E quando a maré finalmente baixou, a onda a havia deixado na clínica.
— Não precisa ofender — repreendeu a terapeuta.
Será que não?, pensou Sabrina.
Precisava se ver livre daquele lugar.
Estava ali havia duas semanas, mas pareciam dois anos. Os dias começavam bem cedo, com comida saudável e insossa em todas as refeições e pacientes chatos que só olhavam para o próprio umbigo. Todo o fingimento de emoções nas sessões de terapia, os sentimentos constrangedores sendo compartilhados, as malditas mãos dadas. Tudo aquilo fazia com que Sabrina tivesse vontade de vomitar. Reabilitação era um tremendo clichê. E, segundo Ed Steiner, ela ainda tinha de ficar mais seis semanas.
Agora, dando as costas para a janela, Sabrina fitou o empresário de forma desafiadora.
— Não vou trabalhar de graça, Ed — anunciou sem rodeios. — Nem em um milhão de anos.
Ed Steiner suspirou. Estava acostumado com atrizes mimadas e ingratas, mas Sabrina Leon superava todas. Ela devia estar de joelhos, beijando sua mão em agradecimento. Ali estava ele lhe oferecendo o papel da sua vida — não apenas uma protagonista, mas a protagonista do remake, dirigido por Dorian Rasmirez, de O Morro dos Ventos Uivantes — num momento em que ela não conseguiria ser escalada nem para um comercial de Doritos. E ela estava implicando porque Rasmirez não ia pagar pelo trabalho. Por que ele pagaria? Dorian Rasmirez não precisa de você, sua vaquinha burra. Você precisa dele. Acorde para a vida.
— Vai, sim — disse ele com firmeza. — Aceitei em seu nome hoje de manhã.
— Bem, é só você “desaceitar”! — gritou Sabrina. — Eu decido os papéis que faço, Ed. É a minha vida. Eu estou no controle.
— Na verdade, de acordo com o documento que você assinou quando entrou no programa de oito semanas da clínica, eu estou no controle. Pelo menos no que diz respeito às decisões de carreira e negócios. — Ele entregou um papel a ela. Sabrina correu os olhos pelo documento, amassou-o e jogou-o no chão.
— E eu estou fazendo um bom trabalho — disse Ed, sem levar em conta o showzinho infantil da garota. — Não vamos discutir isso de novo, ok, Sabrina? É um saco e não leva a lugar nenhum, e você sabe que não vai me convencer. Sabe tão bem quanto eu que precisa desse papel. Você precisa. Neste momento, nenhum outro diretor de Hollywood colocaria a mão no fogo por você. Sente-se.
Sabrina hesitou. Vestindo uma calça jeans e blusa azul-marinho de manga comprida Michael Stars, sem maquiagem e com o cabelo preso em um r**o de cavalo, ela estava mil vezes mais bonita que da última vez que Ed a vira. Mais saudável também, menos esquelética e com o brilho restaurado em sua pele naturalmente morena. Este lugar está servindo para alguma coisa, pensou ele. Ela só precisa perder a pose.
— Sente-se — repetiu ele.
Sabrina obedeceu.
— Dorian Rasmirez teve lá seus problemas — continuou ele —, mas ainda é um nome de peso, e este filme vai ser incrível.
Ela amoleceu um pouco.
— Quando começam as filmagens?
— Provavelmente em maio. Ou junho. Ainda estão procurando locações.
— Locações? — Sabrina fez uma careta petulante. Filmagens em locação significavam meses longe de Los Angeles, das boates, das festas e de toda a agitação em que ela era viciada. — Qual é o problema com os estúdios da Universal?
— Problema nenhum — disse Ed, sendo sarcástico —, exceto que o filme não é da Universal. E é O Morro dos Ventos Uivantes.
Sabrina o fitou sem expressão. Nunca tinha ligado para literatura.
— O Morro dos Ventos Uivantes? Um dos maiores clássicos de todos os tempos? Cathy e Heathcliff? Que se passa num vasto pântano cortado pelos ventos? — Ed balançou a cabeça, desesperado. — Não importa. O ponto aqui é que será bom pra você passar um tempo longe de Los Angeles. Longe da vista do público, na verdade. Nós divulgamos seu pedido de desculpas no dia seguinte à sua entrada aqui, o que deve ter ajudado um pouco. Provavelmente divulgaremos outro antes de você sair. Mas ainda está tudo um caos lá fora. Você precisa desaparecer, e precisa trabalhar. Volte daqui a um ano, saudável e feliz e com um filme de sucesso na manga...
