Caterine Narrando
A batida na porta foi leve, quase educada demais para aquele prédio antigo. Meu coração disparou antes mesmo de eu me levantar. Caminhei até a porta com cuidado, pisando devagar para não acordar minha mãe. Ela dormia profundamente, o corpo frágil encolhido sob os cobertores, respirando com dificuldade, mas estável. Aquilo me deu forças.
Abri a porta.
Olga estava ali. Elegante, impecável, envolta em um casaco que custava mais do que tudo que havia dentro da minha casa. Ainda assim, seu olhar não demonstrava desprezo. Apenas atenção. Uma atenção intensa, quase clínica.
— Boa tarde, Caterine — ela disse em voz baixa. — Espero não estar atrapalhando.
— Não… — respondi, abrindo espaço para ela entrar. — Minha mãe está dormindo.
— Melhor assim — disse, entrando com cuidado. — O descanso é essencial para quem está fraca.
Ela olhou ao redor com calma. Minha casa era simples, pequena, mas limpa. Tudo no lugar. O fogão antigo, a mesa pequena, as paredes gastas. Olga percebeu tudo em segundos.
— Dá pra ver que você cuida bem do que tem — comentou. — Mesmo com pouco, tudo aqui tem ordem.
Fechei a porta e fiz sinal para ela se sentar. Olga tirou o casaco, dobrou com cuidado e sentou-se à mesa, mantendo a postura perfeita mesmo naquela cadeira simples.
— Eu não vim aqui para te pressionar — começou. — Vim porque você merece entender exatamente o que está sendo oferecido a você.
Engoli seco e sentei à frente dela.
— Eu ainda estou confusa — confessei. — Tudo aconteceu muito rápido.
— Eu sei — respondeu. — Mas deixa eu te explicar com calma.
Ela cruzou as mãos sobre a mesa e me olhou direto nos olhos.
— Caterine, eu trabalho com mulheres como você. Mulheres bonitas, sim, mas principalmente mulheres que nasceram no lugar errado, na hora errada, com responsabilidades grandes demais. Eu faço pontes entre essas mulheres e oportunidades que não aparecem para todo mundo.
— Que tipo de oportunidades? — perguntei, sentindo o coração acelerar.
— Trabalho internacional. Brasil, principalmente. Ambientes de luxo. Recepção VIP, eventos privados, companhias selecionadas. Nada de balcão, nada de humilhação.
— E… dinheiro? — minha voz saiu baixa.
Olga assentiu.
— Dinheiro de verdade. Não rublos contados em moedas. Estamos falando de cifras que mudam vidas.
Ela se inclinou um pouco mais para frente.
— Quero ser clara com você: se você for comigo, sua mãe não fica desamparada.
Meu peito apertou.
— Como assim?
— Parte do valor que você vai ganhar pode ficar aqui mesmo, na Rússia — explicou. — Uma quantia fixa, mensal. Para médicos, remédios, alimentação, tudo que ela precisar. Sem atraso. Sem desculpas.
— Quanto? — perguntei quase sem voz.
Olga não desviou o olhar.
— O suficiente para que você nunca mais precise escolher entre comer e comprar remédio.
Senti meus olhos arderem.
— Eu… eu nunca consegui comprar tudo que ela precisava — murmurei. — Trabalhei tanto…
— Eu sei — Olga disse, com firmeza. — E é exatamente por isso que você está sentada aqui comigo agora.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Caterine, homens pagam fortunas por exclusividade, beleza, presença. E você… — ela fez um gesto vago com a mão — …vale milhões.
A palavra ecoou na minha cabeça.
— Milhões? — repeti, incrédula.
— Sim — respondeu, sem hesitar. — Não de uma vez. Mas ao longo do tempo. Contratos altos. Clientes importantes. Pessoas que não olham preço quando querem algo raro.
Olhei para o quarto onde minha mãe dormia.
— Eu não posso abandonar ela.
— Você não vai — Olga respondeu imediatamente. — Você pode ir comigo sabendo que sua mãe está segura. E se você quiser, eu mesma organizo médicos melhores, clínicas particulares. Tudo pago.
— E o que você ganha com isso? — perguntei, sentindo medo da resposta.
Olga sorriu de leve.
— Eu ganho por fazer boas escolhas. E você é uma excelente escolha.
O silêncio caiu pesado entre nós.
— Eu não estou dizendo que você precisa decidir agora — continuou. — Mas eu vou voltar para o Brasil em poucos dias. E oportunidades como essa não esperam. Se você ficar, outra vai ocupar o seu lugar. O mundo é c***l assim.
— E se eu me arrepender? — perguntei.
— Então você para — respondeu. — Nada acontece sem você concordar. Eu não trabalho com força. Trabalho com inteligência.
Ela se levantou devagar e caminhou até a porta do quarto. Olhou minha mãe dormindo mais uma vez.
