A MENTIRA

1352 Words
MORTE NARRANDO A rotina na cadeia se repete como martelo ardendo no osso. Acordo com o grito seco dos guardas, o cheiro de mijo que impregna as folhas de concreto e os olhares medrosos dos presos que se recolhem ao meu redor. Aqui, cada dia é um teste, mas não para mim — eu sou a medida. A barreira entre mim e os outros é o sangue que flui nos punhos. Dias iguais, vinte vezes ao mês. Café aguado, pão murcho, jornal velho. Acordo, caminho até o pátio para o banho de sol, junto dos puxa-sacos que me perseguem com a língua nos freios. O resto do tempo, o aroma forte da minha presença basta pra segurar a cadeia inteira. Mas ali, no canto da cela 7, silêncio só se quebra pelo porta-voz da visita. Está marcado: hoje é quinta-feira, dia da visita íntima. E o mix de expectativa e repulsa começa no olhar lançado aos guardas que abrem as grades do parlatório. Caminhei com calma, olhando cada passo, cada centímetro de parede que me conhecia. No fundo, a porta de metal aguardava. Do outro lado, o cheiro de perfume barato e batom borrado. Ela já estava sentada, perna cruzada, batendo a unha no plástico da mesa. Rafaela — MORTE — Ela sorriu. — não grita p***a . — Corrigi, sem nem sentar ainda. Ela riu. Rafaela — Hoje eu vim pra matar sua vontade — disse, levantando e puxando o zíper do casaco. Fechei a porta. O resto foi barulho de corpo, respiração forte e nenhum carinho. Porque carinho é coisa de homem fraco. E eu não sou fraco. Ela gemia como se o prazer fosse dela. Não era. Era meu. Eu usava ela como qualquer objeto que serve pra aliviar uma tensão. E ela sabia disso. Saiu do colchão sorrindo, limpando a boca e puxando o cabelo. Rafaela — É bom saber que ainda tem lugar pra mim aqui. — Ela ajeitou o sutiã. — Depende do que você tem pra me dar além da b***a. — Respondi, vestindo a calça com calma. Ela sentou de novo, puxou o batom da bolsa e começou a se maquiar no espelhinho rachado. Rafaela — Posso ter algo mais interessante — Levantei o olhar. — Fala. Rafaela — Seu filho. O Larva. Ele tá levando mulher pra dentro do castelo — essa p***a eu já sabia , a ordem foi minha , mas fingi não saber pra ver tudo que ela podia me contar .. — Como é que é? Rafaela — A menina… a tal da Bela. Todo mundo no morro tá falando. Que ela tá grávida. Que ele botou ela lá em cima. Só que… — Ela parou, rindo. — Só que é caô. Essa menina é amiga da minha vizinha . Eu conheço ela. Ela é certinha demais. Quase foi abusada pelo padrasto. Vive fugindo de casa, dormia na praça. — E a gravidez ? Rafaela — Que nada. Aquela menina tem medo até de encostar em homem. Uma vez, vi ela tremendo só porque o gerente da boca passou do lado dela. — E o Larva? Rafaela — Tá se deixando enganar. Coração mole. Tá botando ela pra subir, dizendo que é gravidez, pra ninguém barrar. Me calei por um instante. Me aproximei dela, botei as duas mãos na mesa. — Você quer voltar aqui semana que vem? Rafaela — Sempre. — Então faz por merecer. Quero vídeo, foto, gravação. Quero saber tudo da rotina dos dois. O que ele fala, o que ela responde. Quero verdade. Completa — Ela arregalou os olhos. Rafaela — Tá falando sério? — Tô te dando moral que ninguém tem. Você volta. Mas volta com material. Senão, some da minha lista. Ela sorriu como se tivesse ganhado um prêmio. Rafaela — Pode deixar, Morte. Vou te entregar ouro. — Sai. Antes que eu mude de ideia — Ela levantou, ajeitou