Ananda
A manhã seguinte chegou com um sol forte que parecia iluminar cada pedra e viela do morro. Acordei na casa da Laís com uma mistura de ansiedade e expectativa. A noite anterior tinha sido intensa, entre desafios, risadas e aquela tensão que Khalil conseguia criar só com o olhar. Ainda sentia o coração acelerar quando lembrava da forma como ele me provocava.
Laís já estava na cozinha, preparando um café improvisado.
— Bom dia, Barbie — disse, rindo ao me ver bocejando. — Dormiu bem?
— Mais ou menos — respondi, esticando-me na cadeira. — Acho que meu corpo ainda não se acostumou com o barulho do morro… e com o Khalil.
Ela gargalhou.
— Eu te avisei, né? Esse daqui adora testar todo mundo. Mas você se saiu bem ontem. Todo mundo viu que você não é só uma patricinha.
Enquanto tomávamos café, ouvi passos na rua. Era Peixe e Tzão chegando, rindo e jogando conversa fora, como se fossem donos do lugar. Khalil veio por último, sem pressa, aquele jeito que me deixava ao mesmo tempo irritada e curiosa.
— Bom dia — ele disse, com aquele sorriso torto que parecia só dele. — Sobrevivendo à primeira noite?
— Sobrevivendo — respondi, fingindo naturalidade, mas sentindo um frio na barriga. — Você ainda vai me zoar hoje?
— Sempre que der — respondeu, cruzando os braços. — Mas aprendi ontem que você tem coragem… e eu gosto disso.
Peixe e Tzão caíram na gargalhada, e Laís cutucou meu braço.
— Viu? Já começou a integração.
Durante a manhã, fui conhecendo melhor cada canto do morro. As crianças corriam descalças, os cachorros latindo, o cheiro de comida caseira vindo de cada esquina. Fiquei um pouco perdida com tanta gente e barulho, mas Laís me segurava firme, apresentando vizinhos, amigos e comerciantes.
Quando chegamos perto de uma pequena banca de frutas, Khalil me cutucou de leve.
— Então, Barbie, sabe cortar manga? — perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Sei lá… nunca precisei — respondi, desconfortável.
— Então vamos testar — disse ele, pegando uma faca e uma manga. — Se fizer direito, você passa no teste de sobrevivência do morro.
Rimos juntos, enquanto Peixe e Tzão observavam e davam risadinhas. A cada toque do braço dele, meu coração disparava, mas eu mantinha a pose.
Mais tarde, a tarde caiu quente, e fomos sentar em um canto da viela, improvisando cadeiras de plástico de novo. Laís trouxe suco, Peixe e Tzão estavam jogando conversa fora, e Khalil se aproximou, encostando casualmente na parede perto de mim.
— Sabe — começou ele, em tom provocador — ontem eu achei que você fosse só uma Barbie perdida… mas hoje tô vendo que tem mais jogo do que eu imaginava.
Revirei os olhos, tentando não mostrar que o comentário me deixava feliz.
— Que ótimo, então você está me elogiando ou me provocando?
— Um pouco dos dois — respondeu, sorrindo de canto de boca. — Mas não se engane… eu não perco fácil.
A tensão entre nós dois era quase elétrica, e eu percebia os olhares curiosos de Peixe e Tzão, como se eles estivessem se divertindo com a nossa troca de farpas. Laís, por outro lado, sorria, contente de ver que eu estava me soltando, mesmo que fosse com provocação incluída.
O resto da tarde passou rápido. Fui ajudando Laís com algumas tarefas simples — cortar legumes, arrumar a mesa, preparar suco — e mesmo sendo algo pequeno, me sentia estranhamente satisfeita. Pela primeira vez em muito tempo, eu me senti parte de um grupo, e não como alguém deslocada ou deslocada demais para aquele lugar.
Quando o sol começou a se pôr, Khalil se aproximou novamente, com aquele jeito que só ele tinha de me fazer sentir um frio na barriga.
— Tá vendo, Barbie? — disse baixinho, só pra mim ouvir. — Você consegue se enturmar. Mas cuidado… isso só vai te deixar mais interessante.
Sorri, sem saber se aquilo era um aviso ou um desafio.
— Ah, é? Então vou ter que tomar cuidado… com você também.
Ele sorriu de canto, divertido.
— Isso é bom… eu gosto quando alguém consegue me provocar.
E assim, enquanto o céu mudava de laranja para rosa sobre o morro, percebi que a minha vida tinha mudado de vez. Entre risadas, tarefas simples, provocações e olhares carregados de tensão, eu já não era mais só a patricinha de fora… eu estava começando a me tornar Ananda do morro, pronta pra encarar tudo — e todos — que viesse pela frente.