08

1319 Words
Falcão Narrando Acordei com o barulho conhecido do pano sendo torcido no balde. Não foi despertador, não foi tiro, não foi rádio de polícia. Foi isso. O som simples que existe ali desde antes de eu mandar em qualquer coisa. — Ô menino… — a voz da tia Jurema veio baixa, como sempre. — Já tô entrando, viu? — Entra, tia — respondi ainda de olho fechado. — A casa é sua mais do que minha. Ela riu daquele jeito curto, sem fazer cena, e empurrou a porta do quarto devagar. O cheiro de café fresco entrou antes dela. Café forte, do jeito que eu gosto. Tia Jurema trabalha na minha casa desde quando eu ainda era moleque, antes de virar “Falcão”, antes de pistola na cintura e morro nas costas. Ela não tem medo de mim. Nunca teve. E isso, pra mim, vale mais que respeito comprado. — Dormiu tarde de novo, né? — ela disse, puxando a cortina sem cerimônia. — Olha essa cara… parece que brigou com o mundo inteiro. — Briguei não — falei, sentando na cama e passando a mão no rosto. — O mundo que insiste em me provocar. — Ah, conversa… — ela respondeu, já ajeitando a cama com movimentos automáticos. — Se cuidasse mais desse corpo, não vivia assim acabado. — Acabado nada, tia. Isso aqui é charme — falei, batendo no peito. Ela me olhou por cima do óculos, daquele jeito que só quem te viu crescer consegue olhar. — Charme coisa nenhuma. Você é novo ainda. Tem que comer direito, dormir direito. — A senhora fala como se fosse fácil — retruquei, rindo. — Fácil nunca foi pra ninguém aqui — ela devolveu, sem agressividade. — Mas também não é desculpa. Silêncio. Não pesado. Confortável. Enquanto ela varria o quarto, eu observava. Aquela mulher já tinha limpado chão de casa com sangue seco, já tinha me visto voltar machucado, já tinha fingido não ouvir conversa que não era pra ouvido nenhum ouvir. Nunca perguntou demais. Nunca julgou. Só cuidou. — Tia — chamei. — Fala, meu filho. — Fez comida? Ela parou, virou devagar e abriu um sorriso. — Feijão fresquinho, arroz, carne de panela… do jeito que você gosta. E botei legume, viu? Não vem reclamar depois. — Aí sim — falei, levantando. — A senhora salva mais vida que muito médico por aí. — Eu salvo é você da gastrite — respondeu, indo em direção à porta. — Lava esse rosto e vem comer. Antes de sair, ela parou. — E outra coisa… — disse, me encarando sério agora. — Não esquece quem você é, não. O mundo lá fora pode te chamar do que quiser. Aqui dentro, você ainda é o menino que eu vi correndo descalço. Engoli seco. Dei um meio sorriso. — Pode deixar, tia. Isso eu não esqueço, não. Ela saiu, e eu fiquei ali por alguns segundos, olhando o quarto. Cama grande, ar-condicionado, segurança na porta. Tudo pago com dinheiro pesado. Mas o que me mantinha inteiro era aquilo: gente de verdade, vínculo antigo, respeito que não se compra. Naquela casa, eu ainda sou só o menino que aprendeu cedo que poder sem raiz não sustenta ninguém. Levantei, ajeitei a bermuda e fui comer. Porque reinado nenhum se mantém de estômago vazio e muito menos sem quem te lembre de onde você veio. Ouvi o estalo da maçaneta da porta que ficava no fim do corredor, aquela que permanecia sempre trancada. Levantei num pulo, a cadeira quase virando para trás. Atravessei a sala em três passadas e bati a mão na porta, fechando antes que ela abrisse por completo. — Qual foi, tia? Aqui não, pô! — soltei uma risada nervosa, bloqueando a entrada com o corpo. Eu chamo de escritório, mas o morro inteiro sabe que ali é o meu "Quarto Vermelho". Uma versão bandida do filme, adaptada pro meu gosto. — Natan, sai da minha frente, garoto! — Jurema riu, tentando me empurrar com o braço gordo. — Eu já entrei