O dia amanheceu e como de costume, Canora levantou cedo, fez café e levou na cama para seus pais (era a forma dela demonstrar amor e carinho entre eles), se vestiu e foi para a escola.
Ela pediu ao seu irmão menor para a esperar pois, como sempre, ela tinha medo de seguir cedo e sozinha pela rua até o ponto onde a Topic os pegava.
Ela se arrumava linda e discretamente. Ela tinha vergonha de chamar atenção, mas uma parte dela queria que alguém a achasse interessante. Porém, como sintoma do m*l que os abusos lhe causavam, Canora não sabia se portar de forma natural perto de algum rapaz. Ela ficava tensa, tímida e sem saber como agir.
Mais uma vez Talita tentou agir como cupido e tentou aproximar canora de um rapaz de nome Walace que estudava na mesma sala que elas.
- Canora, ele quer ficar com você!
- Eu tenho medo.
- Medo de quê?
- Sei lá, eu não sinto nada por ele, não sei como agir e também não quero desapontar meus pais. Eles confiam em mim.
- Mas é normal uma moça de 17 anos dar uns beijinhos por aí.
- Pra mim não é tão natural. - Digo cabisbaixa.
Walace começou a se aproximar apesar de Canora ter certeza de que tinha dedo de Talita. Ela ficava com meninos todos os dias e Canora não achava correto.
Os dias se passavam e Walace sempre arrumava uma forma de falar ao menos uma frase com Canora. Ele até passou a se sentar próximo a ela, pedindo ajuda nas atividades, pegando material emprestado, etc.
NARRADO POR CANORA
Na hora da saída, fui acompanhar minha colega Talita até a casa de uma amiga dela, para ela entregar algo e quando entramos na porta de acesso do edifício, ela disse que Walace estava vindo e queria conversar comigo. Fiquei apavorada e acredito que dava para ver meu coração bater a toda velocidade.
Logo em seguida Walace chegou e então minha colega se retirou para fazer a tal entrega dela, que eu já tinha quase certeza absoluta que era mentira.
Walace me cumprimentou. Disse que havia falado com Talita sobre mim (que a final também era colega dele) e que ele tinha vontade de ficar comigo. Abaixei a cabeça com vergonha e então, ele me conduziu para nos sentarmos nas escadas do prédio. Mesmo totalmente sem graça, conversamos amenidades e então, me levantei falando:
- Ela está demorando. Acho que vou chamá-la.
- Espere Canora. - Então ele se levantou ficando de frente para mim e se aproximando. Ele passou a mão direita por baixo de meus cabelos, em minha nuca e me olhando nos olhos me beijou nos lábios. Eu fechei os olhos e aproveitei o beijo. Acho que ele percebeu o quanto eu tremia, mas foi educado e não comentou nada.
Quando separamos nossos lábios, eu ainda não sabia o que fazer, não sabia nem o que pensar. O beijo dele foi diferente do Gerson, tinha um gosto diferente e eu queria sair dalí logo. Realmente eu não sabia fazer as coisas escondida. Eu tinha muito medo e no fim das contas, até acho melhor eu ter medo do que é errado, assim não me prejudico.
E como que se adivinhasse, minha colega Tânia chegou novamente. E só de nos olhar ela já sabia que tinha rolado um beijo. Nos despedimos dele e Talita me acompanhou até onde eu iria pegar a Topic de volta para casa.
No dia seguinte, logo que cheguei na sala de aula, Walace olhou com um sorriso que achei legal pois, me fez se sentir normal e então minha colega veio até mim e disse baixo:
- Ele quer se encontrar lá na escada do prédio novamente hoje após a saída.
- Não posso. Tenho medo de meus pais descobrirem. Você sabe disso Talita.
- Deixa de ser boba Canora. vai lá. Eu vou com você.
E assim fizemos. Mesmo eu morrendo de medo dele e de todos no universo. Talita me acompanhou e assim que ele chegou, ela se retirou nos deixando a sós.
Nos encontramos durante toda a semana após a aula.
Ele queria me ver no domingo, na praça da cidade. Combinei que iria de moto.
Estava ansiosa por domingo e até comentei com meu irmão. Eu sempre contava tudo pra ele.
- O Wallace quer se encontrar comigo na pracinha hoje. Eu combinei que iria com a moto para nos encontrarmos lá para conversarmos um pouco.
- Vai sim. Você tem que parar de ter vergonha.
- Você acha que é fácil pra mim? Papai sempre fala que ainda não me deixa namorar. Se ele ver eu conversando com alguém, não sei qual seria a reação dele.
Achava que derrepente seria o namorado que pedi a Deus. Ele era educado, trabalhador e não costumava faltar as aulas, mas tinha uma ex namorada na nossa escola.
Então, o medo falou mais alto e eu não fui encontrá-lo no domingo
Ao chegar na escola na segunda, minha colega Talita veio me dizer que a ex namorada dele havia pedido ele em namoro novamente, no meio da quadra e ele não aceitou.
- Ela descobriu sobre vocês. Ela disse que você não pode ficar com ele e se ela souber vai te pegar.
- Ótimo, tudo que eu não queria. PROBLEMA! – Retruquei.
