04 Scarlett

2329 Words
Abri a porta de casa(a casa da Brity), caminhei até a geladeira e peguei o maior pote de sorvete que encontrei. Quando estamos tristes, temos dois tipos de reações mais comuns: 1 - Fingir que não nos abalou e ficamos oprimindo nossos sentimentos e emoções como algo fútil. 2 - Nos jogamos por completo para a tristeza e agimos como se essa dor nunca fosse acabar. As vezes tudo o que precisamos é seguir o propósito da terceira forma de reagir. 3 - Chorar como se quisesse inundar sua casa, e em seguida sofrer tudo o que tem para sofrer e só depois se dedicar a si mesma. Temos a mania de oprimir nossos sentimentos e nisso acabamos deixando de fazer nossas obrigações com vontade, e isso nos afeta. Quando sofremos tudo o que temos para sofrer, não se tem mais motivos para sofrer, dalí em diante é só viver como se não existisse um amanhã e sim como se existisse só o hoje. — Acho que preciso voltar a viver como você falou. — Falei para Britiney quando cheguei em seu quarto com o pote de sorvete e duas colheres. — Sério? — Ela parecia feliz por mim. — Você não pode se deixar contaminar com a sua própria tristeza, você já sofreu o suficiente. Agora vá aproveitar a vida. Eu sorri. Não sei o que dizer, eu apenas sinto como se a vida inteira eu tivesse me privado do que eu realmente queria viver e só agora eu tomei coragem para enfrentar, encarar e realizar minhas vontades. Eu quero viver, e viver para mim significa que eu quero aproveitar coisas que eu não tinha me dado ao luxo ainda. — Você se importa se eu... — Procurei as palavras. — Se eu não quiser que você esteja comigo? — Questionei exitando um pouco. — O que? Como assim? — Britiney me encarou com uma expressão que eu não consegui decifrar do que se tratava, decepção? Raiva? Medo? Tristeza? Ou surpresa? — Eu quero viajar sozinha, Britiney. — Falei de uma única vez, porque talvez assim retirasse de vez esse peso das minhas costas. — É sério? — Britiney me encarou meio travada. Eu assenti. Ela encarou algum ponto fixo do quarto e depois olhou de volta para mim. — Isso é ótimo. — Falou quase em um sussurro. — Só fiquei com um pouco de ciúmes. Eu ri e a abracei em seguida. Tomamos quase todo o sorvete juntas e quando tento pegar só mais uma colher me surpreendo porque não tem mais. — A sensibilidade dos meus dentes é uma merda. — Britiney reclama enquanto toca seus dentes com o dedo fazendo uma expressão de dor. — Mas que merda! Está doendo. — No dia em que fui naquele maldito museu, eu nem queria ir. — Falei aleatoriamente. — Você acha que esse dia foi um grande efeito borboleta? — Britiney questionou. — Eu honestamente não sei, mas não tem importância agora. — Quando você pretende viajar? — Britiney deitou de bruços e apoiou o queixo nas mãos. — Acho que próxima semana. Não tem nenhum evento para a próxima semana, tem? — Não. Só para esta. — A entrevista com o elenco do filme, não é? — Questionei. — Humhum. A parte legal de ser um artista cancelado, é que você é um artista cancelado. Não preciso ter medo de errar alguma coisa no palco, porque todas as expectativas que as pessoas tinhas em mim antes, agora não existem mais. Não importa o quanto eu transforme minha carreira em uma das maiores sensações da mídia, eu vou sempre ser a interesseira que mentiu sobre ser casada em seus poucos dias de fama. — Lembre-se de agir como uma artista comum. — Britiney me encorajava enquanto fazia alguns retoques na minha maquiagem. Pelo ângulo, olho para Britiney mais alta que eu e noto o seu rosto com apenas um pouco de base e seus olhos e dentes muito bem destacados por causa da sua pele escura. — O que foi? — Ela questionou. — Nada. Só estou nervosa. — Oh, meu amor. — Brity abraçou minha cabeça. — Não precisa ficar assim, as pessoas logo irão esquecer. Está tudo bem. Ouvimos alguém bater na porta do camarim. — Entra! — Brity gritou e revirou o olhos me fazendo rir. — 5 minutos. — Alguém da produção avisou. — Vai lá. — Britiney me encarou forçando um sorriso. Caminho junto com os outros atores do elenco. Caminho confiante com meus saltos pretos delicados de tiras finas. O salto é tão fininho que fico com receio de pisar em falso e acabar caindo, mas isso não vai acontecer porque treinei bastante para usar saltos assim. A Britiney disse que é muito elegante. Meu cabelo tem duas mechas para trás presas