REFLEXO DA MINHA FOME

1132 Words
WANDER / LARVA NARRANDO Desde os quatro anos, minha vida foi a rua. O pó da calçada, o cheiro da pedra queimando no cachimbo da minha mãe, o som dos gritos nas madrugadas. Nunca teve brinquedo, nem riso, nem abraço. Teve fome, surra e esquecimento. Minha mãe morreu na minha frente. Overdose. Os olhos dela viraram vidro enquanto a espuma escorria da boca. Eu nem chorei. Fiquei olhando, esperando ela voltar a piscar. Não piscou mais. Meu pai? Nem nome eu sei. Pode ser qualquer um dos que entravam e saíam do barraco, chutando panela, me mandando calar a boca. Aos seis, eu já carregava bolsa de droga pros outros. Eles me davam pedra pra vender e me jogavam dois reais e um biscoito murcho. Me chamavam de “larvinha”, rindo. Diziam que eu era pequeno, sujo e vivia no lixo. Quando alguém perguntava meu nome, eu dizia “Larva”. E pegou. Fui crescendo na biqueira. Sujo. Magro. Desconfiado de tudo. Sempre esperando a hora de ser chutado pra fora de algum canto. Até que um dia, ele apareceu. Patrick. Mas ninguém chama ele assim. O morro conhece ele como Morte. A voz dele assusta até quem já nasceu morto por dentro. Mas quando ele olhou pra mim, não teve ameaça. Teve olho no olho. E pela primeira vez, eu me senti visto. Morte — Tu é de quem, menor? — ele perguntou. — De ninguém — respondi. Ele estalou a língua e mandou o segurança buscar uma roupa nova. Me levou pro barraco dele. Me deu banho. Me deu comida. Me deu um nome. Me deu um lugar. Desde então, eu chamo ele de pai. E mesmo não sendo meu sangue, ele é mais pai do que qualquer desgraçado que tenha me posto no mundo. A primeira roupa nova que eu vesti foi ele que deu. Camisa polo, bermuda de marca. Achei que tava sonhando. A primeira vez que escovei os dentes, foi com escova azul, novinha, que ele comprou só pra mim. Depois, me levou no dentista. Tive que arrancar três dentes apodrecidos. Saí do consultório com a boca sangrando, mas sorrindo com vergonha. Eu não sabia o que era cuidar de mim até ele me mostrar. No começo, os vapor cochichavam. Falavam por trás. Que o Morte tava criando “um rato de rua”, “um lixo”. Mas na frente dele, ninguém tinha peito de falar merda. E com o tempo, até esses cochichos sumiram. Porque eu fui mostrando que tudo que sou, tudo que faço, é por ele. Hoje, com 15 anos, eu sou o que ele fez de mim. Tô aprendendo com o Cadu, o braço direito do meu pai. Cadu segura o morro enquanto o Morte tá trancado, e eu fico sempre do lado. Ajudo na contenção, escuto, aprendo. Às vezes ele precisa descer pra casa por causa da mulher e do bebê recém-nascido. Quando isso acontece, sou eu que fico na biqueira. Mas foi entre uma madrugada e outra, sentado observando o fluxo, que eu vi ela pela primeira vez. Loira, baixinha, magra. Devia ter uns 17, talvez menos. O cabelo cacheado embolado pelo vento. Os olhos azuis , mas tristes. Ela se encolhia no banco da praça, com a mochila de travesseiro e os pés encolhidos no peito. Dormia tão fundo que às vezes até os lábios tremiam de frio. Fiquei observando de longe. Vi nela o que eu fui. E ali, sem que ela soubesse, eu decidi proteger ela. Na primeira vez que trocamos palavras, ela só me olhou desconfiada. Procurei saber com alguns seu nome antes mesmo de pergunta-la — Isabela - Bela .. Sorri de canto. Nome bonito pra quem carrega tanta dor. Ela achava que tava invisível, que ninguém notava a presença dela ali. Mas no morro, todo mundo vê tudo. E onde tem mulher dormindo sozinha, sempre tem filho da p**a pensando besteira. Mesmo com as leis do morro dizendo que “com mulher não se mexe”, sempre tem um querendo desafiar o movimento. Eu não ia deixar isso acontecer com ela. Comecei a bolar um plano. Sabia que levar ela pra minha casa era impossível — a contenção ali era firme demais. Morávamos no topo do morro, no lugar que o povo chama de “Castelo da Fera”. Fera era como chamavam meu pai, mesmo que o vulgo oficial fosse Morte. Porque diziam que quem via o rosto dele e não era aliado, sumia do mapa. Então pensei num lugar mais neutro, mas seguro: o galpão velho do lado da conferência de cargas. Era abandonado, mas resistente. Fechado, sem janela, telhado firme. Peguei um colchão de casal macio, levei até lá escondido. Estendi cobertor quente, dois travesseiros, um tapete limpo. Puxei a extensão de energia da sala de indolação e liguei uma luz amarela, baixa, quente. Instalei um frigobar, coloquei bolacha, suco, iogurte, fruta. Arrumei tudo com cuidado, como se fosse preparar um lar. Não um barraco. Um lar. Esperei mais dois dias. Ela ainda dormia no banco, encolhida. Ela me olhou. O olho azul brilhava entre o cansaço e o medo. Bela — Eu aceito o galpão — Assenti. O coração batia forte. Não de paixão, não de desejo. De alívio. Porque ela escolheu o caminho certo. E agora eu podia protegê-la de verdade. Quando abri a porta, ela parou. Bela — Você fez tudo isso por mim? — Parei. Falei com calma, firme. — Fiz. Mas não me leva a m*l. Não tem maldade nisso. Eu fiz porque… eu me vi em você. Ela mordeu o lábio. Os olhos encheram d’água, mas ela segurou. Tirei o cadeado do bolso. Entreguei junto com a chave prateada. — Esse é o único cadeado e a única chave. Esse espaço é teu, Bela. Só você entra. Só você sai. Ela pegou com as mãos trêmulas. Bela — Obrigada, Larva. — E se você puder… — cocei a nuca, tímido —, deixa a porta aberta no horário da escola. Só pra eu abastecer o frigobar, trocar o que tiver vencido. Eu prometo que só vou entrar pra isso. Juro. Ela sorriu. Pela primeira vez, sorriu de verdade. Bela — Tá bom. Mas só porque eu tô com fome. — Fome é o que mais dói — respondi. — E eu não quero mais ver você sentindo isso. Ficamos em silêncio. O vento entrou pela fresta da porta. A luz fraca iluminava o colchão limpo, os travesseiros alinhados, o cheiro de conforto. Pela primeira vez, ela tinha um espaço só dela. E eu… eu senti que tava devolvendo ao mundo um pedaço da dignidade que me roubaram. OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COMENTEM E DEIXEM BILHETES LUNARES .. AMORES COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA S2 INSTA : AUTORA_KE_POEYS ..
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD