01
— Não estou pedindo, Sabrina, estou mandando. Você tem que aceitar este papel.
Sabrina Leon fitou seu empresário com claro desdém. Ed Steiner era gordo, careca e estava longe da sua melhor forma (se é que já estivera em forma algum dia). A calça de um terno cinza barato e a camisa branca com manchas de suor embaixo dos braços faziam com que ele mais parecesse um vendedor de carros usados do que um empresário de Hollywood. Ele também possuía uma postura irritante, autoritária. Sabrina não “tinha” de fazer nada. Eu sou a p***a da estrela aqui, pensou ela, de maneira desafiadora. Eu fui a protagonista de três filmes da série Destroyers. Três! Destroyers, a franquia de ação mais bem-sucedida de todos os tempos. Você trabalha para mim, lembra?
Ignorando Ed, Sabrina ficou de pé e atravessou o quarto até a janela. Do lado de fora, um florido jardim privativo explodia em cores e aromas. Flores de gengibre de cor laranja abriam espaço entre as mais tradicionais rosas brancas e amarelas, e laranjeiras e limoeiros esbanjavam frutas sob o perfeito céu sem nuvens da Califórnia. E também havia a vista. A casa fora construída no topo de um desfiladeiro íngreme; assim, mesmo do térreo, a paisagem era espetacular: logo à frente, os telhados das mansões de Malibu, o lar de algumas das maiores e mais ricas estrelas de Hollywood, e mais além o infinito e brilhante azul do Oceano Pacífico. Não fossem os móveis de aparência hospitalar em todos os quartos — camas de metal brancas e cadeiras desconfortáveis com espaldar duro —, era quase possível imaginar que se estava em uma suíte do Four Seasons, e não trancado como um prisioneiro na Revivals — a famosa clínica de reabilitação para os jovens de Hollywood, cuja diária custava 2 mil dólares.
Ed Steiner forçara Sabrina Leon a se internar na Revivals. Duas semanas antes, Ed fora à mansão de sua cliente em Benedict Canyon às oito da manhã, arrumara uma bolsa de viagem enquanto ela observava, e a arrastara até sua nova Mercedes E-Class conversível novinha em folha.
— Isto é ridículo, Ed — protestara ela. Ainda com as roupas que usara para ir à festa na noite anterior, um minivestido de couro preto Dolce & Gabbana, saltos muito altos Jonathan Kelsey e maquiagem carregada nos olhos borrada, Sabrina parecia ainda mais desejável e megera que as caricaturas que os tabloides vinham publicando dela e que estavam destruindo sua carreira. — Não sou viciada. Não tem nada de errado comigo.
— Amadureça, Sabrina — respondera Ed Steiner. — Isso não tem a ver com você. Tem a ver com a sua carreira. Sua imagem. Ou pelo menos o que sobrou dela. Quantos paparazzi viram você sair cambaleando da Bardot ontem à noite assim?
— Assim como? — Sabrina se enfureceu, estreitando os olhos amendoados como um gato prestes a atacar. — Sensual? É disso que está falando? Achei que ser sensual fosse parte do meu trabalho.
Ed conteve a vontade de estapear o rosto adoravelmente sedutor de sua mimada cliente. No auge dos seus 22 anos, Sabrina sabia muito bem que não deveria ter ido àquela boate na noite anterior, ou a qualquer outra. Podia ser tola e imprudente, mas não era burra. Ele ligou o carro.
— Neste momento, seu trabalho é parecer arrependida — disse ele, irritado. — Você sente muito pelo seu comportamento e pelo que disse a Tarik Tyler, está cuidando de seus problemas e pede privacidade enquanto se recupera desse período difícil, blá-blá-blá. Você conhece o jogo tão bem quanto eu, garota, então pare de bancar a i****a, ok? — Ele olhou para o banco do carona. — Que merda é essa?
No bolso externo da bolsa que ele arrumara para ela, a ponta de uma garrafa estava claramente visível. Puxando-a para fora, Ed Steiner se viu segurando uma garrafa de Jack Daniel’s pela metade. Sabrina nem tentou se desculpar.
— Me ajuda a dormir.
— Você acha isso engraçado?
— Ah, fala sério, Ed. Dá um tempo. Reabilitação é um saco. Não vou sobreviver a isso sem um drinque.
— Está achando que é a Marianne Faithfull ou alguém do tipo? — Para consternação de Sabrina, Ed jogou a garrafa em um canteiro de alecrim que margeava a entrada para carros da casa. — Você acha que as pessoas vão perdoar essas merdas porque é rock and roll? Bem, deixe-me dizer uma coisa, Sabrina: não vão. Não desta vez. Falta isto aqui para você estar acabada nesta cidade. — Ele mostrou o indicador e o polegar, um bem próximo ao outro, e levantou até bem perto do rosto de Sabrina. — Isto aqui. Agora coloque o cinto de segurança.