por um laço preto, a Brity deixou duas mechas soltas na frente para que fiquem mais destacadas em meu rosto. Meu vestido tem mangas bufantes cor pérola, compridas até o meu punho e o restante do meu vestido também é preto. Achei ele muito bonito, meu vestido modela e valoriza as curvas do meu corpo porque é mais justo. Ele vai até abaixo dos meus joelhos e possui um grande decote de cada lado, o que expõe metade das minhas coxas. Maioria dessas mulheres aqui, não escolheram suas próprias roupas. Maioria dos programas emprestam roupas para os participantes se apresentarem estilosamente. A Britiney não me permitiu usar essas roupas, ela disse que não são inovadoras e eu gosto disso, porque eu que compro minhas roupas e posso usá-las novamente em outro evento depois. Quando entramos em cena as pessoas da plateia gritavam. Forcei um sorriso gentil e caminhei atrás da Brianna(atriz que interpreta a Kim), caminhamos em sincronia até o enorme sofá. Quando me acomodei naquele sofá, senti como se eu tivesse me sentado em uma bola enorme de algodão. Que macio. Acabei encarando o sofá impressionada e a platéia riu, eu fiquei confusa mas logo sorri para as pessoas. — Boa noite. — Ariela(apresentadora do programa) grita para a platéia para que gritassem de volta. — Boa noite! — A platéia gritou em um grande volume e em sintonia. A Ariela é uma das apresentadoras que eu mais gosto, desde criança. Ela não é chata como as outras pessoas que apresentam um programa. Ela tem uma boa energia que dá vontade de conversar com ela e responder tudo o que ela diz com sinceridade e simpatia. Fora que ela é muito bonita e estilosa, eu amo até a maneira dela de falar e se expressar. — Estamos aqui com o elenco completo de Inocência roubada! — Ariela gritou animada mais uma vez. — Ou quase completo. É óbvio que o programa não chamaria o elenco inteiro, pois são muitos personagens secundários e por isso chamam apenas os principais. Kiria, Kimberly, Asher, Robby, Emily, Dylan, Liam e Emily. — Depois de um momento de conversa, vocês terão um momento apenas de vocês. Vocês vão poder perguntar o que vocês quiserem com o artista que quiserem. — A apresentadora explicou. Britney me avisou que provavelmente maioria das perguntas viriam para mim, então eu já deveria estar preparada psicologicamente e verbalmente também. — Uma pergunta frequente, como foi trabalhar com personagens tão diferenciados? — Bom, foi uma experiência incrível. É muito louco sair da sua própria realidade e viver a vida de outra pessoa totalmente diferente. O Ash é um cara bem diferenciado dos outros personagens principais mais comuns. Na minha opinião, o Ash é um personagem que não seria levado a sério se não fosse um filme. Poxa, o cara leva tudo na brincadeira. — Marco(ator que interpreta Ash) falou primeiro. — Nada diferente de vocês homens, vocês levam tudo na brincadeira. — Brianna comenta e as pessoas gargalham. — Vocês também brigam o tempo inteiro igual no filme? — A apresentadora questiona. — Magina. — Brianna(atriz que interpreta Kim) ironiza. — Eles não saem do personagem, pronto falei. — Jade(Atriz que interpreta Emily) comenta. — São irmãos dentro e fora das telas. — É muito lindo a forma como vocês possuem uma amizade mesmo fora das telas. — Ariela apresentadora do programa fica admirada. É tudo marketing meu amor. — Sobre a Emily, vocês gostam da Emily? — Ariela questiona. — Eu amo ela. — Jade sorri. — Eu não gosto. — Brianna estufa o peito e Jade lhe dá um tapinha. Todos conversam entre si e eu permaneço em silêncio. Não entendo como eles conseguem permanecerem animados apesar de tudo, tudo o que eu sinto agora é vontade de sair correndo e não voltar. Talvez seja porque eles não estão vivendo o mesmo que eu, não é Scarlett? — Scarlett! — Ariela olha para mim. — Você está muito calada, fale um pouco sobre sua personagem. — Ahh... — Procuro as palavras. Respiro fundo e começo a falar. — A Kiria, ela é uma menina que não pode ter sua própria liberdade, não pode nem ao menos mudar a cor do próprio cabelo por causa da mãe. E nisso ela vai para a faculdade em outra cidade com sua melhor amiga misteriosa e descobre coisas sobre essa amiga que vira a própria vida dela de cabeça para baixo e com isso ela acaba indo contra tudo aquilo que o pai e a mãe ensinaram a ela que não era certo. — E sobre o nome do