— Pense nela, Caterine — disse, voltando-se para mim. — Pense no que você faria se tivesse escolha de verdade.
Fiquei em silêncio por alguns segundos depois que Olga terminou de falar. O peso daquelas promessas era grande demais para caber no meu peito, e, ao mesmo tempo, parecia a única saída possível. Apertei as mãos no colo e respirei fundo antes de dizer o que vinha martelando na minha cabeça desde o início.
— Mas eu não tenho passaporte — falei, finalmente. — Nunca precisei. Nunca tive dinheiro nem pra pensar nisso. Eu não tenho roupa, não tenho experiência, não sei desfilar… não sei como funcionam essas coisas de modelo, de recepção de luxo. Eu sou só uma garçonete.
Olga sorriu. Não um sorriso de deboche, mas aquele sorriso paciente, ensaiado, de quem já ouviu aquela mesma frase centenas de vezes.
— Caterine, isso não é problema — disse com calma. — Absolutamente nada disso é problema.
— Como não? — perguntei, sentindo o nervosismo crescer. — Passaporte demora, custa caro… eu não tenho nem documentos organizados direito.
Ela se inclinou um pouco mais para frente.
— Pra você, isso tudo seria um problema. Pra mim, não — afirmou. — Eu resolvo passaporte em questão de dias. Às vezes, em horas. Tenho pessoas que cuidam disso. Você só precisa existir e querer.
Meu coração acelerou.
— Mas… e as roupas? — insisti. — Eu não tenho nada adequado. Nem sapato bom eu tenho.
— Isso é o mais fácil de tudo — Olga respondeu. — Roupas se compram. Sapatos se compram. Aparência se constrói. Você não precisa chegar pronta. Você chega bruta, e a gente lapida.
Engoli seco.
— E… eu não vou sozinha? — perguntei, tentando encontrar algum conforto.
— Não — ela respondeu. — Você vai comigo e com mais três meninas daqui. Todas selecionadas. Todas com potencial. Ninguém vai largar você em lugar nenhum.
Ela falou aquilo com tanta naturalidade que soou quase maternal.
— Vocês ficam juntas no começo, se apoiam, se adaptam — continuou. — Depois, cada uma segue o próprio caminho, de acordo com o perfil.
— Perfil pra quê? — perguntei.
— Para trabalhos diferentes — explicou. — Algumas funcionam melhor em eventos, outras em campanhas, outras em recepção VIP. Isso a gente descobre lá.
— E minha mãe? — minha voz saiu trêmula. — Eu não posso deixar ela desamparada nem por um dia.
Olga assentiu lentamente, como se estivesse esperando exatamente aquela pergunta.
— Por isso mesmo eu estou aqui — disse. — Antes de você viajar, a gente deixa tudo organizado. Dinheiro separado. Remédios garantidos. Se você quiser, eu posso adiantar um valor alto já nos primeiros dias. O suficiente para cobrir meses de tratamento.
— Quanto? — perguntei.
Ela citou um número que fez meu estômago revirar. Era mais do que eu tinha ganhado em anos de trabalho.
— Isso fica aqui — explicou. — Para sua mãe. Guardado. Seguro. Você vai trabalhar tranquila, sabendo que ela está bem.
Olhei para o quarto. Minha mãe se mexeu levemente no sono, tossiu baixo e voltou a respirar com dificuldade. Meu coração apertou de um jeito quase insuportável.
— E se eu não der certo? — perguntei. — E se eu não for boa nisso?
— Caterine — Olga falou com firmeza — você não “não dar certo”. Você é exatamente o que procuram. O resto se aprende.
— E… eu vou ter escolha? — arrisquei.
Ela sustentou meu olhar.
— Sempre — respondeu. — Ninguém faz nada sem você concordar. Eu não trabalho com força. Trabalho com oportunidade.
A palavra voltou a ecoar na minha cabeça.
Oportunidade.
Olhei para minhas mãos, ásperas de tanto esfregar balcão. Pensei nos turnos dobrados, nas humilhações, nas noites em claro. Pensei na minha mãe, fraca demais para levantar sozinha da cama.
— Eu só quero trabalhar — falei baixo. — Trabalhar direito. Ganhar dinheiro honesto. Cuidar dela.
— E é exatamente isso que você vai fazer — Olga respondeu, sem hesitar. — Trabalhar. Ganhar dinheiro. Cuidar da sua mãe.
Ela se levantou devagar.
— Pense com calma — disse. — Mas pense rápido. Em poucos dias eu vou embora. E eu não vou te esperar se você não estiver pronta.
Quando ela saiu, a casa voltou a ficar silenciosa demais. Sentei ao lado da minha mãe e segurei sua mão.
Naquele momento, eu não via armadilhas.
Eu não via perigo. Eu via apenas uma porta aberta. E a sensação de que, se eu não atravessasse, talvez nunca mais tivesse outra chance.