era minha oportunidade de reparar em seu belo rosto e corpo sem que ele conseguisse reparar. Mas ele me pegou. Ao me olhar de repente, Matteo me pegou correndo os olhos por seu corpo.
— Acha a mesma coisa, Isabela?
Eu olhei para dona Maria com ar cúmplice. Ela sabia o que estava passando pela minha cabeça. Ele estava me consultando. Isso era muito positivo e me dava um frio no estomago.
— Eu acho uma ótima ideia, comemorar aniversário é sempre uma ótima ideia.
— Então vou pensar sobre isso... Vou buscar meu café.
Ele saiu e nós duas nos entreolhamos rindo.
— Seja a mais linda opção nessa festa, minha querida.
Nós gargalhamos de novo.
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A autora.