Medo da verdade
Entrei no escritório, logo atrás dele e ele fechou a porta. Cruzei os braços e permaneci de pé. Ele deu a volta na sua mesa e se sentou.
— Pode se sentar?
— Estou bem de pé.
— Isabela, sente.
Eu o olhei nos olhos. Aqueles olhos azuis que me deixavam bamba. Eu precisava encarar o fato da minha demissão e de ter que deixar dona Maria.
— Se é para me demitir, diga logo, de pé ou sentada não vai fazer diferença.
Ele sorriu e eu achei estranho. Então ele cruzou as mãos a frente do rosto lindo e ficou sério. Aquela camisa aberta no peito tirava minha concentração, bem como os bíceps que saltavam na manga da camisa, repuxando todo o tecido.
— Isabela, minha mãe é tudo que me resta. Eu não posso dar atenção que ela precisa e merece, se não percebeu eu sou o dono, gerente e negociador da minha fazenda porque não confio em ninguém. Eu estou afundado de trabalho até o pescoço. — Fez uma pausa — Eu não vou demitir você por causa de uma situação isolada. Eu queria pedir desculpas pelo meu jeito. Eu só tenho muito medo de perder minha mãe.
Meu coração amoleceu. Como podia ser diferente?
— Eu entendo, senhor mas eu me ausentei cinco minutos. Eu não tenho folga, até queria pedir isso. Minhas costas não vão aguentar carregar sua mãe, ela precisa de uma cuidadora.
— O que é uma cuidadora?
— É uma pessoa que faz o trabalho pesado. Que vai colocar ela na cadeira quando quiser sair e colocar na cama para dormir.
— Ah isso podemos pedir a Laura para fazer.
Pronto, a mulher que já me detestava ia passar a me odiar agora.
— Tem que ser a Laura?
Ele franziu as sobrancelhas.
— Tem algum problema com ela?
Pensei bem no que dizer.
— Não... não tenho problema com ela.
— Perfeito, vou falar com ela, pago um pouco mais.
— Sobre minha folga?
— Segundas-feiras pode ser? Mas preciso pensar em alguém para ficar com ela.
— Laurinda! — Rapidamente respondi, sabendo que ele podia pensar em Laura e dona Maria iria me odiar.
— Certo, vou falar com Laurinda, ela pode levar mamãe a cozinha na hora do almoço e depois ficar com ela aqui mas lembre-se a enfermeira é você. Como ela vai te contactar se precisar?
— Celular, ela pode me chamar, até porque onde eu posso ir na fazenda? No máximo até a cachoeira tomar um banho. Fica a cinco minutos daqui.
— Há muito tempo não tenho condições de ir até a cachoeira. — Ele sorriu.
Finalmente eu sorri, timidamente afinal uma mágoa não passa assim do nada.
— É, imagino senhor.
— Pode ir e me desculpe.
Baixou a cabeça olhando para o notebook a sua frente, sem esperar que eu o desculpasse. Ele sabia que não era momento. Sai dali para o quarto dela e me sentei novamente na poltrona. Meu estômago roncava, decidi ir buscar um prato de comida e almoçar no quarto com medo de deixar novamente dona Maria sozinha. Tirei um cochilo de alguns minutos e fui acordada por ela.
— Isabela, como você está, filha?
— Oi, dona Maria — Esfreguei os olhos — Estou bem. Ele pediu desculpas.
— Ele gosta de você, se fosse outra pessoa, ele nunca pediria desculpa.
— Pode ser, mas não do jeito que eu queria.
— Acalma seu coração.
Ficamos em silêncio bastante tempo até que ele veio ao quarto. Estava de banho tomado, calça jeans, botas, camisa social e um colete de couro por cima. Estava a imagem do meu Matteo de oito anos atrás. Gostoso.
— Mamãe, eu vou até a cidade, precisa de alguma coisa?
Ela me olhou.
— Vai a cidade fazer o que?
— Vou fazer o que pediu, organizar uma festa de aniversário com um amigo.
— Amigo... Precisa ir tão bonito e cheiroso assim?
