MORTE NARRANDO
A cadeia respira um silêncio estranho quando a morte caminha solta dentro dela. E aqui dentro, mesmo com concreto, grades e homens armados, quem comanda sou eu.
Não era o primeiro que tentava tirar onda no meu pátio. Um novato, arrogante, desses que acham que ter sangue quente é mais importante que ter cérebro. Levantou o tom com um dos meus, soltou gracinha na hora errada. Eu podia ter ignorado, deixado que o tempo ensinasse. Mas aqui, onde palavra errada vira desrespeito, e desrespeito vira desordem, eu sou a lição.
Levantei da minha cama com calma. Meus pés tocaram o chão e a cela ficou muda. O cara tentou manter a pose, mas eu já conheço o cheiro do medo. Ele falou qualquer coisa, nem lembro mais. O primeiro soco foi na boca. O segundo, no queixo. E quando ele tentou reagir, afundei o joelho no estômago dele com tanta força que ouvi o baque seco das costas batendo na parede.
Três guardas estavam no canto. Ninguém fez nada. Ninguém ousa. Nem eles.
Segurei o rosto do sujeito pela nuca e murmurei:
— Aqui dentro, quem decide o que é certo ou errado sou eu. Se quiser continuar respirando, aprende a andar calado.
Soltei ele no chão, cuspindo sangue e vergonha. Voltei pro meu canto com as mãos sujas de verdade e autoridade.
No fim da tarde, veio o que ninguém esperava: problema de fora da cadeia. E não era qualquer problema. Era do tipo que mexe comigo. Era o Larva.
O telefone do parlatório tocou e me chamaram. Atendi com calma.
LIGAÇÃO ON
— Fala.
Cadu — É o Cadu, patrão.
— Desembucha.
Cadu — Tão comentando no morro… que o Larva tá namorando. Parece que tem uma menina. Dizem que tá até grávida.
Fiquei calado por três segundos. O coração não acelerou. Não sou disso. Mas a mente… a mente girou em mil direções. Larva é meu filho de criação, criado por mim desde moleque. Passou fome na rua, me olhou com os olhos que pediam um recomeço. Dei casa, dei respeito, dei nome. E ele sempre foi correto. Sempre falou tudo.
— Cê tem certeza disso, Cadu?
Cadu — Só ouvi boato. Mas… estranho ele não ter falado nada pro senhor. Larva sempre foi papo reto.
— Vou tirar isso a limpo.
LIGAÇÃO OFF
Voltei pra cela com o celular que ninguém ousa revistar. Disquei o número direto do moleque. Ele atendeu no terceiro toque.
LIGAÇÃO ON
Larva — Fala, pai.
— Tem uma coisa que cê esqueceu de me contar, Wander ? — Silêncio do outro lado. Longo — Fala logo, que eu tô sem paciência.
Ele suspirou, e a voz veio firme, mas pesada.
Larva — É verdade sim. Tô com uma menina. O nome dela é Bela. E ela tá grávida — Fechei os olhos. Respirei pelo nariz.
— E por que caralhos você não me contou isso antes?
Larva — Porque eu sabia que o senhor ia ficar puto. Mas não é o que tão pensando. Ela não é qualquer uma dessas do morro, não. Mora ali, mas não é dessas que se esfrega em vapor atrás de droga ou fama. É diferente.
— Cê esqueceu o que eu sempre falei? Mulher do morro não é mulher pra ter envolvimento. Mulher cega homem. Filho prende homem. E tu tá com os dois.
Larva — Eu sei. Só que… não dava pra virar as costas. Ela tá com meu filho na barriga, pai. Eu não ia deixar ela jogada na rua. Tô tentando arrumar um barraco pra botar ela. Quero cuidar — Fechei o punho. Cada palavra dele era um soco na disciplina que ensinei.
— Vou puxar a ficha dessa menina. Se tiver merda, é tu que vai limpar. Me aguarda — Desliguei sem esperar resposta.
LIGAÇÃO OFF
Saí da cela e fui atrás do único que podia resolver isso rápido: Cadu.
Ele não tinha meu contato direto pra não fazer ligação com o trafico , ele tem fixa limpa e sempre estar no asfalto em consultas particulares por causa da família , eu sei entender o fato dele não querer se sujar ..
LIGAÇÃO ON
— Quero tudo sobre essa tal de Bela. Nome completo, histórico, com quem andava, onde dormia , tudo ..
Cadu foi ágil. Em menos de duas horas, me ligou de volta.
Cadu — A menina se chama Isabela, mas todo mundo chama ela de Bela. Dezessete anos. Estudante. Nunca se envolveu com tráfico, não tem passagem, ficha limpa. Mora na rua do valão , com um padrasto que é usuário pesado. Já devia pra boca, já tentou vender móvel da casa por pedra. A mãe da menina morreu há anos. A menina dorme na praça. Só que… não tem envolvimento. Perguntei na vizinhança. Todo mundo fala que ela é calada, na dela, educada.
Fiquei em silêncio.
— Fé ..
LIGAÇÃO OFF
Soquei a parede atrás de mim. Respiro fundo para me acalmar antes de retorna a ligação para o Wander ..
LIGAÇÃO ON
— Larva.
Larva — Tô aqui pai
— Leva ela pra cima. Pro castelo. Quero ela na casa que e da vigilância antiga. Quero ela sob meu teto.
Larva — Sério?
— Você disse que ela é digna. Então prova. E cuida. Mas escuta bem: não confia cem por cento. Mulher pode cegar. Eu já fui cego. E quando abri o olho, tinha perdido tudo.
Larva — Pode deixar, pai. Eu vou cuidar dela. E eu agradeço por confiar em mim.
— Cadu vai ficar de olho. Não porque eu ache que você vai me trair, mas porque eu tenho medo do que a paixão pode fazer contigo. Entendeu?
Larva — Entendi sim, chefe.
— Tá certo. Vai lá e faz certo, Larva. Porque se fizer errado, não é ela quem vai pagar. É você.
Larva — Não vou decepcionar — Desliguei.
LIGAÇÃO OFF
Fiquei um tempo parado, olhando pro teto mofado da cela. Nem as paredes da cadeia são mais frias que o medo de ver o meu menino sendo engolido por um erro de amor.
Mas agora… agora era com ele.
Eu só tinha uma bala guardada — e o nome dela era confiança.
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