Acordei sentindo como se eu não tivesse passado a noite inteirinha acordada ansiosa para a minha viagem. Não dormi quase nada.
Dizem que isso é sintoma de ansiedade, quando acabamos virando a noite inteira sem conseguir dormir porque vamos fazer algo no outro dia. O que é engraçado é que eu estou com sono, mas meu corpo se recusa a descansar.
Levanto da cama e erguendo os braços até o alto como uma forma de me espreguiçar, segui para a cozinha. De manhã cedinho geralmente a Brity nunca está aqui, ela acorda um pouco mais tarde. Mas também, o que eu queria? Devem ser 4 da manhã.
Esquentei um copo de leite e o tomei admirando o pôr do sol pela janela. E se eu nunca tivesse ido para aquele museu? Eu não teria conhecido Castiel, não teria vindo morar aqui quando nos casamos pois não haveria casamento, e também não teria conhecido a Britney. E nunca teria começado minha carreira de atriz.
— Coloquei um alarme só para me despedir antes que você fosse. — Brity surgiu do nada e acabou me assustando. Acabei soltando a cabeça e derramei o leite todo no chão.
— Merda, Britney! — Sacudi a camisa pois o leite ainda estava quente e espirrou boa parte em mim.
— Mas que consciência pesada, eu ein? — Brity correu até mim, ligou a torneira e jogou um pouco de água em mim. — Pelo menos um incentivo para você tomar um banho antes de ir.
— É claro que eu ia tomar banho antes de ir. — Segurei a barra da minha blusa e a puxei para cima.
— Scarlett! — Brity me repreendeu.
— Ah não... O Marley está aqui? — A encarei com minha expressão de espanto mútuo.
Britney me olhou com sua expressão apavorada por longos segundos, não falava nada e então depressa eu enfiei a blusa pela minha cabeça de qualquer jeito tentando colocá-la no meu corpo novamente achando que Marley estava atrás de mim. Britney caiu na gargalhada.
— Eu estou brincando, sua i****a! — Ela deve ter esquecido totalmente que a casa dela divide a parede com os vizinhos, porque ela ri como se morasse isolada no meio do mato.
— Sério, Britney. — Fechei a cara e fui andando para o meu quarto.
Minhas malas já estavam praticamente pronta, e meu vôo estava marcado para às 6h40m. Entrei no banheiro e liguei o chuveiro, a água escorria meio branca.
Passei meu último frasco de shampoo importado que Castiel me deu há algumas semanas, uma pena que seja o último frasco pois nunca mais vou poder usar outro igual. Tenho que parar de falar assim, pois eu esqueço que pode pegar m*l e acabo falando em voz alta para alguém, e acabo me passando por interesseira.
Eu nunca me envolvi com o Castiel por interesse, por mais que as pessoas acreditem no contrário.
Envolvi meu corpo em uma toalha branca e fui até meu guarda-roupa.
Agora eu era uma grande atriz, não posso andar de qualquer maneira, com qualquer roupa como eu costumava fazer antes de me tornar uma atriz famosa. Mas eu vou passar horas dentro de um avião e tenho o direito de vestir algo confortável.
Escolhi uma calça moletom nude sem botões, com um elástico na cintura. Um cropedd da mesma cor da calça e com gola alta. Um boné da mesma cor da calça e do Cropedd. Um sobretudo que cobre até o joelho em um tom marrom um pouco mais escuro, e o usei aberto. Tênis branco e umas jóias simples, nada de muito extravagante.
Passei um pouco de perfume, chequei se tinha tudo o que eu ia precisar dentro da mala e a arrastei até a sala. Britney estava toda arrumada no sofá, provavelmente estava me esperando.
— Eu vou com você, quero estar com você até o último segundo. — Ela sorriu e não pude deixar de notar os seus olhos brilhando querendo surgir algumas lágrimas.
— Qual o motivo de todo esse drama? É só uma viagem de lazer, daqui a pouco vou voltar, você não vai nem ao menos sentir minha falta. — A abracei enquanto falava frases de conforto. — Está cheirosa.
— Obrigada, você também está cheirosa. Mas eu vou sentir muita saudades de você, eu já acostumei em ver você com seu pijama de estrelinhas pela casa. — Sua voz estava chorosa e até que ela acabou chorando de verdade. Britiney enxugava algumas lágrimas mas elas brotavam de novo instantaneamente.
