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982 Words
Falcão Narrando Saí da boate do meu pai com o sangue fervendo. Não era raiva comum. Não era estresse de negócio. Era aquela irritação que fica presa atrás do olho, latejando, pedindo resposta. Entrei no carro e bati a porta com força demais, ligando o motor antes mesmo de ajeitar o cinto. O volante parecia pequeno na minha mão. Aquela p***a daquele choro não saía da minha cabeça. Eu já tinha ouvido muito choro na vida. Choro de mulher bêbada, choro de briga, choro de raiva, choro de frustração. Já ouvi mulher chorar porque perdeu dinheiro, porque o cliente não voltou, porque deu errado. Mas aquilo ali… aquilo ali era diferente. Era desespero. Não era choro de quem escorregou no banheiro. Não era choro de quem perdeu um dia de trabalho. Aquela garota estava falando rápido demais, embolado demais, como quem tenta explicar algo sem conseguir respirar. E isso não me enganava. Eu não sou o****o. Dirigia pela Barra, o trânsito fluindo fácil, vidro fechado, ar ligado, mas a cabeça longe. A voz dela voltava como um eco. Eu não entendia o que ela dizia, porque não era português. Era outra língua. E isso me incomodava mais ainda. Eu sei que tem mulher estrangeira nas casas do meu pai. Sempre teve. Nunca foi segredo. Mas aquela… aquela parecia perdida demais até pra quem já tá acostumada com esse mundo. Era medo cru. Medo de verdade. Aumentei o volume do som e desliguei logo em seguida. Não adiantava. O choro continuava. — Que p***a tá acontecendo… — murmurei sozinho, apertando o volante. Respirei fundo, peguei o celular e liguei pra única pessoa que poderia responder alguma coisa. Ou fingir muito bem que respondia. Chamou duas vezes. — Oi, Nathan — a voz da Olga veio calma demais. — Aconteceu alguma coisa? — Onde você tá? — perguntei direto. — Trabalhando — respondeu, sem hesitar. — Por quê? Soltei uma risada curta, sem humor. — Fui numa das casas hoje — falei. — Tinha uma moça chorando pra c*****o lá dentro. O que tá acontecendo? Do outro lado da linha, ela riu. Riu. — Nathan… acontece tanta coisa — disse, naquele tom de quem trata tragédia como rotina. — Geralmente elas choram assim quando não conseguem fazer o programa e receber o que querem. Às vezes acontece algum imprevisto, entende? — Que tipo de imprevisto? — perguntei, já sabendo que vinha mentira. — Ah… — ela suspirou, teatral. — Depilação que não saiu como esperado, roupa que não serviu, cliente que desistiu, dorzinha aqui, dorzinha ali. Tem umas que dramatizam demais. Silêncio. Eu engoli seco. — Sei… — falei devagar. — Como se você fosse me contar a verdade mesmo, né? Ela não respondeu de imediato. — Nathan — disse depois — você sabe como esse mundo funciona. Melhor não se envolver com detalhe que não é seu. Ri de novo. Dessa vez, mais amargo. — Tá bom — falei. — Trabalha aí. Desliguei sem esperar resposta. O carro seguia em direção ao morro agora, o cenário mudando aos poucos. Prédio alto virando muro pichado. Luz branca virando amarela. A cidade se transformando enquanto minha cabeça ficava presa no mesmo ponto. Aquela garota não chorava por roupa errada. Ela chorava como quem estava sendo engolida viva. Subi o vidro, acelerei um pouco mais, sentindo o peso familiar da pistola na cintura. Algo estava errado. Muito errado. E, pela primeira vez em muito tempo, eu tive a sensação incômoda de que tinha coisa acontecendo dentro do império do meu pai que nem eu estava autorizado a enxergar. E eu odeio quando escondem coisa de mim. O choro continuava ali, martelando. E eu sabia: aquilo ainda ia dar merda. Cheguei no morro com o corpo fervendo de raiva. Joguei a camisa no banco do carro, tirei o tênis e calcei minha Kenner sem nem pensar. Peguei o celular no painel e disquei o número da minha mãe enquanto subia a viela. — Mãe? — falei, coçando a nuca. — Onde é que a Olga tava esses dias mesmo? Eu esqueci. A voz dela veio doce do outro lado da linha, como sempre: — Na Rússia, meu amor. Até pedi pra ela trazer umas coisinhas pra mim… Por quê? Parei. Travei no meio do caminho, olhando pro alto como se a resposta tivesse sido cuspida do céu. — Nada não… Era só isso mesmo. Te ligo mais tarde — encerrei. Desliguei e encostei o celular devagar na testa, respirando fundo. Na Rússia. Era russo. A garota da boate tava falando russo. — c*****o… — murmurei sozinho. Era isso que ela tava gritando no corredor. Era por isso que eu não entendi nada. Não era espanhol, não era francês, não era sotaque puxado de gringa qualquer. Era russo, p***a. A Olga tinha acabado de voltar de lá. E agora tinha uma garota berrando num idioma que ninguém entendia, se debatendo como se tivesse sendo torturada viva, trancada num quarto escuro. E ela chorava. Chorava de um jeito que não se aprende. Não era frescura. Não era pirraça. Não era cena de drama. Era desespero. Era medo puro. E eu, que já vi muita mulher chorando na vida, sabia reconhecer quando o choro era de verdade. Levei a mão à boca, esfreguei o rosto inteiro e me encostei num portão, ainda com o celular na mão. Comecei a cruzar tudo na cabeça, uma peça por vez, igual quando o Falcão Velho me ensinava a desmontar pistola no escuro. A Olga sumida por semanas. A garota gritando em russo. A boate com mulher nova, diferente e ninguém sabendo explicar quem ela era. E aquele choro. Aquele maldito choro. — Que p***a tá acontecendo, Olga? — falei baixo, encarando o asfalto. O problema é que eu sabia exatamente o que tava acontecendo. Só não queria admitir. Mas já era tarde demais pra fingir que não vi. A merda já tava feita.
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