07

1798 Words
Caterine Volkova O despertador nem precisou tocar. O som da respiração curta e pesada da minha mãe, vinda do outro lado do cômodo, já tinha me arrancado do sono antes mesmo do sol — se é que podíamos chamar aquela claridade cinzenta de sol — aparecer no horizonte de Vladivostok. Levantei devagar, sentindo o assoalho frio morder a sola dos meus pés. A primeira coisa que fiz foi caminhar até ela. Ao tocar sua testa, meu coração afundou. Ela ainda estava queimando em febre. O calor que emanava da sua pele contrastava com o gelo que parecia ter se instalado no meu estômago. — Só mais um pouco, mamãe... — sussurrei, embora ela m*l pudesse me ouvir. Vesti meu casaco mais grosso e saí. Fui até a pequena farmácia da esquina, o único lugar aberto àquela hora. Em cima do balcão, comecei o meu ritual diário de humilhação: contar moedas. Coloquei cada rublo amassado e cada moeda de metal frio sobre a superfície de vidro, rezando para que o total fosse suficiente. O farmacêutico me olhou com uma mistura de pena e tédio enquanto eu empurrava as últimas moedas para completar o valor de um antitérmico barato. Voltei para casa correndo. Preparei um café da manhã o mais reforçado que a nossa despensa permitia. Fiz um Kasha quente — o mingau de aveia que ela sempre gostou — e servi com o resto de um chá forte. Ajudei-a a se sentar, dei o remédio e esperei ela comer cada colherada. Só depois que a vi minimamente confortável, me arrumei. Escondi meu rosto sob o cachecol, prendi o cabelo de qualquer jeito e saí para a lanchonete Ogorodnik. Cheguei cedo, como sempre. O cheiro de gordura velha já estava impregnado no ar. Avistei Yelena conferindo o caixa e tomei coragem. O "não" eu já tinha, mas o desespero me dava pernas para buscar o "sim". — Yelena... por favor. Eu queria pedir um adiantamento, qualquer coisa — comecei, com as mãos entrelaçadas para esconder o tremor. — Minha mãe piorou. Ela está com muita febre, preciso comprar remédios mais fortes, vitaminas... eu trabalho dobrado, eu cubro o turno de quem você quiser, mas eu preciso desse dinheiro hoje. Yelena nem se deu ao trabalho de parar o que estava fazendo. Ela soltou uma risada anasalada, carregada de deboche. — Adiantamento, Caterine? Você acha que eu sou o quê? Um banco? — Ela se virou, me medindo de cima a baixo com olhos cruéis. — Com esse seu rostinho de boneca de porcelana, você está perdendo tempo limpando chão. Devia estar vendendo fotos suas na internet, ou achando um desses velhos ricos em Moscou para bancar você. Dinheiro fácil para quem nasceu com essa cara. O sangue subiu ao meu rosto, mas eu não tive tempo de responder. A porta dos fundos se abriu e Igor, o marido de Yelena, entrou com aquele sorriso de canto que sempre me dava náuseas. Ele era um homem asqueroso, que passava o dia me seguindo com os olhos, como se eu fosse um pedaço de carne pendurado em um gancho. — Deixa a menina, Yelena — ele disse, aproximando-se demais, a mão pesada encostando no meu ombro "por acaso". — Não precisa ser tão dura. Dá um dinheirinho para ela agora... a gente sabe que a Caterine é uma boa menina. Ela vai saber como recompensar a gente depois, não vai, boneca? Ele piscou para mim, e o sentido daquelas palavras "recompensar depois" ficou pairando no ar como fumaça tóxica. Havia dois clientes em uma mesa próxima, observando a cena em silêncio, o que só tornava a situação mais humilhante. Eu era uma peça de entretenimento para eles — a garçonete bonita sendo pressionada pelos donos miseráveis. — Eu só quero trabalhar, Igor. E receber o que é justo — respondi, afastando-me do toque dele com o resto de dignidade que me sobrava. — O que é "justo" quem decide sou eu — Yelena rosnou, batendo a gaveta do caixa. — Vá pegar o esfregão. E se eu ouvir mais uma palavra sobre adiantamento, você volta para casa agora, sem emprego e sem rublo nenhum. Virei as costas e fui para o vestiário. Meus olhos ardiam, mas eu não me permiti chorar. Naquele momento, eu entendi que a Rússia estava me matando aos poucos. Eu estava de joelhos, sentindo o cheiro de cândida barata queimar minhas narinas enquanto esfregava uma mancha de café seco no chão de linóleo. Minhas mãos, já ressecadas pelo frio da manhã e pelos produtos de limpeza, latejavam. Eu tentava focar apenas no movimento mecânico do braço para não deixar minha mente voltar para o quarto onde minha mãe delirava de febre. — Você pode anotar meu pedido ou está muito ocupada limpando o chão? — Uma voz feminina, arrastada e estranhamente elegante para aquele lugar, me arrancou dos pensamentos. Levantei o olhar. Uma mulher de casaco de pele impecável me observava. Ela exalava um perfume caro que parecia um insulto ao cheiro de fritura da lanchonete. — Pode falar, senhora. Já estou indo — respondi, levantando-me e limpando as mãos no avental encardido. Anotei o pedido de um café preto e um folhado de maçã. Quando voltei para entregar, ela não estava em uma das mesas, mas sim sentada direto no balcão, bem na minha frente. Comecei a organizar os copos, tentando ignorar o