— Vamos, venha. Chega de choro. Você vai me deixar no aeroporto ou não? — Questionei tentando acabar logo com isso.
— Vamos, sua mãe já deve estar esperando lá faz horas. O choro dela provavelmente vai ser ainda maior, você vai ver. — Britney assegurou me fazendo rir.
Caminhamos até o carro, abri a porta e me acomodei no banco do passageiro. Britney foi o caminho inteiro fungando e enxugando suas lágrimas, ela é muito emotiva.
Quando chegamos no aeroporto, pude vê o carro da minha mãe com ela e meu pai escorados nele. Eles ainda não se acostumaram com a idéia de que agora eu sou uma estrela e tudo o que eu tenho que fazer é brilhar cada vez mais, viajar para longe sozinha é uma das formas de brilhar.
Sei que estou indo porque quero, mas eu preciso desse tempo, eu preciso me acostumar com a idéia de que agora eu sou solteira e tudo o que eu preciso fazer é seguir sozinha. Vou dá o primeiro passo com essa viagem.
— Filha. — Minha mãe me abraçou como se eu fosse fugir e não viajar. Entendo ela, eu também estaria um pouco triste. Ela também fungava. Gente, qual o motivo de todo esse drama, é só uma viagem.
Mamãe finalmente me largou e papai foi quem me abraçou forte agora. Os seus braços super delicados que quase me esmagam e quase quebram meus ossos como uma anaconda que quebra os ossos de suas vítimas antes de as engolirem. Comparação i****a, meu pai não é uma anaconda.
— Você não tem trabalho aqui, filha? Tem certeza de que vai mesmo? — Papai esfregava a mão no rosto disfarçadamente achando que eu não iria notar que ele estava chorando.
— Tenho pai, e não. Não tenho trabalho aqui, já acabamos as filmagens e o filme já foi até mesmo publicado. Já dei várias entrevistas e agora é só aproveitar as "férias". — Forcei um sorriso para eles.
— Você está bem? — Mamãe questionou, mas o que ela queria perguntar mesmo era como eu estava depois de ter sido traída por meu maridoe ainda ter sido exposta nos noticiários com muitos acréscimos de mentiras sobre a minha pessoa, coisas que me senti magoada mesmo sem ter vindo de alguém que eu confiasse e nem sendo verdade.
— Já assinei o papel do divórcio, só falta o Castiel assinar. É só isso que importa. — Não falei muito, não quero falar sobre isso em voz alta, e ainda para a minha mãe e principalmente em um aeroporto quando estou prestes a voar para longe.
Mamãe assentiu, papai pegou minha mala e saiu a arrastando para dentro do aeroporto. Olhei no meu relógio e eram exatamente 6h30m.
— Faltam 10 minutos. — Afirmei para eles.
Os três me abraçaram tão forte que acabei achando que não iam mais me largar e que realmente queria quebrar meus ossos como uma anaconda.
— Fique bem filha. — Mamãe falou enquanto dedilhava uma cruz na minha testa.
Olhei para papai que não parecia ter mais nada sobre o que falar para mim e apenas me abraçou, e então olhei para Britiney que me abraçou muito forte um pouco mais conformada com a minha viagem.
— Vê se arranja um tempinho para ir me visitar. — Sussurrei em seu ouvido e ela forçou um sorriso.
Saí andando até a escada rolante, pisei no degrau e então eu subi. Fiquei com dúvida se eu olhava para trás para dar uma última olhada para eles.
Tenho essa mania, sempre nas últimas vezes de algo eu tiro uma foto mental para guardar de recordação na minha memória, é como uma foto real e eu lembro perfeitamente delas como se minha cabeça fosse uma caixinha ou até mesmo um álbum de fotos.
No final das contas eu olhei, estavam os três alí observando eu me distanciar como se fosse realmente uma última vez. Eu amo isso, amo ter pessoas em mims volta que querem o meu bem e que eu tenho absoluta certeza de que vão sentir minha falta.
Caminhei até o avião, algumas pessoas em volta me encaravam como se eu fosse a presidente da república. Por mais que agora eu fosse uma grande estrela do cinema, eu ainda me sentia pequena como eu me sentia ao lado de Castiel. Eu me sinto como uma pessoa comum, alguém qualquer que não tem nada de especial.