Ele riu.
— Mãe, não seja indiscreta.
Baixei o olhar para o piso. Raiva. Impaciência. Ciúme. Ele ia se encontrar com alguma mulher. Porque mesmo eu ainda não tinha desistido?
— Tudo bem, Isabela?
— Claro! — Eu o olhei e pude jurar que ele tinha ficado decepcionado com a resposta. Eu estava muito brava e sarcástica. Precisava parar.
— Até mais tarde, mãe.
Nós nos olhamos.
— Vamos esperar pelo melhor. — Disse ela.
O "melhor" voltou às duas da manhã. Foi quando ouvi o ronco da caminhonete parando em frente a casa. A luz do farol alto tinha me acordado pois bateu na parede do meu quarto. Logo ouvi barulhos incomuns na cozinha e decidi me levantar, vestir um robe e ir olhar o que acontecia. Quando cheguei a cozinha, Matteo estava tentando pegar bebida e estava muito bêbado. Apertei os lábios, sem saber o que fazer. Ele me viu e me olhou de cima a baixo.
— Acordada, menina?
Menina... Ele nunca ia deixar de pensar que eu era uma menina.
— Está bêbado, vai beber mais?
Ele riu.
— Minha mãe está dormindo ali no quarto, você não é ela, ela é bem mais velha.
— Pois é, Matteo, se acontece alguma coisa com você na estrada, bêbado assim, como vai ficar sua mãe? Sozinha no mundo com gente estranha.
Ele me olhou e veio se encaminhando em minha direção. Era hora de sair correndo.
— Ela tem você.
— Eu não sou filha dela e se eu fosse, eu seria sua irmã, isso eu nunca ia querer ser.
Ele sorriu, com cara de safado. Ele estava mesmo pensando coisas a meu respeito?
— Realmente se preocupa comigo?
Respirei fundo. Estava a ponto de dizer tudo que eu sentia afinal ele estava bêbado. Tinha uma chance imensa de não se lembrar de nada no dia seguinte.
— Realmente me preocupo. Vem, se apoia em mim.
Eu o segurei e fui puxando para o quarto dele.
— Porque, morena?
Morena? Certo, era um adjetivo carinhoso e gostoso mas eu não era morena. Era n***a.
— Eu sou n***a,senhor.
— Mas eu vou te chamar de morena enquanto me chamar de senhor.
— Ahh vingança, certo.
Chegamos ao quarto dele e só então entendi a obsessão com a ex-esposa falecida. O quarto dele tinha uma cama linda de casal, muito bem arrumada e porta-retratos do ex-casal. Uma parede inteira era tomada por um armário embutido de madeira com espelhos em todas as portas e um enorme banheiro. Ele quis se encaminhar para o banheiro, talvez estivesse enjoado. Eu o acompanhei. Cuidaria dele enquanto existisse. O que eu sentia era amor, não era mais paixão, mesmo a despeito de seu comportamento rude as vezes. Ele era um homem que estava sofrendo uma perda terrível mas que eu descobriria que se tratava de alo ainda pior.
Matteo começou a tirar a roupa na minha frente e eu fiquei nervosa.
— Senhor, o que está fazendo? Quer dizer, Matteo.
— Vou tomar um banho.
Ele tirou toda a roupa, para meu deleite, ficando apenas de cueca. Eu não queria mas meus olhos vasculharam todo o corpo perfeito daquele homem e tudo que eu queria era que ele me olhasse como mulher para se jogar naquela cama comigo e me comer do jeito que eu sempre sonhei. O relógio de pulso no braço másculo me fez sentir fisgadas no meio das pernas. Ele estava somente de cueca e relógio. Então deitou-se na banheira sem água.
— Matteo, precisa de água.
Ele recostou a cabeça na louça da banheira branca e ficou me olhando. O olhar azul ia dos meus olhos aos meus lábios. Eu fazia o mesmo. Será que pensava em me beijar? Senti o coração acelerar. O hálito de álcool nem se comparava ao perfume masculino ainda não vencido. Os ferormônios que ele liberava me deixaram louca, sem conseguir pensar direito. Se ele tinha transado naquela noite não parecia.
