BELA NARRANDO
A luz amarela do galpão parecia cara demais para a escuridão que eu vinha carregando. Quando empurrei a porta pela primeira vez, senti o choque do cheiro de limpeza — chão lavado, colchão e cobertores limpos, travesseiros alinhados. Aquilo tudo estava perfeito
Larva estava lá, em pé, com o braço estendido, segurando o cadeado.
Larva — Pode entrar — disse ele, com a voz suave, como se oferecesse uma promessa.
Ele ainda era um garoto para mim, mas ali senti a mão de alguém que desejava um irmão mais novo. Me aproximei devagar, os olhos procurando falar antes que eu entendesse o porquê de me sentir segura.
Um tapete limpo na entrada, o frigobar com latas de suco, pacotes de biscoito — coisas que eu, em casa, só via de longe. Ele tinha feito tudo pensando em mim. Eu, que nem conhecia o nome dele direito.
Passou uma hora em silêncio.
Quando finalmente me sento no colchão, com o coração abanando medo e esperança, ele se agacha para me entregar um pacotinho de biscoitos:
Larva — Prove. Você nunca comeu isso? — Tive que sorrir, a voz falhando..
— Eu… nunca pude. Sempre foi difícil — Ele coloca o pacote suavemente, como se oferecesse o respeito que me faltava no mundo
No dia seguinte, enquanto eu voltava pra escola, sentia o uniforme menos pesado. Eu sabia que voltaria ao galpão à tarde para fins de semana separados da casa maldita.
Até a noite em que voltei para pegar roupas no barraco.
A casa estava estranhamente silenciosa. A janela estava aberta, e a luz da rua iluminava a sala vazia. Subi. Queria uma muda de roupa, só isso. Só roupa. Mas quando escorreguei pela porta que rangia, senti o cheiro de álcool — puro. Já na entrada, ele me esperava.
Djalma — Cadê você esses dias ? — ele sussurrou, me agarrando pelo braço.
Não tive reação a tempo. Começou a gritar:
Djalma — Seu inferno, vamos ficar cara a cara! Criança de rua, sua p**a vai fugir de casa agora?
Neguei com a cabeça, a voz falhando:
— Eu saí pra pensar .. não voltei antes porque queria ficar sozinha — Mas ele não me ouviu , já fazia quase quatro dias que eu não retornava pra casa , já era de imaginar que logo ganharia uma surra
Djalma — Mulher que some de casa, dorme na praça, acho qué é c****a sem dono, né? — Ele me empurrou, e o tom ficou baixo ameaçador — Vai fazer o que se eu resolver te usar agora? Não vou parar até… — Ele estalou solto a língua com nojo.
Senti raiva, medo, desespero. Acordei o gatilho que dormia em mim. Levantei e gritei:
— Sai da minha frente — Ele me agarrou. Foi quando minha mão livre se encheu de força. Empurrei com toda minha fúria e corri.
Corri subindo o morros, os joelhos raspando, a bolsa quase caindo. Desabei para respirar e lágrimas escorreram. Não parei até ver o poste amarelo do galpão.
No momento que eu ia abrir o cadeado as chaves caíram no chão , meu coração acelerou quando ouvir passos atrás de mim , e assim que me virei ele estava ali
Larva estava ali, o olhar mais aberto que já vi. Corri para dentro e me encostei, ofegante:
— Foi ele — gaguejei. — Ele tentou… tentou abusar de mim — Ele não falou. Me envolveu nos braços. A porta abrindo atrás de mim soou como um escudo de ferro.
Larva — Você está segura. — murmurou. — E não vai mais voltar.
Passei a noite acordada. Ele ficou ao lado da cama improvisada, me dando água, me cobrindo, garantindo que ele realmente estava ali. Dormi só quando o cansaço venceu o medo.
Na manhã seguinte, vi o olhar pequeno dele tentando falar alguma coisa diferente. Fomos descendo juntos, ao sol ainda tímido. Na beirada da viela, ele me perguntou em voz baixa:
Larva. — Eu… eu não posso matar ninguém sem ordem. Mas… se tivesse mais poder, eu já teria esmagado ele por você — Não sabia o que dizer. Só senti o peito cheio — Você entende…?
— Entendo sim. — Respirei fundo. — Mas eu não queria que ele morresse por minha causa
Larva — você não precisa ter vergonha de contar. Vou cuidar de você
Segui pra escola e ele subiu me garantindo que vinha me buscar ..
Laís não apareceu na escola hoje , provavelmente alguma coisa aconteceu ela raramente faltava ..
No fim da aula ele veio me buscar , subimos andando , em total silêncio , mas era confortante , eu me sentia segura ali ..
Larva — consegui um plano — disse quando entramos no galpão — Você pode subir. Pro castelo.
Mordi o lábio:
— Subir… onde?
Larva — Lá no topo. Na casa do Morte. — Ele apontou pra cima, emocionado. — Ali é seguro. Ninguém entra — Olhos arregalados.
— Eu… Larva, isso é loucura — O sorriso dele ficou firme:
Larva — Eu sou filho dele. Pode confiar — Fiquei no silêncio. Ele respirou fundo — Olha… pra entrar lá, tem um jeito: fingir que você está grávida.
Engasguei. A noção me atingiu:
— Como… eu até… virgem. Como eu vou…? — Ele me olhou com compaixão
Larva — Não precisa ser real. É só o que eles precisam acreditar. Só até você estar segura. Só até conseguir ajuda de verdade. Pra mim você é uma irmã mas velha ..
Pisei o pé:
— Isso é demais, Larva… não quero colocar ninguém em risco. Não quero que o babaca do meu padrasto doente morra. Eu só quero… viver em paz — Ele estendeu a mão
Larva — Eu prometo que ninguém se machuca. E ninguém vai saber. Só precisa parecer — neguei — Meu pai também me tirou da rua , quando eu conseguir explicar tudo eu tenho certeza que ele vai entender ..
Bufei
— Se seu pai descobrir você assume a responsabilidade — Ele sorriu aliviado e me abraçou. Naquela hora, senti que era a primeira vez que algo parecia possível — mesmo que envolvesse mentiras, escudo, e um plano longe de ser seguro.
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