Catherine Narrando
A van parou devagar. Não foi uma freada brusca nem o barulho comum da rua. Parou suave demais, como tudo que envolve dinheiro grande. A porta lateral se abriu, e o primeiro impacto foi a luz não a luz do Rio que eu tinha visto da sacada, bonita, viva mas uma iluminação artificial, branca, calculada, que não deixava sombra para esconder nada.
Descemos uma a uma.
O prédio à nossa frente não parecia uma boate comum. A fachada era imponente e discreta, sem letreiro chamativo. Portas altas, seguranças de terno preto, expressão neutra, mãos cruzadas à frente do corpo. Nenhum sorriso. Nenhuma curiosidade. Eles nos olharam como se já soubessem exatamente quem éramos. Ali, eu senti o primeiro arrepio real.
Entramos.
O interior era luxuoso demais para ser apenas diversão. O chão de mármore refletia a luz suave dos lustres modernos, e o cheiro era uma mistura de perfume caro, álcool importado e algo metálico que eu não soube identificar. A música tocava baixa, lenta, sensual, mais para provocar do que para animar. As pessoas não dançavam. Elas observavam.
Homens estavam sentados em sofás largos, bebidas caras nas mãos, olhares atentos demais, avaliando tudo. Avaliando nós. Não como quem admira, mas como quem escolhe.
— É aqui que a gente vai trabalhar? — uma das meninas cochichou, rindo nervosa.
Eu tentei rir também, mas não consegui.
Seguimos caminhando, com Olga à frente. Foi ali que tudo começou a quebrar. A postura dela mudou. Não foi algo gritante; foi sutil — e justamente por isso, assustador. Os ombros ficaram mais retos, o passo mais firme, e o sorriso… desapareceu. Não apenas o sorriso educado, mas qualquer vestígio de doçura.
Ela não olhava mais para nós. Ela olhava através de nós.
Um homem se aproximou. Terno caro, relógio pesado no pulso, sotaque estrangeiro.
— Essas são as novas? — perguntou, sem sequer baixar os olhos para o meu rosto.
— São — Olga respondeu, fria e profissional. — Chegaram hoje.
Ele passou os olhos por nós como quem analisa mercadoria numa vitrine.
— Essa aqui — disse, apontando para mim com o copo de uísque — é diferente.
Meu estômago virou.
— Ela é especial — Olga respondeu. — Muito.
Especial. A palavra não soou como elogio.
Outro homem se aproximou. Depois outro. Eles falavam entre si como se não estivéssemos ali. Comentavam aparência, idade, sotaque, corpo. Um deles perguntou se eu falava inglês. Outro quis saber de onde eu era. Nenhum perguntou meu nome.
— Olga… — chamei, baixo. — O que é isso?
Ela virou o rosto para mim pela primeira vez desde que entramos e, ali… ali eu vi. Não havia mais nenhuma mulher ali. Só a predadora.
— Agora, silêncio — disse em russo, para que só nós entendêssemos. — Observem e aprendam.
Meu coração começou a bater tão forte que eu senti o sangue nos ouvidos.
Fomos conduzidas para um espaço mais reservado: um lounge fechado, sofás claros, iluminação ainda mais baixa. Um funcionário trouxe bebidas, mas ninguém tocou. As meninas se sentaram devagar, confusas. Uma delas começou a ajeitar o vestido, nervosa.
— A gente vai desfilar? — perguntou, tentando manter o tom leve.
Olga sorriu. Não como antes.
— Vocês vão ser apresentadas — respondeu.
Apresentadas.
Foi então que eu percebi. Não havia palco, não havia recepção, não havia trabalho. Havia negociação.
Um homem se aproximou de mim e estendeu a mão para tocar meu braço. Recuei no mesmo instante.
— Não toca — falei, a voz saindo mais alta do que eu pretendia.
Ele riu.
— Calma, princesa.
Olhei para Olga, esperando que ela dissesse algo. Qualquer coisa. Ela não disse.
— Olga… — minha voz falhou. — Você disse que era trabalho. Que era recepção. Que era modelo.
Ela me encarou com frieza absoluta.
— E é — respondeu. — Você só não entendeu ainda o nível do trabalho.
O chão pareceu ceder sob meus pés.
— Eu não concordei com isso — falei, sentindo o ar faltar. — Eu não vim pra isso.
— Você veio sim — Olga respondeu, aproximando-se. — Veio no momento em que aceitou o dinheiro. Veio quando assinou os papéis. Veio quando entrou naquela van.
— Você mentiu pra mim — sussurrei.
Ela inclinou a cabeça.
— Eu te adaptei à realidade.
Meu corpo inteiro tremia. Foi ali, naquele segundo, que eu entendi. Eu não era convidada, não era funcionária, não era modelo. Eu era mercadoria.
— Eu quero ir embora — falei, sentindo as lágrimas queimarem. — Agora.
Olga soltou um riso baixo.
— Ir embora pra onde, Caterine?
Meu nome na boca dela soou como sentença.
— Seu passaporte está comigo. Seu celular está comigo. O dinheiro da sua mãe… também.
Meu mundo desabou.
— Você não faria isso — sussurrei. — Minha mãe…
— Sua mãe está viva por minha causa — Olga cortou. — E continuará viva se você cooperar.