— Ela estava grávida. — Finalmente ele disse alguma coisa.
— Ela, quem?
— Minha esposa.
Fechei os olhos entendendo tudo. Agora era fácil de entender seu comportamento hora exagerado com a mãe e hora displicente, os arroubos grosseiros, o medo de gostar de alguém de novo. Então a mulher morreu grávida no acidente que eles sofreram enquanto ele dirigia? Era para fazer qualquer um pirar. Acariciei seu rosto.
— Pare de se martirizar, Matteo... Olhe para os lados, veja que existem pessoas que te amam.
Ele franziu a testa, confuso.
— Que pessoas? Só tenho minha mãe, mais ninguém me ama.
Que t**o! m*l conseguia enxergar o óbvio bem a sua frente. Acho que nem que eu esfregasse meu corpo no dele, acordaria.
— Deve existir muitas mulheres apaixonadas que dariam tudo para ficar com você e cuidar de você.
— Pffff... Só querem patrimônio, querem que eu cuide de seus futuros, só Claudia era diferente.
— Não acredita que possa existir outra? Que seja igual a ela? Que seja louca por você?
Se ele estivesse sóbrio certamente eu jamais diria aquelas coisas mas era como falar com alguém dormindo. Ele me olhou nos olhos de novo, com o olhar marejado.
— Se existe porque ela não me fala?
Meu Deus...engoli em seco. Porque, Matteo? Porque você era tão difícil? Porque não enxergava que eu estava me declarando de peito aberto. Era como ir para o front sem nenhuma arma e esperar pelos tiros e a morte certa.
— Ela tem medo.
Ele sorriu e se aproximou do meu rosto. Vi seus lábios tão perto dos meus e se aproximando ainda mais que meu estômago parecia que ia sair pela boca. Meu rosto esquentou. Medo. Pavor. Os lábios quentes e macios dele tocaram os meus. Deus, como era bom sentir aquilo. Fogos explodiam dentro de mim, o coração descompassado parecia dar marteladas no peito, minha pele se arrepiou inteira. Aquilo estava mesmo acontecendo? Eu só podia estar sonhando. Tive medo de acordar. Levei a mão destra a seu rosto e o acariciei, vagarosamente. Eu estava ajoelhada ali para tomar conta dele mas era como se eu estivesse naquela posição na vida por ele. Apenas esperando por aquele beijo. Senti o seu hálito quente, a textura gostosa de seus lábios e o pouco de ar que ainda existia entre nossas bocas e narinas. Abri os olhos, ele também. Aquele oceano azul, cheio de mistérios me olhava com a exata noção do que estava fazendo. A mão dele veio até meus cabelos e os colocou para trás da minha orelha.
— Isso é errado.
Errado? Não, isso é certo demais! Como pode ser errado?
— Não é errado... — Sussurrei em seus lábios.
Minhas entranhas pareciam pegar fogo. Eu latejava por inteiro, estava pronta a receber seu corpo sobre o meu. Nem me importava que estava bêbado, só queria saciar meu desejo cultivado por anos e anos. Estava tão perto. Então ele sentiu enjoo.
— Eu vou vomitar!
— Espera!
A emoção do momento foi cortada por aquele efeito maldito do álcool. Busquei a lixeira do banheiro para ele e não olhei. Quando ele terminou, me olhou.
— Pode abrir a água para mim?
— Claro.
Girei as duas torneiras, calibrei a temperatura da água e o vi tirar a cueca. Meu senhor! Eu conseguia sob a água ver o seu m****o, grande e rígido do beijo ainda.
— Por favor, Isabela, me deixe, vou tomar banho e dormir. Você já fez demais por mim.
— Certo, senhor.
— Pode dormir, morena.
Eu sorri e sai fechando a porta do quarto.
Encostei-me nela de olhos fechados, louca de paixão. Como seria o dia seguinte? O que seria de mim depois daquele beijo? O que seria de mim?