BELA NARRANDO
Acordar na praça sempre deixa um gosto estranho na boca. Não é só o hálito da noite fria ou o vento sujo que passa pelas folhas da árvore rachada. É o gosto do que falta. Do que nunca teve. Do que me foi negado.
Me espreguicei, sentindo a blusa da noite anterior grudando no corpo. A calça jeans rasgadinha na canela era da Lais, minha melhor amiga, que tinha me dado depois de ver minhas roupas rasgadas demais até pra doação. Peguei a escova de dente da mochila, fui até a bica comunitária e me lavei como dava. Era sexta. Tinha aula. E eu fazia questão de não parecer derrotada.
Desci o morro devagar, pisando onde já conhecia. A cada viela, um cachorro magro, um barraco com música alta, uma fumaça de óleo velho. Quando cheguei na porta de casa, já senti a energia podre vindo do barraco.
A porta entreaberta. O chão, sujo de farelo de isopor e cinza de cigarro. Entrei. A sala tava revirada: almofada rasgada, garrafa quebrada no chão, panelas no sofá.
Suspirei fundo. “De novo…”
Já sabia o motivo. Djalma devorando tudo dentro de casa pra achar algo que pudesse trocar por pedra.
Olhei em volta. Nenhum sinal dele. A casa fedia a álcool e suor. Passei pela cozinha e subi direto pro meu quarto. Ou o que um dia foi um quarto.
Assim que empurrei a porta, o estômago revirou.
A gaveta tava aberta, virada no chão. O guarda-roupa velho escancarado, com metade das roupas jogadas e outras rasgadas. Mas o que me fez gelar foi ver que minhas calcinhas tinham sumido.
Me aproximei devagar. Só uma estava no chão, próxima à cama. Quando me abaixei pra pegar, vi que tava toda suja de um líquido estranho. Era grosso, meio amarelado. Tive ânsia na hora.
Soltei a peça como se queimasse minha pele e corri pro banheiro do corredor.
Vomitei até sair lágrimas. Até faltar ar. Até meu corpo implorar por trégua.
Ali, ajoelhada no chão imundo, com o gosto ácido da bile na garganta, eu entendi que a maldade do Djalma tinha ultrapassado uma linha que nem o inferno aceita cruzar.
Depois de um tempo, me levantei. Limpei a boca com o papel higiênico que ainda restava no rolo e me encarei no espelho rachado.
— Você vai sobreviver mais um dia. Cabeça erguida, p***a — Voltei pro quarto, peguei minha escova, ajeitei o cabelo preso num coque alto , vesti a camiseta do colégio — aquela que eu lavava na mão toda noite, só pra não dar motivo pros outros falarem. Peguei minha mochila, enfiei a escova de dentes dentro e desci.
No caminho da escola, encontrei a Lais, como sempre, esperando na esquina da vendinha.
Lais — E aí, dorminhoca? — ela brincou, com um sorriso que me aquecia mais que sol.
— Dormi na praça de novo. Djalma tava possuído — Ela bufou, me abraçando de lado
Lais — Você sabe que pode dormir lá em casa, né? Minha mãe gosta de tu. Não precisa passar por isso sozinha.
— Eu sei… mas fico com vergonha — Eu sabia o quanto aquele cara poderia ser r**m , eu não podia envolver as duas nisso ..
Ela não respondeu. Só segurou minha mão. E a gente subiu juntas.
Na escola, tentei fingir que tava tudo bem. Mas as palavras da Lais ficavam martelando. A aula de português passou arrastada. Na de matemática, nem copiei o exercício. Fiquei pensando na gaveta, no guarda-roupa, nas peças que sumiram. E no Djalma. O que ele faria se eu chegasse em casa?
Quando bateu o sinal da saída, Lais virou pra mim:
Lais — Hoje você vai lá pra casa. Sem desculpa. Se não quiser dormir, tudo bem. Mas pelo menos come alguma coisa decente. Tá pálida.
Assenti. A ideia de ficar longe de casa um pouco mais me acalmava. E eu confiava na Lais. Ela era meu único porto.
casa dela ficava um pouco antes da subida principal, perto da padaria velha. Assim que a gente entrou, senti o cheiro de bolo assando.
Lais — Mãe! Trouxe a Bela! — ela gritou.
A mãe da Lais apareceu na cozinha, com a forma de bolo na mão e um pano jogado no ombro.
Juliana — Oi, minha linda. Fica à vontade, tá? Tô só passando um cafezinho aqui pra gente.
— Obrigada, tia… — sorri tímido.
Ela me olhou com carinho, daquele jeito que a gente esquece como é bom ser vista com afeto de verdade.
Sentei na mesa. O bolo era de fubá com erva-doce. O cheiro me lembrou minha mãe, antes dela morrer. Um breve instante de paz.
Depois do lanche, Lais me chamou pro quarto. Ficamos lá, ouvindo música e rindo de memes no celular. Por algumas horas, eu esqueci da casa, do Djalma, da gaveta. Esqueci até do cheiro da praça.
Mas o tempo passa. E o medo volta.
Já era noite quando me levantei.
— Eu vou indo.
Lais — Dorme aqui, Bela. Por favor. Eu te empresto minha blusa do Flamengo, a gente vai amanhã lá na tua casa buscar tuas roupas. Amanhã é sábado. A gente passa o dia juntas.
Balancei a cabeça.
— Não dá, Lais. Eu fico nervosa. Vai que ele aparece lá — engulo em seco , eu já apanhei uma vez por te aceitado vim dormir aqui , aquele monstro preferia saber que eu estava dormindo na praça ..
Lais — Mas ele nunca tá, Bela. Você tem que parar de ter medo. Eu tô aqui com você.
— Eu sei. Mas… eu preciso ir — Ela não insistiu mais. Só me abraçou forte, como quem sabe que tá perdendo uma guerra que não devia nem existir.
Desci a rua com a mochila nas costas. As luzes dos postes falhando, a favela falando alto. Evitei olhar pros lados.
Voltei pra praça.
Me sentei no banco de sempre. Era duro, frio, conhecido.
Fechei os olhos e inspirei fundo.
Foi aí que ouvi a voz.
Xxx — Já virou rotina tua aí, hein? — Abri os olhos devagar. Era o garoto da noite passada
— Te incomoda?
Larva — Não. Só observo. O banco é teu, né?
— Melhor que meu quarto — Ele assentiu com a cabeça, como quem entende mais do que deveria pra idade — Afinal porque está sempre aqui ?
Larva — To preocupado contigo — franzi o cenho — qual foi colega , tá frio c*****o — um nó se formou na minha garganta — Aceitar pelo menos o galpão po ?
— Porque ?
Larva — Porque a rua é c***l — minha respiração travou — se um vagabundo ver tu dando bobeira assim tu vira almoço de jack — franzi o cenho — de abusador cara ..
Eu entendi oque ele quis dizer , e percebe a merda de realidade que vivo me fez entender que eu não era ninguém , não adianta tentar manter a marra de sobrevivente , eu ainda não tinha sobrevivido a dificuldade, eu só estava seguindo no automático e tentando me conforta de que vai ficar tudo bem ..
— Eu aceito o galpão ..
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