MORTE NARRANDO
A rotina na cadeia se repete como martelo ardendo no osso. Acordo com o grito seco dos guardas, o cheiro de mijo que impregna as folhas de concreto e os olhares medrosos dos presos que se recolhem ao meu redor. Aqui, cada dia é um teste, mas não para mim — eu sou a medida. A barreira entre mim e os outros é o sangue que flui nos punhos.
Dias iguais, vinte vezes ao mês. Café aguado, pão murcho, jornal velho. Acordo, caminho até o pátio para o banho de sol, junto dos puxa-sacos que me perseguem com a língua nos freios. O resto do tempo, o aroma forte da minha presença basta pra segurar a cadeia inteira.
Mas ali, no canto da cela 7, silêncio só se quebra pelo porta-voz da visita. Está marcado: hoje é quinta-feira, dia da visita íntima. E o mix de expectativa e repulsa começa no olhar lançado aos guardas que abrem as grades do parlatório.
Caminhei com calma, olhando cada passo, cada centímetro de parede que me conhecia. No fundo, a porta de metal aguardava. Do outro lado, o cheiro de perfume barato e batom borrado.
Ela já estava sentada, perna cruzada, batendo a unha no plástico da mesa.
Rafaela — MORTE — Ela sorriu.
— não grita p***a . — Corrigi, sem nem sentar ainda.
Ela riu.
Rafaela — Hoje eu vim pra matar sua vontade — disse, levantando e puxando o zíper do casaco.
Fechei a porta. O resto foi barulho de corpo, respiração forte e nenhum carinho. Porque carinho é coisa de homem fraco. E eu não sou fraco.
Ela gemia como se o prazer fosse dela. Não era. Era meu. Eu usava ela como qualquer objeto que serve pra aliviar uma tensão. E ela sabia disso. Saiu do colchão sorrindo, limpando a boca e puxando o cabelo.
Rafaela — É bom saber que ainda tem lugar pra mim aqui. — Ela ajeitou o sutiã.
— Depende do que você tem pra me dar além da b***a. — Respondi, vestindo a calça com calma.
Ela sentou de novo, puxou o batom da bolsa e começou a se maquiar no espelhinho rachado.
Rafaela — Posso ter algo mais interessante — Levantei o olhar.
— Fala.
Rafaela — Seu filho. O Larva. Ele tá levando mulher pra dentro do castelo — essa p***a eu já sabia , a ordem foi minha , mas fingi não saber pra ver tudo que ela podia me contar ..
— Como é que é?
Rafaela — A menina… a tal da Bela. Todo mundo no morro tá falando. Que ela tá grávida. Que ele botou ela lá em cima. Só que… — Ela parou, rindo. — Só que é caô. Essa menina é amiga da minha vizinha . Eu conheço ela. Ela é certinha demais. Quase foi abusada pelo padrasto. Vive fugindo de casa, dormia na praça.
— E a gravidez ?
Rafaela — Que nada. Aquela menina tem medo até de encostar em homem. Uma vez, vi ela tremendo só porque o gerente da boca passou do lado dela.
— E o Larva?
Rafaela — Tá se deixando enganar. Coração mole. Tá botando ela pra subir, dizendo que é gravidez, pra ninguém barrar.
Me calei por um instante. Me aproximei dela, botei as duas mãos na mesa.
— Você quer voltar aqui semana que vem?
Rafaela — Sempre.
— Então faz por merecer. Quero vídeo, foto, gravação. Quero saber tudo da rotina dos dois. O que ele fala, o que ela responde. Quero verdade. Completa — Ela arregalou os olhos.
Rafaela — Tá falando sério?
— Tô te dando moral que ninguém tem. Você volta. Mas volta com material. Senão, some da minha lista.
Ela sorriu como se tivesse ganhado um prêmio.
Rafaela — Pode deixar, Morte. Vou te entregar ouro.
