Cão e gata
Eu e dona Maria cada dia nos dávamos melhor.
Conversávamos sobre tudo, tínhamos uma grande interação. Muitas vezes ficávamos na varanda tomando o Sol da manhã lendo algum livro e depois trocávamos ideias. A casa tinha um biblioteca extensa que ocupava um cômodo que ia do chão ao teto de livros. Eu parecia uma criança quando entrava ali, procurando livros novos para ler, adorando que minha paciente também lia. Matteo passou por nós, duas manhãs depois e parou para me olhar. Notei que ele se deteve um instante para se surpreender. Era como se quisesse dizer algo sobre eu estar lendo mas como era contido, então continuou seu caminho. Laura estava por ali limpando o corrimão da varanda e ao ver que ele não a olhou nem um pouco, bateu o pano cheio de poeira próximo ao meu rosto quando passou para entrar na casa. Eu tossi. Olhei para dona Maria. Ela estava distraída com seu livro e não tinha reparado. Que mulherzinha insuportável! Ela queria uma guerra, ela teria sua guerra! O problema é que eu não tinha o tipo de malícia e maldade dela. Fiquei pensando em como lidaria com aquela situação quando vi Matteo montar em seu cavalo.
O jeito como segurava a rédea com uma única mão e o jeito como suas veias sobressaltavam ao fazer esforço, como o Sol parecia beijar sua pele alva...Achei que deveria voltar a escrever minhas cartas secretas para ele. Se pelo menos eu pudesse colocar no papel tudo o que sentia, talvez aliviasse o sentimento. Lembrei que eu precisava avisar meus pais que estava tudo bem comigo.
— Dona Maria, pode me dar licença um momento? Vou ligar para meus pais.
— Claro, filha, vai.
Busquei o celular no bolso e vi que na minha agenda estava quase na hora do remédio dela para diabetes. Eu preferi colocar os horários em alarmes no meu celular. Mas eu não iria demorar. Fui até a biblioteca no segundo andar e telefonei para meus pais. A conversa não demorou muito.
— Pai, como o senhor está?
— Bela, eu estou bem, sua mãe também está aqui louca para saber como está o trabalho.
Eu me senti péssima por não contar a verdade. Porém eu sabia que meu pai e Matteo tinham se desentendido quando saímos da fazenda para Belo Horizonte. Matteo tinha ficado muito magoado por que meu pai quis ir embora logo depois que o senhor Giovanni faleceu. Parecia sentir apreço apenas ao Giovanni mas não era isso. Eu e meus irmãos estávamos crescendo e precisávamos estudar e em Rio D'Ouro não tinha como estudar sendo que uma faculdade ficava a quilômetros de distância. Meu irmão já tinha vinte anos naquela época.
Quando meu pai passou o telefone para minha mãe eu não me aguentei e contei.
— Mãe, não fala pro pai, não deixa ele ouvir.
— Sobre o que, Isabela?
— Eu estou na fazenda Rio D'Ouro.
Houve um silêncio do outro lado e ouvi ela se afastar. O som da tv ficou distante.
— Isabela, o que está fazendo ai?
— Eu vim tomar conta da dona Maria que precisava de enfermeira.
— Maria? O que ela tem? — Perguntou sussurrando.
— Ela está na cadeira de rodas, mãe. Muito triste.
— Meu Deus, filha, eu queria visitar ela, será que teria como?
— Eu não sei mãe.
— Você foi atrás do filho dela não foi?
Parecia que um raio tinha me atingido tamanho foi meu susto. Como minha mãe sabia dos meus sentimentos? Bem, eu disse para algumas pessoas que eu me casaria com ele quando crescesse, mas acreditava que encararam como brincadeira de criança. Nem eu sabia que era tão sério aos dez anos de idade!
— Mãe, porque diz isso?
— Isabela, eu li suas coisas uma vez, anos atrás.
— Mãe!
— Eu vou arrumar um jeito de ir ai ver minha ex-patroa. Eu te aviso. E não faça nenhuma besteira por causa desse homem, lembra do mais importante, você foi juntar dinheiro para o curso.
— Eu sei, mãe, não vou esquecer.
De repente, ouvi um sino. Lembrei do sino que Matteo deu a mãe.
— Preciso ir, mãe!
Desliguei o telefone com pressa e saí correndo. Desci as escadas correndo enquanto o sino continuava tocando. Quando cheguei, Matteo chegava junto comigo e com Laurinda.
— O que foi, mãe?! — Ele perguntava preocupado.
— Dona Maria, o que houve?
— Onde você estava, c*****o?!