nesse quarto milhões de vezes pra limpar enquanto você tava na rua fazendo suas maluquices. — Quem deixou? — Arqueei a sobrancelha, olhando sério pra ela, mas com aquele brilho de deboche no olho. — Eu sempre falei pra nunca pisar aqui dentro, Jurema. É área restrita. — Ai, garoto! Tá atrapalhando meu trabalho. Sai! Com uma força que só mulher velha tem, ela empurrou meu ombro e abriu a porta de vez. O ar condicionado estava no talo, e o cheiro de couro e perfume caro tomou conta do corredor. Jurema entrou de braços cruzados, encarando o meu santuário de perdição. As paredes eram de um vermelho sangue profundo, acolchoadas para abafar qualquer grito. No centro, a cama redonda gigante, forrada com lençóis de seda preta, refletia no espelho enorme que cobria todo o teto. — A noite foi boa ontem, hein? — Ela soltou, apontando com o queixo pros chicotes de couro e as algemas revestidas de veludo que ficavam pendurados num painel de aço na parede lateral. — Como é que essas mulheres aguentam isso, Natan? Você é doido? Ela caminhou até a poltrona de sexo, uma peça de design ergonômico preta que parecia um instrumento de tortura medieval, e passou o espanador sem a menor cerimônia. — Olha esse monte de corda pendurada no teto... parece que vai enforcar alguém! — Ela resmungou, balançando a cabeça enquanto eu encostava no batente da porta, observando a cena. O quarto tinha de tudo: mordaças de silicone, palmatórias de madeira nobre, óleos aromáticos espalhados por uma penteadeira de mármore e uma iluminação em LED neon que deixava tudo com cara de boate proibida. — É a arte da sedução, tia. A senhora não entende dessas modernidades — brinquei, mas por dentro eu tava era conferindo se não tinha ficado nenhum rastro de nada que pudesse chocar demais a velha. — Sedução é um jantar bom e um carinho, seu sem vergonha! — Ela me deu um tapa no braço com o espanador. — Agora sai daqui que eu tenho que tirar o pó desse espelho no teto. Fica aí me olhando trabalhar não, vai cuidar dos seus negócios que eu cuido da sua bagunça. Enquanto a tia Jurema já ia entrando com o balde e o espanador naquela luz vermelha, eu dei um passo atrás, encostei no portal e soltei aquele sorriso de canto, observando ela encarar o meu "parquinho de diversão". — Ó, tia... vai entrando devagar, hein? Cuidado pra não ter muita curiosidade e acabar ficando presa em algum lugar aí. Se a senhora se amarrar nessas cordas, eu não volto pra soltar não! — Falei, dando uma piscadinha e rindo da cara de indignação que ela fez. — Deixa de ser palhaço, Natan! — Ela retrucou, já balançando o espanador na direção de uma das poltronas de couro. — Eu tenho idade pra ser sua avó, garoto. Juízo nessa sua cabeça oca, que essas suas "artes" ainda vão te dar trabalho. — É pra isso que eu pago bem, tia. Pra senhora manter meus segredos e não se assustar com o meu estilo de vida — brinquei, me afastando pelo corredor enquanto ouvia ela resmungar algo sobre "jovens perdidos". Ajeitei a pistola na cintura, sentindo o peso familiar do metal contra o corpo. O momento de brincadeira com a Jurema era o único respiro que eu tinha antes de vestir a máscara de novo. Saí da casa e o mormaço da Rocinha já estava batendo no peito. No asfalto, o Senhor Montenegro tinha reuniões de fachada, mas aqui em cima, o Falcão tinha um império para blindar antes da chegada da russa. Saí rindo, fechando a porta atrás de mim. Jurema era a única que via o Falcão por trás da máscara de "Senhor Montenegro". Enquanto ela limpava meus brinquedos proibidos, eu voltei pra mesa, mas o pensamento já estava no porto.
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