— Sai. Antes que eu mude de ideia — Ela levantou, ajeitou a bolsa, passou a mão na minha coxa e foi embora. Quando a porta bateu, o silêncio voltou, mas minha cabeça já não estava mais na cela.
noite, o barulho da tranca me irritou. Voltei pra cela e mandei o Gordo sair da cama de cima. Deitei. Fiquei olhando o teto , eu não estava acreditando que meu filho estava mentindo pra mim , sempre dei o papo para ele conversa as paradas comigo , que eu era seu amigo e faria tudo por ele ..
Bufei
Ele mentia.
Não sobre uma besteira qualquer. Mas sobre uma gravidez. Um golpe. E dentro do castelo, que era meu nome, minha história. O lugar onde nunca entrou quem não tinha honra.
Ele sabia da regra. Sabia o que podia e o que não podia. E, mesmo assim, mentiu. Me ocultou.
Senti o peito apertar, como se uma faca tivesse cravado bem no meio do osso. Tinha matado traidor por menos. Muito menos. Mas ali… era ele.
Peguei o celular escondido, o mesmo que os guardas fingiam não ver porque sabiam quem manda. Toquei pra ele.
Uma, duas… na terceira chamada, a voz que atendeu me travou.
LIGAÇÃO ON
Xxx — Alô? — suave, leve, uma voz que parecia não combinar com nada desse mundo aqui de dentro.
Eu fiquei em silêncio por um segundo. A mão apertada no telefone, a respiração presa. Era ela.
Xxx — Quem tá falando? — ela repetiu, mais baixa agora, desconfiada.
— Cadê o Larva ? — minha voz saiu firme, sem alterar. Mas por dentro, eu já tava lendo tudo.
Xxx — Ele… ele tá no banheiro. Quer deixar recado ? — Demorei a responder. O jeito que ela falou o nome dele. A suavidade. O respeito.
— Você é a… Bela? — Ela hesitou.
Xxx — Sou.
— Cê sabe quem tá falando?
Bela — Não.
— Aqui é o Morte. Pai do Wander — O silêncio do outro lado foi denso. Quase pude ouvir ela engolindo seco.
Bela — Ah… sim, senhor.
“Senhor.”
Ninguém me chamava assim sem tremer.
Quando eu ia responder o barulho da ligação caindo me fez afasta o telefone do ouvido , ela desligou na minha cara ?
LIGAÇÃO OFF
— Filha da p**a ..
Os dias se passaram e o larva me retornou mas não atendi , eu tava com outra parada em mente e ele ia ter uma grande surpresa..
Hoje é dia de visita íntima e a Rafaela que vai vim novamente , ela chegou com o celular escondido no sutiã, trouxe tudo.
Vídeos da menina no galpão. Sozinha. Ajeitando o freezer. Um som baixinho tocando. Larva chegando, colocando pacote de bolacha na geladeira. Eles rindo. Mas sem toque, sem beijo. Em uma das gravações, ele falava:
VÍDEO ON
Larva — Eu só quero proteger você
Bela — Você é como um irmão pra mim, Wander — Meu peito apertou. A voz dele soava igual a minha quando tirei ele da rua
Ela me deu outro vídeo. Era uma conversa gravada, entre o Larva e outra menina.
Larva — Eu tive que inventar a gravidez. — Ele dizia. — Era o único jeito de colocar ela dentro da casa. Eu não tenho poder pra bater de frente com o padrasto dela. Mas ali, ninguém encosta nela.
VÍDEO OFF
Soltei o vídeo. Fechei o punho.
Um respeito cresceu no peito. Larva tinha feito o que eu fiz por ele: proteger sem interesse. Usar o pouco poder que tinha pra salvar alguém. Não com força, mas com coragem.
Guardei o celular na caixa da privada adaptada da cela. Ninguém mexia ali. Quem tocasse, morria.
Dias depois, recebi recado de um dos guardas. Um dos que me deviam favor.
Guarda — A parada tá de pé. A fuga. Túnel do bloco C, atrás da lavanderia. Máquina de corte vai chegar disfarçada na próxima entrega da faxina — Levantei a cabeça devagar.
— Em quanto tempo?
Guarda — Quatorze dias — Acenei. A b***a que dormia dentro de mim abriu os olhos.
Agora era só esperar. O jogo ia virar.
E eu voltaria. Não como o Morte preso.
Mas como a Fera solta
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