— Um ano! — interrompeu Sabrina. — Você ficou louco?
Ficar longe das festas de Los Angeles já era r**m. Mas a ideia de ficar afastada da mídia por tanto tempo — não sendo fotografada e não vendo seu rosto nas revistas — fez o coração de Sabrina acelerar de pânico. Era o mesmo que dizer a ela que não poderia respirar ou comer. Sem atenção, ela iria definhar e morrer, como um girassol trancafiado num porão.
Ignorando-a, Ed Steiner continuou.
— Estou sabendo que uma parte das filmagens vai acontecer na Romênia, no solar de Dorian Rasmirez. Falaram que vale a pena conferir o lugar — acrescentou ele, tentando adotar um tom de voz mais leve. — Ah, e eu não contei a melhor parte. Ainda não está cem por cento confirmado, mas parece que Viorel Hudson fará Heathcliff.
Sabrina revirou os olhos. Essa era a melhor parte? Qual seria a pior? Eles filmariam pelados na Sibéria? A única coisa boa na oferta de Dorian Rasmirez era que seria o veículo para conduzi-la de volta ao time das grandes estrelas. Se Viorel Hudson realmente estivesse envolvido, ela teria de lutar para que seu nome viesse na frente do dele nos créditos, e talvez pelo espelho do camarim também. Os boatos diziam que a vaidade dele era inimaginável: Viorel Hudson era provavelmente o único homem em Hollywood cujo s*x appeal e arrogância estavam aos pés dos da própria Sabrina.
Eles não se conheciam, mas o instinto de Sabrina lhe dizia que ela iria odiar Viorel Hudson.
Ed Steiner olhou para o relógio.
— É melhor eu ir. Tenho uma reunião no Roosevelt em uma hora.
Isso, esfrega na cara mesmo, pensou Sabrina com amargor. Eu tenho uma reunião com um bando de alcoólatras chorões e uma curandeira espiritual riponga cujo último neurônio morreu em 1972.
— Vou mandar um motoboy trazer o roteiro amanhã, para você ter alguma coisa para fazer entre as sessões. A propósito, como está indo? O lugar está lhe ajudando de alguma forma? Sabrina abriu um sorriso meigo. — Vá se f***r, Ed.
Naquela noite, fitando o teto, deitada na cama de solteiro dura e desconfortável, Sabrina se encolheu e fez uma oração silenciosa de agradecimento.
Bancara a durona com Ed, assim como fazia com todo mundo. Mas sabia que a oferta de Rasmirez era um milagre. Dorian Rasmirez era um dos diretores mais respeitados de Hollywood. Atrizes fariam fila para conseguir o papel de Cathy. Atrizes que não estavam sendo injustamente acusadas de racismo. Mas, por algum motivo, Rasmirez a escolhera.
Destino, pensou ela. Eu nasci para ter sucesso. É o meu destino.
Agora Sabrina só precisava desempenhar o papel da sua vida. E ofuscar o presunçoso Viorel Hudson. Mas isso não deve ser tão difícil, tranquilizou-se. E se todo o resto desse errado, ainda podia seduzi-lo. Quando Sabrina Leon dormia com um homem, seu poder sobre ele passava a ser total.
Hollywood podia tê-la chutado. Mas Hollywood estava errada.
Sabrina Leon estava voltando.
— Ah, isso, Vio! Não para! Por favor! Ai... Nossa!
Viorel Hudson não tinha a menor intenção de parar. A garota deitada embaixo dele com as penas escancaradas no sofá rosa claro do bangalô exclusivo do Château Marmont era Rose Da Luca, atualmente a modelo mais bem-paga dos Estados Unidos e número um da lista de “transa dos sonhos” da maioria dos homens. Diferente de outras garotas deslumbrantes como ela, Rose também era boa de cama: por baixo da superfície recatada, era uma louca fogosa e aventureira. Na verdade, era mais que aventureira, pensou Viorel satisfeito ao sentir o dedo indicador dela circundando seu ânus. Ela é devassa. Acho que estou me apaixonando.