É idiotice achar que só porque as pessoas não são estrelas internacionais elas não são especiais, não tem nada haver. Estrelas internacionais são apenas pessoas conhecidas, e ser conhecida não tem nada haver com ser especial ou não.
Caminhei entre as poltronas do avião em busca do meu lugar, quando me aproximei mais um pouco eu encontrei o meu lugar ocupado por uma mulher de mais ou menos... Uma adolescente, meu lugar estava sendo ocupado por uma adolescente. Ela tinha por volta de 17 anos.
— Licença, esse é meu lugar, meu amor. Eu paguei por ele. — Sorri gentilmente.
A adolescente me encarou com desdém por meio segundo e voltou a olhar para a janela, mas algo em mim chamou sua atenção e ela me olhou novamente. Os seus olhos brilharam.
— Você é a Scarlett Lewis? — Ela questionou com um sorriso de orelha a orelha. Apertava o celular em suas mãos com força.
— Sim, sou eu. — Continuei sorrindo gentilmente. Eu quero meu lugar do lado da janela meu amor, não é reconhecimento que eu quero.
— Pode tirar uma foto comigo? Eu sou muito sua fã. — Escorreu uma lágrima do seu olho.
Me senti estranha, alguém nesse mundo era minha fã? Eu tinha fãs? Isso quer dizer que eu sou especial agora?
— Ah, claro! — Sorri com as sobrancelhas franzidas ainda em choque sobre esse negócio de ter fãs.
A adolescente se aproximou de mim com os olhos marejados e esticou o celular em nossa frente com a tela aberta na câmera. Ela clicou quase um milhão de vezes no botão de tirar foto. Fez mil e uma poses, eu só sabia sorrir. Óbvio que depois ela desligou o celular para podermos decolar.
Fiquei desnorteada quando ela segurou meu queixo e me deu um beijo na bochecha e tirou uma foto. Eu tinha alguém que me amava muito nessa parte do mundo e que provavelmente fez o dia dessa pessoa ser o melhor da vida dela com apenas umas fotos. Eu tenho esse poder agora.
O lugar da garota era ao lado do meu, ela sentou no meu lugar porque queria ver a vista e também porque adolescentes são rebeldes.
A viagem inteira ela foi com a cabeça apoiada no meu ombro, não sei se dormia ou se estava apenas apreciando minha companhia. Mas não me importei, apenas admirei a vista da janela.
Eu fiz o dia dessa garota ser melhor com uma foto e ela fez o meu ser melhor não me roubando meu lugar.
Observando a janela e olhando para o branco das nuvens e aquele azul maravilhoso do céu fiquei imaginando quantas pessoas haviam lá embaixo e o que será que elas deviam estar fazendo enquanto eu estou aqui, servindo de apoio para uma adolescente de 17 anos. Não que eu esteja reclamando mas a vida é engraçada.
É estranho pensar que eu estou há não sei quantos metros do chão, se eu não estivesse dentro do avião eu estaria tocando nas nuvens, qual deve ser a sensação de tocar em uma nuvem?
Acho que acabei dormindo. Acordei com a aeromoça anunciando que já íamos pousar. A menina ao meu lado me encarou e segurou forte a minha mão.
— Tem medo de aterrissar? — Questionei para ela que anuiu de volta.
Segurei firme sua mão e então começamos a chegar mais próximo do chão. Foi uma experiência incrível, não era a minha primeira vez andando de avião, mas foi tudo tão novo que realmente pareceu a primeira vez.
A adolescente me abraçou forte quando já iamos descer. Foi estranho me separar dela, pois acho que eu já via ela como uma filha.
Coloquei a mão na cabeça alcançando a aba do meu boné e o tirei.
— Toma, pode ficar de recordação. — Sorri de orelha a orelha para ela. Acho que nunca dei um sorriso tão sincero para alguém como agora.
A menina me olhou com os olhos arregalados como se não estivesse acreditando.
— É sério? — O seu sorriso se abriu lindamente. Eu assenti. — Obrigada! Muito obrigada, obrigada... — Ela me abraçou bem forte.
— Como você se chama? — Questionei.
— Chloe.
"Chloe" repeti para mim mesma nos meus pensamentos.
Chloe tem um significado especial. O nome Chloe é derivado da palavra "khloe" que significa "verdejante" ou "broto verde". Esse nome está associado à ideia de juventude, vitalidade e renovação. Extremamente lindo.