Olhei com horror para ele, nunca tinha ouvido ele falar palavrão e ainda mais gritando comigo. Dona Maria segurou a camisa dele.
— É fraqueza, filho, me leva para a cama, deve ser o açúcar.
Ele me olhava com raiva e empurrou a cadeira da mãe até o quarto.
— Eu faço isso! É meu trabalho!
— Você não estava com ela na hora do seu trabalho!
Ele estava suando, os cabelos molhados grudados na fronte, os olhos azuis faíscando de raiva. Eu não podia ter feito besteira pior? Não, eu tinha que me ausentar para receber aquele merecido esporro. Mas magoava, assim como qualquer olhar enfurecido dele para mim magoava e muito. Ao chegar ao quarto, ele mediu a glicose da mãe, que estava altíssima.
— Faz alguma coisa, pega o remédio dela!
Fui até a cômoda e busquei o remédio enquanto ele a pegava nos braços para deitá-la na cama. Entreguei na mão dele que rapidamente encheu um copo de água com a jarra que ficava no criado-mudo e deu a ela. Os olhos dela eram de arrependimento por tê-lo feito brigar comigo. Ainda que passando m*l, ela tinha uma lucidez fora do normal.
— Matteo, já vai passar, ela foi ligar para os pais dela.
Ele se pôs ereto e voltou o corpo para mim. Do alto de seus 1, 88, me olhava bem de perto. Ainda estava com o chapéu sobre a cabeça. Eu não tive como encará-lo ou terminaria chorando.
— O seu trabalho é um só, ficar com ela e em alguns dias já falhou duas vezes! Foi ligar para namoradinho?!
Apertei os olhos e finalmente o olhei. A mãe dele disse que fui ligar para meus pais.
— Não! Eu fui ligar para meus pais porque dona Maria estava bem, estava lendo e eu não ia demorar! — Aumentei o tom de voz pela primeira vez na minha vida com ele. — Não tenho namoradinho! E não faria isso em horário de trabalho!
— Por favor... — Disse ela — Isso acontece comigo as vezes, podem parar de brigar?
Ele continuou me olhando de muito perto, de forma afrontosa. Eu podia jurar que ele olhava minha boca.
— Isso não vai se repetir, Isabela. Não é porque nos conhece desde pequena que pode fazer o que quiser.
— Mas eu nunca fiz o que eu queria! Aliás, o que eu menos fiz foi fazer o que eu queria!
— Matteo!
A mãe dele falou mais alto. Ele a ouviu e saiu pisando duro para fora do quarto. Nenhum homem, nem meu patrão e nem mesmo ele falaria comigo daquela forma. Dona Maria começava a melhorar, a cor do seu rosto ia voltando e ela sorriu. Um sorriso enigmático.
— Você o enfrenta.
— Claro, eu não deixo ninguém gritar comigo. — Sentei-me na cama, ainda nervosa e irritada.
— Namoradinho?
Eu a olhei.
— Um absurdo ele achar que eu ia ligar para um namorado na hora do meu trabalho.
— Ele só queria saber se existe um namoradinho, sua boba.
— Não, dona Maria, ele só queria me irritar mesmo.
— Você não enxerga como eu enxergo. Mas ainda vai. Ele está interessado em saber coisas da sua vida.
— Eu não vejo dessa forma.
— Uma pena mas é a verdade.
Fiquei um tempo pensando naquilo e ela adormeceu. Olhei o relógio de pulso, meio dia, hora do almoço mas eu não tinha nenhuma fome depois do acontecimento. Laurinda foi ao quarto falando baixo.
— Almoço pronto, filha.
— Estou sem fome, Laurinda.
— Acho que se não for, ele vem te buscar.
Eu dei um sorriso sarcástico. Nem mesmo a minha paixão por ele me faria ser sua cadelinha. Eu almoçaria quando sentisse fome. Estava ficando cansada daquela rotina restrita. Queria uma folga e era meu direito trabalhista.
Quando eu não apareci, ele mandou que ela fosse me buscar. Eu continuei dizendo que não iria. Depois de algum tempo, ele entrou no quarto da mãe. Eu estava na poltrona olhando pela janela, considerava se fazia sentido continuar sentindo e perseverando. Eu jamais seria notada por ele e não iria baixar a cabeça para seus arroubos grosseiros.
— Isabela, meu escritório.
Tomei um susto e me levantei para ir atrás dele. Pronto, eu seria demitida e tudo sairia mais ou menos como os conformes, afinal eu tinha ido lá para tirar aquele homem da cabeça. Sendo demitida, eu poderia seguir minha vida e me apaixonar por outro homem algum dia de novo.