Falcão Narrando
Continuei andando pela casa, mas agora já não era só leitura de negócio. Era incômodo. Era coisa fora do lugar demais para passar batida. Um funcionário cochichando no canto errado, uma porta que deveria estar aberta e não estava, um segurança atento demais ao corredor do fundo. Tudo funcionando, tudo rendendo — e, ainda assim, alguma coisa ali estava podre.
O choro voltou. Mais baixo agora, quase como se alguém estivesse tentando engolir o próprio desespero.
Parei de novo.
Dessa vez, virei de frente para o gerente.
— Abre essa porta — falei, simples.
Ele travou. Literalmente. O corpo inteiro dele endureceu antes mesmo de responder.
— Senhor Montenegro… isso não é possível.
— Eu não pedi opinião — retruquei, mantendo a voz baixa. — Pedi pra abrir a porta.
O choro ficou mais audível por um segundo, como se a menina tivesse percebido movimento do lado de fora. Palavras emboladas, num idioma que eu não identifiquei direito. Não era português. Não era espanhol. Era outra coisa. E isso me deixou ainda mais puto.
— Eu não tô entendendo nada do que ela tá falando — falei, mais pra mim do que pra ele. — E isso aqui já tá me tirando do sério.
Dei mais um passo em direção à porta, mas o gerente entrou na minha frente de novo.
— A gente não tem autorização pra isso, senhor — disse, tentando manter o tom profissional. — Elas não têm autorização pra conversar com o senhor.
Fiquei parado, encarando ele por alguns segundos.
— Autorização de quem? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
Ele respirou fundo, como quem repete um roteiro decorado.
— Do seu pai. Foi uma regra clara. Nenhuma das meninas conversa com a gerência geral nem com a família Montenegro. Cada setor tem sua função.
Soltei uma risada curta, sem humor.
— É isso mesmo, né? — falei devagar. — Regra do meu pai. Ninguém fala com ninguém. Ninguém vê ninguém. Ninguém pergunta nada.
O choro veio mais forte por um instante, e eu virei o rosto na direção da porta.
— Essa garota tá chorando por quê? — perguntei de novo. — Porque isso aí não é choro de quem só torceu o pé.
O gerente se adiantou, rápido, quase ensaiado.
— Como eu já expliquei, senhor Montenegro, ela se machucou. Hoje não pode trabalhar. Não vai fazer nenhum programa. E isso significa perder o dia dela. É por isso que ela está assim. Amanhã, quando estiver melhor, ela volta normalmente.
— Volta de onde? — perguntei.
— Da residência onde elas ficam — repetiu, evitando me olhar nos olhos.
Residência.
Outra palavra bonita pra coisa que eu não tinha acesso.
Passei a mão no rosto, respirando fundo. Meu limite tava chegando.
— Vou te falar uma coisa — comecei, a voz mais baixa do que antes. — Vocês me irritam pra c*****o.
Ele engoliu seco.
— Tudo aqui é sempre muito certo, muito organizado, muito dentro da regra… mas ninguém nunca explica nada. Vocês falam como se eu fosse um estranho andando no meu próprio negócio.
— Não é isso, senhor — ele tentou.
Levantei a mão, cortando.
— É exatamente isso — corrigi. — E você, principalmente, tá me irritando muito hoje.
O choro cessou de novo, de forma brusca demais. Aquilo me deu um frio estranho no estômago.
— Sabe o que eu vou fazer? — falei, puxando o celular do bolso. — Vou ligar pro meu pai agora.
O gerente empalideceu um pouco.
— Não acho necessário…
— Eu acho — interrompi, já discando.
Me afastei alguns passos, encostei na parede e levei o telefone ao ouvido, sem tirar os olhos do corredor.
Chamou duas vezes.
— Fala — a voz dele veio seca, objetiva.
— Tô numa das casas — comecei. — E tem coisa errada aqui.
Silêncio do outro lado.
— Errada como? — ele perguntou.
— Tem uma menina chorando num quarto trancado. Ninguém deixa eu falar com ela. Ninguém explica direito. Todo mundo só repete que é regra sua, que elas estão aqui porque querem, que não sei o quê…
Mais um silêncio. Mais pesado.
— E você quer o quê, Natan? — ele perguntou, num tom que eu conhecia bem. — Resolver problema operacional ou criar problema onde não existe?
Fechei os olhos por um segundo.
— Eu quero entender o que tá acontecendo dentro dos negócios que levam meu nome.
— Então faz o que você sabe fazer — ele respondeu, frio. — Confere números, contratos, fluxo. O resto não é da sua alçada.
— Tem uma garota chorando, pai.
— E isso não é novidade nesse tipo de negócio — ele cortou. — Emoção não entra na planilha.
Abri os olhos devagar.
— Você sempre falou que tudo aqui é voluntário.
— E é — ele respondeu, sem hesitar. — Ninguém está preso. Ninguém está sendo forçado.
Olhei de novo para a porta fechada no fim do corredor.
— Então por que ninguém deixa eu falar com ela?
A resposta veio sem variação de tom.
— Porque não é assim que o sistema funciona. E você não vai mudar isso agora.
— Então não me pede nunca mais pra vir nessa merda desse lugar p***a! Se eu não posso saber o que tá acontecendo de verdade, por que tá na cara que ela tá chorando por outra coisa, e que língua é essa que ela tá falando que nem eu to entendendo? Maluquice do c*****o me tirar do meu morro pra me estressar aqui.
A ligação caiu logo em seguida. Fiquei alguns segundos parado, olhando para a tela apagada do celular. O choro não voltou. O silêncio tomou conta do corredor de um jeito desconfortável demais.
Guardei o telefone devagar. Voltei até o gerente.
— Faz o que tiver que fazer — falei. — Resolve isso aí.
— Pode deixar, senhor Montenegro.
Assenti, virei de costas e segui para a saída. Por fora, tudo continuava funcionando. Por dentro, alguma coisa tinha acabado de rachar. E eu ainda não sabia se aquele incômodo ia passar ou se tinha acabado de acordar um problema grande demais pra ser ignorado.