Beatriz narrando Eu deixo o carro ali embaixo, desligo o motor devagar, como se isso fosse diminuir o peso do que eu tô fazendo. O Vidigal tá quieto, daquele silêncio que só morro conhece — não é paz, é vigilância. Tudo parece parado, mas eu sei que tem olho em todo canto. Desço do carro ajeitando o vestido, respiro fundo e sigo a pé. Cada passo meu parece mais alto do que devia. No fundo, eu sei. Sei mesmo. Eu não devia estar ali. Não devia ter ligado, não devia ter descido, não devia ter deixado o vinho passar da segunda taça ou talvez eu só esteja usando o vinho como desculpa. Vejo o Renato antes dele me ver. Ele tá parado perto do corrimão, corpo encostado de lado, postura tranquila de quem manda naquele chão desde sempre. Camisa escura, braço grosso à mostra, aquela calma perigosa