- Já chega! Fale com ele que não quero mais nada. Pra ele voltar pra ela que eu não me importo. Meu pai nunca me deixaria namorar mesmo. - Afirmei conformada. Eu não sentia nada por ele e isso tudo poderia ser um sinal de Deus. A cada dia que se passava eu conversava mais com Ele em meu quarto e sei que a cada conversa eu me sentia melhor e mais forte diante de tudo que eu passava.
Mais uma vez, caí no caminho para casa, ao voltar da escola. Meu primo estava numa esquina escondido, mostrando seu m****o para mim. Como sempre fico com medo dele me agarrar, corri o que eu pude e acabei caindo e machucando meus joelhos. O sangue escorria. Ainda não tinha sarado o joelho da última queda que tive a dias atrás correndo da mesma situação.
- Caiu de novo Canora? Tem que tomar cuidado e parar de correr menina. Parece doida. – Disse minha mãe.
Eu apenas ouvi e não disse nada. Fui direto para o banheiro lavar meus joelhos e segui para meu quarto para passar remédio sobre os ferimentos, trocar de roupa e chorar.
- Senhor, eu sei que está aqui e vê o meu sofrimento. Me ajude! Faça tudo isso parar. Ou me leva embora pro céu. Mais uma vez de joelhos, mesmo feridos, conversei e desabafei com Deus.
- Pai, eu acho que realmente não fui feita para namorar e casar e tudo que envolve isso. Por favor, que ninguém da minha família descubra sobre o Walace. Eu tenho medo do que irão fazer comigo. Se for para mim namorar e casar, e tal, me envie a pessoa certa que será para o resto da vida. E que eu não tenha que falar nada com meu pai sobre estar apaixonada por alguém e ter que pedir para namorar. Que ele venha e me diga que já posso namorar com alguém, por favor!
***
Canora tinha uma criação rígida por parte dos pais dela. E toda essa situação de a***o lhe causava ainda mais medo.
Ao fim da tarde, quando ela foi tomar banho, alguém bateu na porta de sua casa e, atenta a tudo, mesmo de dentro do banheiro, que ficava ao lado da cozinha, ela percebeu que era o irmão de seu pai, vizinho deles. Ele havia ido pegar as roupas que sua mãe lavou e passou para ele. Então, ele aproveitou para tentar espiar o banho de Canora. Ele estava tentando espiar ela como de costume, pelo buraco da trança da porta e pelo caminho da tomada que ainda não havia sido instalada. Canora, se escondeu num canto do banheiro para ele não a ver. Ela tinha nojo dele e não podia imaginar ele a olhando ali. Ela já tinha visto ele a observando pelo mesmo “buraco” de passagem da tomada. E quando ela viu saiu correndo para se esconder num canto.
Ela nunca havia parado para pensar quantas vezes ele se masturbava pensando nela.
A semana se passava e na sexta feira, ao voltar da escola, mais uma surpresa triste para Canora. Seu primo a esperava novamente numa esquema, com o pênis na mão, a mostra para Canora. Ela baixou a cabeça para não ver e saiu correndo. Foi quando ela torceu o pé e caiu de joelhos no chão, esfolando-os, mais uma vez. Ela rapidamente se levantou e ao chegar em casa, sua mãe deu esporro pois, mais uma vez ela havia caído e machucado os joelhos. Eles estavam ardendo e sangrando. Seus joelhos doíam muito mas, o que mais doía era seu coração. As lágrimas não eram de dor pelos joelhos machucados mas sim, pela dor no coração e na alma. Quando isso tudo iria acabar?
No fim da tarde, Canora foi cuidar de irrigar as margaridas no jardim dos fundos, conforme sua mãe ordenou. Derrepente ela ouviu o assovio como se fosse passarinho. Ela já sabia do que se tratava, mas o seu tio continuava por lá. Quando o barulho dos assovios havia acabado, após algum tempo, Canora se virou para cuidar do outro lado do canteiro de margaridas e como que para defender, olhou por todos os lados para conferir se estava segura. Foi quando ela viu seu tio com as calças baixas e com o pênis em mão, se masturbando olhando para ela. Ela se virou de costas novamente e chorou copiosamente, desejando morrer pois ela acreditava que nada disso iria acabar. Ninguém percebia o que ela passava. Ninguém poderia a ajudar. Ela tratava a todos com carinho e gentileza mesmo que a vontade dela fosse de rebater, nunca faltou com a educação em nenhum momento e ela pensava que mesmo assim ninguém a respeitava. Ela sempre tinha que viver conforme as ordens dos outros.
Ela acreditava que nada disso acabaria. Desde muito pequena ela vivia nessa luta diária e ela já tinha 17 anos e nada melhorava.
O choro queimava seu coração. Suas pernas não tinham força e Canora sonhava com a sua morte.
Durante a noite, enquanto dormia Canora teve um sonho. Nele ela se via feliz namorando um rapaz loiro que a amava muito. No sonho era como se tudo fosse um recomeço.
Quando ela acordou pela manhã, para ir à escola, estava se sentindo mais forte e acreditando nesse recomeço. Ela sabia que podia e deveria confiar em Deus. E assim ela fez.