Colocando Rose de joelhos — se ela continuasse com o dedo ali ele gozaria na hora —, Viorel a penetrou por trás, diminuindo o ritmo até senti-la se contorcer em uma deliciosa e agonizante frustração. Vendo suas costas arqueadas e os famosos cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro como uma aura, a familiar sensação de triunfo tomou conta dele. Era a mesma sensação que tinha sempre que ia para a cama com uma mulher que desejava, ou quando conseguia um papel que sabia ser cobiçado por inúmeros outros atores. Para Viorel, a competição sempre aguçava o prazer de qualquer experiência. Atuar era divertido. Sexo era ainda melhor. Mas vencer... era o melhor de tudo.
Conquistar Rose foi o triunfo derradeiro no que fora um dia particularmente triunfante. Ele não apenas assinara o contrato para interpretar o papel de Heathcliff no remake de O Morro dos Ventos Uivantes, o que significava que trabalharia com um de seus ídolos, Dorian Rasmirez; mas também, para sua surpresa (e espanto de seu empresário), Rasmirez lhe ofereceu 5,5 milhões de dólares pelo privilégio. Cinco milhões era um número mágico em Hollywood, o número que separava atores de sucesso dos verdadeiros astros do cinema. Era uma fronteira que, uma vez atravessada, praticamente lhe garantia um lugar no panteão dos grandes. Até seu primeiro grande fracasso de bilheteria, claro, em cuja ocasião você poderia escorregar de volta aos 2 milhões, ou a cifras ainda menores. Para Viorel Hudson, porém, era uma situação em que todos tinham a ganhar. Apesar de sua ótima imagem pública (no ano anterior ele fora eleito o Homem Mais Sexy do Mundo, um reconhecimento que ele alegava deixá-lo constrangido, mas do qual secretamente se orgulhava), Viorel nunca havia ganhado mais do que 1 milhão de dólares por um filme. Isso era porque ele escolhera cuidadosamente projetos com mérito artístico em vez de blockbusters com orçamentos multimilionários. Como resultado, era respeitado por muitos de seus colegas como um ator íntegro, um ator de verdade: comedido, profissional, dedicado à sua arte.
No entanto, nada podia estar mais longe da verdade. Embora Viorel de fato preferisse trabalhar com roteiros bons em vez de ruins — quem não preferia? —, sua aparentemente eclética escolha de papéis era parte de uma estratégia cuidadosamente planejada, com o objetivo de tornar Viorel Hudson o mais rico e famoso possível, e o mais rápido. Ao talhar um nicho e um nome para si no circuito independente (naquele ano, já estrelara dois vencedores do Sundance e um segundo lugar em Veneza) e ao mesmo tempo pedir para seu agente vender sua imagem como a de um s*x symbol popular, a intenção de Viorel sempre fora pegar um atalho para os grandes filmes comerciais. Com isso ele ultrapassou seus rivais muito mais rápido do que ele mesmo poderia esperar se tivesse aceitado papéis em vários filmes bem-sucedidos, mas pouco memoráveis. Mas nem em seus sonhos mais loucos Viorel imaginara que assinaria um contrato daquele porte em menos de três ou quatro anos. E ainda por cima num filme do Rasmirez! Poder combinar o cachê que tanto ansiava com um trabalho genuinamente de boa qualidade, do qual gostava, era, com certeza, a cereja do bolo. Teria aceitado o papel por 1 milhão, talvez até menos. Rasmirez devia estar realmente muito firme em sua decisão de escalar Viorel para ter oferecido tanto apesar de todos os problemas. Ou isso, ou ele era um gay enrustido com esperanças de conquistar Viorel; o que era pouco provável, dada a reputação de Dorian como o homem casado mais feliz desde Barack Obama.
O corpo perfeito de Rose Da Luca estremecia enquanto ela finalmente atingia o clímax, seus músculos firmes se contraindo em volta do pênis de Viorel.
— Isso, isso... — sussurrou ele, gemendo baixinho e explodindo dentro dela no que, sem a menor sombra de dúvidas, era o melhor e mais prazeroso orgasmo daquele ano. Se aqueles imbecis que estudavam comigo pudessem me ver agora, pensou ele satisfeito, saboreando o momento, sabendo que naquele instante todos os seus algozes da infância dariam a alma para trocar de lugar com ele.
Sim, hoje a coisa se tornara oficial. Viorel Hudson era um vencedor.