olhar analítico dela. — O que está acontecendo, querida? — ela perguntou, enquanto mexia o café devagar. — Como assim? — Franzi a testa, sem parar o serviço. — Eu ouvi a conversa agora há pouco. Você precisando de adiantamento e seus patrões fazendo gracinha com a sua cara. A vida não tem sido gentil com você, não é? Parei por um segundo, sentindo um peso no peito. É difícil manter a guarda alta quando alguém parece notar sua dor em meio à invisibilidade do trabalho braçal. — Isso é assunto pessoal, senhora — falei, desviando o olhar para um cliente que pedia a conta. — Mas sim, minha mãe está doente. E aqui... bom, aqui você tem que se matar de trabalhar para conseguir qualquer coisa. Fui atender outros dois homens no canto do balcão. Enquanto passava os pedidos, ouvi os mesmos comentários de sempre sobre meus olhos e como eu "iluminava" aquele lugar sujo. Um deles tentou tocar minha mão quando entreguei o troco, e eu puxei o braço com um suspiro de cansaço. Eu já estava de saco cheio. Saco cheio do assédio, da miséria e do frio que nunca ia embora. Voltei para perto da mulher elegante, que ainda me observava com uma espécie de empatia calculada, fazendo-se de amiga. — Você não está de saco cheio disso tudo, Caterine? — Ela sabia meu nome. Provavelmente ouviu Yelena berrando comigo. — Desse lugar, desses homens, dessa falta de esperança? — Estou. Mais do que você imagina — respondi, limpando o balcão com força. — Mas é o que eu tenho hoje. É o que mantém o remédio da minha mãe e o pão na mesa. Eu não tenho escolha. — E se eu te dissesse que você tem? — Ela se inclinou para frente, baixando o tom de voz. — Eu trabalho com talentos. Agenciamento de modelos e recepção de luxo no exterior. O Brasil, por exemplo, é um país maravilhoso, quente, onde uma mulher com a sua aparência seria tratada como uma rainha, não como uma servente de balcão. Eu ri, um riso amargo. — O Brasil? Senhora, eu m*l tenho rublos para o ônibus. — Eu não estou pedindo seu dinheiro, querida. Estou oferecendo uma oportunidade de salvar sua mãe. Pense nisso. Olhei para a mulher à minha frente, sentindo uma mistura de desconfiança e uma fagulha de esperança que eu tentava apagar. Eu não podia me dar ao luxo de acreditar em contos de fadas. — Quanto você precisa para comprar os remédios da sua mãe? — Olga perguntou, a voz suave, mas direta. — Senhora, eu não posso aceitar nada... — tentei começar, mas ela me cortou com um gesto rápido. Aproveitando que Yelena tinha se virado para a cozinha e Igor estava distraído com a TV, Olga tirou um pequeno rolo de notas de rublos de dentro da bolsa. Com uma agilidade impressionante, ela enrolou o dinheiro em um guardanapo de papel e, em um movimento fluido, enfiou-o direto no bolso do meu avental manchado. — Isso é por minha conta — ela sussurrou, fixando seus olhos nos meus. — Um presente de quem sabe o que é passar necessidade. Meu coração disparou. Olhei rapidamente para os lados, o suor frio brotando na nuca. Ninguém tinha visto. Para mim, naquele momento, aquele volume no meu bolso era mais do que dinheiro; era a sobrevivência da minha mãe. — Você parece uma modelo, Caterine. É linda demais para este lugar — Olga continuou, analisando cada detalhe do meu rosto. — Com esses cabelos, esse corpo e esses olhos... você seria o rosto de qualquer campanha internacional. — Se eu te contasse quantas vezes ouço isso por dia, a senhora não acreditaria — respondi, soltando um riso amargo enquanto passava o pano no balcão para disfarçar o nervosismo. — Acredito. Mas os outros usam sua beleza para te humilhar ou te pedir coisas. Eu estou aqui para te dizer o que você pode conquistar com ela — Olga não desistia. Ela perguntava sobre minha vida, sobre como era o dia a dia na Rússia, e eu acabava respondendo entre um pedido e outro, fascinada pelo seu interesse. — Eu não tenho como te pagar, senhora — falei baixinho, aproximando-me dela. — O que acabou de fazer... eu não posso retribuir. — Eu não estou pedindo nada em troca, querida — Olga sorriu, e por um segundo, ela pareceu realmente simpática. — Eu apenas simpatizei com você. Vejo potencial onde os outros só veem lucro barato. Você deveria procurar sobre a minha agência na internet. Ela tirou um cartão dourado e elegante, deslizando-o para dentro do meu bolso, junto com o dinheiro. — VOLKOVA! ANDE LOGO COM ESSAS XÍCARAS! — O grito de Yelena ecoou da cozinha, fazendo-me saltar. Olga se levantou devagar, ajeitando seu casaco de pele com uma elegância que parecia de outro mundo. — Está vendo? — ela disse, apontando com o queixo para a direção da voz de Yelena. — Você não merece estar passando por isso. Não mesmo. Ela caminhou em direção à porta, mas parou antes de sair e olhou para trás. — Me liga, Caterine. Podemos marcar um café fora daqui, em um lugar onde ninguém grite com você. Pense na sua mãe. Fiquei ali, imóvel, sentindo o peso do dinheiro e do cartão contra a minha coxa. O dia seguiu arrastado, mas agora havia um segredo queimando no meu bolso.
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