filme? O que você achou? Encarei Ariela e o elenco ao meu lado por uns instantes enquanto pensava no que falar. — Inocência roubada: Segredos do passado. — Repeti para mim mesma. — Inocência roubada, para mim simboliza sobre a Kira que acabou perdendo sua ingenuidade e também o Ash e a Kim que cresceram em um ambiente muito conturbado. Segredos do passado, simboliza o passado dos personagens mesmo, porque a história inteira é baseada ao passado dos personagens e por isso que fica o tempo inteiro voltando ao passado. — Excelente ponto de vista. — Ariela e todos aplaudiram. Depois de uma longa série de perguntas, e depois de Ariela praticamente obrigar todos os atores falar algo: — Se reúnam em uma fila para fazer perguntas aos nossos artistas. — Ariela ordenou e a platéia gritou animada. Encarei o chão enquanto o medo percorria por mim. Sinto minha mão aquecida de repente, olho para baixo e vejo uma mão quente segurar a minha delicadamente. Direciono meu olhar para cima e vejo Marco sorrindo gentilmente para mim, em seguida ele aproxima seus lábios do meu ouvido. — Vai ficar tudo bem, se perguntarem algo desconfortável, apenas não responda. Você não precisa falar sobre algo que te machuca. — Marco sussurrou. Eu o encaro sem entender muito bem ainda. E essa reação repentina? Ele está me tratando assim por marketing ou ele realmente quer me tratar assim? Os olhos dele são bem bonitos, eu diria que são os olhos castanhos mais caprichados que já vi. — Scarlett! — Despertei dos meus pensamentos quando ouvi meu nome sendo pronunciado no microfone. — Uma fã quer fazer a primeira pergunta para você Scarlett. — Ariela explica. — Scarlett, com quantos anos você casou? — A menina questionou. Encarei o chão fixo sem saber como esboçar alguma reação. Olhei para Marco que sorriu reconfortante para mim. — Eu casei com 20. — Forcei um sorriso. — Nossa! Muito jovem! — Ariela respondeu surpresa, ou fingindo estar surpresa. — Próxima pergunta. Não sei identificar se Ariela mudou rapidamente o rumo da conversa por mim ou se foi uma reação automática, mas o que importa é que acabou. No camarim, quando entro está apenas eu. Procuro a roupa que vim até aqui, então escuto a porta se fechar atrás de mim. — Britiney, você viu a minha roupa... — Questionei sem virar para encará-la. — Não, eu não vi não. — Uma voz masculina me interrompeu. Essa voz... É familiar! — Marco!? — O encaro surpresa e um pouco confusa. — O que faz aqui? — Você é muito linda, Scarlett. — Ele se aproxima me fazendo caminhar para trás até minhas costas colidirem com a parede sólida atrás de mim. — Eu gosto de você, e eu sinto que você também sente o mesmo por mim, estou enganado? Eu... Eu não sei. Eu sinto? Eu posso estar confundindo minhas emoções com os da Kira, eu estava vivendo como um personagem. É normal isso acontecer, eu apenas podia estar confundindo minhas emoções com as da Kira, ou o contrário. — Marco. — Pronunciei seu nome como uma forma de resposta na qual eu não sabia qual poderia dar. Eu estava totalmente sem palavras. — Me diga algo. — Marco insistiu. — Não sei o que dizer, eu estou confusa. Marco para de falar e me encara fixamente. Seu olhar intercala entre meus olhos e minha boca. Automaticamente acabo encarando a sua boca também. De repente, a sensação que eu sentia quando estava atuando, eu sinto agora. O próprio Ash está aqui na minha frente próximo de mim e querendo me beijar. Fechos os olhos automaticamente quando ele se aproxima, depois do ar quente em meu rosto tudo o que eu sinto são seus lábios macios beijarem os meus. Marco me prende contra a parede com tanta força que sinto falta de ar. Ele parece desesperado, me beija sem jeito. Sinto seus lábios macios encostarem na minha bochecha e no canto da minha boca. A magia acaba quando ouço a porta se abrir e meu nome ser quase gritado por Britiney. — Britiney! — Respondo assustada. — O que diabos você está fazendo aqui Marco? Você não tem namorada? — Britiney o repreende. Encaro Marco com desdém, raiva, surpresa e confusão, tudo ao mesmo tempo. — O que? — Questiono para mim mesma enquanto Marco se distancia e passa por a porta indo embora. — Scarlett... — Britiney fala meio chorosa como se estivesse procurando uma forma de me repreender. — Ele tem namorada! Merda! Trouxa de novo.
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