Sabrina bocejou desafiadoramente, mas colocou o cinto mesmo assim, pondo os óculos estilo aviador da Oliver Peoples para proteger os olhos do brilho do sol da manhã. Por fora, ela continuava bancando a rebelde — era só o que sabia fazer. Por dentro, porém, sentiu um aperto no estômago, uma combinação do consumo exagerado de álcool com o estômago vazio da noite anterior e um medo visceral, que lhe corroía por dentro.
E se Ed estivesse certo?
E se realmente perdesse tudo?
Não. Eu não posso deixar isso acontecer. Se tiver de voltar para a minha vida de antes, eu me mato.
Todos nos Estados Unidos conheciam a trajetória do lixo ao luxo de Sabrina Leon, A Verdadeira História de Hollywood. Menina sem-teto de Fresno sai da obscuridade ao ser descoberta pelo famoso produtor de Hollywood Tarik Tyler, torna-se uma superestrela graças ao papel de protagonista nos filmes Destroyers de Tyler e sai dos trilhos.
Bocejos.
Ninguém estava mais de saco cheio do passado de Sabrina do que a própria Sabrina, e ela fazia questão de deixar isso bem claro nas sessões de terapia em grupo da Revivals.
— Oi, eu sou Amy. — Uma mulher tímida de meia-idade, usando uma pesada blusa de tricô, se apresentou. — Estou aqui porque sou viciada em álcool e metanfetamina. Prometo respeitar o grupo e manter tudo em sigilo.
— Sou John. Estou aqui porque sou viciado em cocaína. Prometo respeitar o grupo e manter tudo em sigilo.
— Oi, eu sou Lisa. Estou aqui porque sou alcoólatra. Prometo respeitar o grupo e manter tudo em sigilo.
Agora era a vez de Sabrina.
— O quê? — Ela olhou à sua volta, como se acusasse todo mundo. — Ah, até parece. Todos vocês sabem quem eu sou.
— Mesmo assim — disse a terapeuta gentilmente —, gostaríamos que você se apresentasse ao grupo. Como uma pessoa.
— Ah, “como uma pessoa” — repetiu Sabrina, sendo sarcástica. — E qual seria a alternativa?
Como um cachorro?
Ninguém riu.
— Meu Deus, tudo bem. Sou Sabrina. Estou aqui porque meu empresário é um babaca.
Satisfeitos?
As coisas pioraram na hora em que os pacientes deviam falar sobre suas infâncias. Sabrina suspirou com petulância.
— Papai era drogado; mamãe, prostituta e o orfanato era uma merda. Próxima pergunta.
— Tenho certeza de que você tem mais para nos contar do que isso — sondou a terapeuta.
— Ah, claro. Tinha os idiotas que tentavam me estuprar — disse Sabrina. — Dos 12 aos 15 anos, vivi nas ruas. Coitadinha de mim, né? Errado, eu não era nenhuma coitadinha, porque entrei para o teatro e deixei as ruas. Deixei porque tenho talento. Porque sou diferente. Porque sou melhor.
Aquela foi a primeira vez que Sabrina expressou alguma emoção real na sessão. A terapeuta considerou isso positivo e ficou satisfeita.
— Melhor que quem? — perguntou ela.
— Melhor que você, madame. E melhor que esse bando de viciados. Não posso acreditar que vocês realmente quiseram participar dessa merda de programa por livre e espontânea vontade.
Todo mundo sabia que Sabrina Leon não estava na Revivals por vontade própria. Que seu empresário, Ed Steiner, conseguira uma intervenção como uma última tentativa de salvar a carreira dela.
Ao sair cambaleando de uma boate em Hollywood algumas semanas antes, com resquícios visíveis de pó branco embaixo de seu nariz perfeito, Sabrina desdenhou de Tarik Tyler, o produtor que a descobriu e fez dela uma estrela, chamando-o de “motorista escravo”. Tarik, que era n***o e cuja bisavó tinha sido escrava, ficou ofendido, assim como todo mundo na indústria do cinema, que exigiu que Sabrina se desculpasse. Ela se recusou, e um escândalo no melhor estilo Mel Gibson entrou em erupção, com injúrias se espalhando pela blogosfera como lava. O programa Access Hollywood apresentou o desentendimento de Sabrina com Tyler como tema principal, dedicando três quartos da edição noturna para mostrar a reação das celebridades à ingratidão de Sabrina, todas elas convenientemente enojadas e horrorizadas. Até mesmo Harry Greene, famoso produtor da bem-sucedida franquia Fraternidade, que vivia recluso, emergiu de sua prisão domiciliar voluntária para dizer que Sabrina Leon era “uma pirralha m*l-agradecida e racista”. Em uma única noite infeliz, a onda de afeto do público que levara Sabrina Leon ao sucesso — o país adorava uma boa história de ascensão social e Sabrina era um caso perfeito de menina pobre que se deu bem na vida — transformou-se de maneira tão súbita, violenta e absoluta que era como se sua carreira tivesse sido arrastada por um tsunami.