As luzes pareciam mais fortes, os olhares mais próximos, os homens mais interessados. Eu olhei ao redor procurando ajuda. Não havia. Naquele lugar, ninguém salva ninguém.
E enquanto Olga voltava a sorrir — agora para eles — eu entendi a verdade inteira, nua e crua: eu não tinha vindo ao Brasil para trabalhar. Eu tinha sido importada.
O Rio de Janeiro, que horas antes parecia um sonho iluminado, agora se revelava como a jaula mais cara que eu jamais pisaria.
Dois seguranças se aproximaram ao mesmo tempo, grandes, rápidos, mãos firmes demais. Um segurou meu braço, o outro já estava atrás de mim, fechando qualquer possibilidade de fuga. As meninas começaram a chorar imediatamente. Uma delas ficou paralisada; a outra tremia tanto que m*l conseguia ficar em pé.
— Não encosta em mim! — gritei, tentando me soltar. — Me solta!
Eles não responderam. Apenas me arrastaram.
Fomos empurradas por um corredor lateral, longe dos sofás, longe da música, longe da ilusão. A porta se abriu para uma sala menor, sem janelas, paredes escuras, um sofá de couro e uma mesa de vidro. Assim que entramos, a porta foi fechada atrás de nós com um estalo seco.
Foi ali que eu perdi o controle.
— SUA FILHA DA p**a! — gritei, me virando para Olga com tudo. — VOCÊ MENTIU PRA MIM!
Avancei nela sem pensar. Minhas mãos encontraram o casaco caro, minhas unhas arranharam a pele do braço dela. Foi tudo o que consegui antes de um dos seguranças me puxar para trás com força, me prendendo pelos ombros.
— Me solta! ME SOLTA! — eu gritava, chorando, me debatendo como um animal encurralado. — Eu vou embora! Eu não vim pra isso!
Os seguranças riram. Riram alto.
— Olha isso — um deles disse, debochado. — p*****a brava dá trabalho, hein?
— Sempre acham que são diferentes — o outro completou, rindo.
Meu estômago revirou. Senti vontade de vomitar.
— EU NÃO SOU p**a! — gritei, a voz rasgando. — EU NÃO SOU ISSO!
Olga observava tudo com calma, sem pressa, sem surpresa. Quando falou, a voz saiu limpa, fria, quase divertida.
— É isso agora? — perguntou, rindo de leve. — Agora você trabalha pra mim, sim.
Levantei o rosto, sentindo o corpo inteiro tremer.
— Você é uma desgraçada — cuspi. — Uma p*****a, uma safada. Você enganou todo mundo. Você me enganou. Enganou minha mãe!
Tentei avançar de novo, mas o segurança me segurou mais forte, o braço dele apertando meu tórax até faltar ar.
— Solta ela — Olga disse, erguendo a mão.
Eles me largaram. Tropecei, quase caí, mas me mantive de pé.
— Eu jamais vou fazer isso — falei, chorando, a voz falhando. — Jamais. Você não pode me prender aqui.
Olga cruzou os braços.
— Prender? — repetiu, como se achasse graça. — Ninguém está te prendendo, Caterine.
— Então eu vou embora agora! — gritei. — Agora!
Ela sorriu.
— Quer ir embora? — perguntou. — Pode ir.
Meu coração bateu forte.
— Vai — continuou. — Assim que você me pagar tudo o que me deve.
Fiquei confusa por um segundo.
— Eu não te devo nada, sua vagabunda — gritei. — Nada! Eu te dou dinheiro, eu trabalho, mas eu não te devo nada!
O sorriso dela sumiu. Ela se aproximou devagar, cada salto ecoando no chão da sala.
— Me deve, sim — disse, agora sem doçura nenhuma. — Me deve o dinheiro do primeiro remédio que eu comprei pra sua mãe. Me deve cada caixa de medicamento, cada consulta, cada sacola de comida que eu deixei naquela casa imunda onde você vivia.
Meu corpo gelou.
— Me deve o passaporte que eu fiz, o visto, a passagem de avião. Me deve o celular que estava na sua mão até agora. Me deve essa roupa que você está vestindo.
Ela passou o olhar por mim de cima a baixo.
— Essa calcinha também.
Senti as pernas falharem.
— Tudo isso é dívida — ela continuou. — E não é pequena. É uma dívida que você jamais pagaria limpando balcão na Rússia.
Meus olhos ardiam. O choro saiu descontrolado, feio, desesperado.
— Eu não vou fazer isso — repeti, mais fraca. — Eu prefiro morrer.
Olga se inclinou, o rosto a poucos centímetros do meu.
— Não dramatiza — disse, fria. — Você vai fazer. Porque quer que sua mãe viva. Porque quer que ela continue recebendo remédio. Porque quer que ela continue respirando.
Ela se afastou e fez um gesto para os seguranças.
— Levem ela — ordenou. — Quando passar o surto, ela entende.
Os homens me agarraram de novo. Eu gritava, chorava, xingava, batia, mas era inútil. Um deles segurou meu rosto com força.
— Relaxa, russa — disse, rindo. — Daqui a pouco você acostuma.
Enquanto eu era arrastada para fora daquela sala, uma única certeza se cravou dentro de mim, como uma lâmina: eu não tinha escolha, eu não tinha saída. Eu ia ter que me prostituir para pagar uma dívida que nunca acabaria.
E o inferno tinha acabado de começar.