a bolsa, passou a mão na minha coxa e foi embora. Quando a porta bateu, o silêncio voltou, mas minha cabeça já não estava mais na cela. noite, o barulho da tranca me irritou. Voltei pra cela e mandei o Gordo sair da cama de cima. Deitei. Fiquei olhando o teto , eu não estava acreditando que meu filho estava mentindo pra mim , sempre dei o papo para ele conversa as paradas comigo , que eu era seu amigo e faria tudo por ele .. Bufei Ele mentia. Não sobre uma besteira qualquer. Mas sobre uma gravidez. Um golpe. E dentro do castelo, que era meu nome, minha história. O lugar onde nunca entrou quem não tinha honra. Ele sabia da regra. Sabia o que podia e o que não podia. E, mesmo assim, mentiu. Me ocultou. Senti o peito apertar, como se uma faca tivesse cravado bem no meio do osso. Tinha matado traidor por menos. Muito menos. Mas ali… era ele. Peguei o celular escondido, o mesmo que os guardas fingiam não ver porque sabiam quem manda. Toquei pra ele. Uma, duas… na terceira chamada, a voz que atendeu me travou. LIGAÇÃO ON Xxx — Alô? — suave, leve, uma voz que parecia não combinar com nada desse mundo aqui de dentro. Eu fiquei em silêncio por um segundo. A mão apertada no telefone, a respiração presa. Era ela. Xxx — Quem tá falando? — ela repetiu, mais baixa agora, desconfiada. — Cadê o Larva ? — minha voz saiu firme, sem alterar. Mas por dentro, eu já tava lendo tudo. Xxx — Ele… ele tá no banheiro. Quer deixar recado ? — Demorei a responder. O jeito que ela falou o nome dele. A suavidade. O respeito. — Você é a… Bela? — Ela hesitou. Xxx — Sou. — Cê sabe quem tá falando? Bela — Não. — Aqui é o Morte. Pai do Wander — O silêncio do outro lado foi denso. Quase pude ouvir ela engolindo seco. Bela — Ah… sim, senhor. “Senhor.” Ninguém me chamava assim sem tremer. Quando eu ia responder o barulho da ligação caindo me fez afasta o telefone do ouvido , ela desligou na minha cara ? LIGAÇÃO OFF — Filha da p**a .. Os dias se passaram e o larva me retornou mas não atendi , eu tava com outra parada em mente e ele ia ter uma grande surpresa.. Hoje é dia de visita íntima e a Rafaela que vai vim novamente , ela chegou com o celular escondido no sutiã, trouxe tudo. Vídeos da menina no galpão. Sozinha. Ajeitando o freezer. Um som baixinho tocando. Larva chegando, colocando pacote de bolacha na geladeira. Eles rindo. Mas sem toque, sem beijo. Em uma das gravações, ele falava: VÍDEO ON Larva — Eu só quero proteger você Bela — Você é como um irmão pra mim, Wander — Meu peito apertou. A voz dele soava igual a minha quando tirei ele da rua Ela me deu outro vídeo. Era uma conversa gravada, entre o Larva e outra menina. Larva — Eu tive que inventar a gravidez. — Ele dizia. — Era o único jeito de colocar ela dentro da casa. Eu não tenho poder pra bater de frente com o padrasto dela. Mas ali, ninguém encosta nela. VÍDEO OFF Soltei o vídeo. Fechei o punho. Um respeito cresceu no peito. Larva tinha feito o que eu fiz por ele: proteger sem interesse. Usar o pouco poder que tinha pra salvar alguém. Não com força, mas com coragem. Guardei o celular na caixa da privada adaptada da cela. Ninguém mexia ali. Quem tocasse, morria. Dias depois, recebi recado de um dos guardas. Um dos que me deviam favor. Guarda — A parada tá de pé. A fuga. Túnel do bloco C, atrás da lavanderia. Máquina de corte vai chegar disfarçada na próxima entrega da faxina — Levantei a cabeça devagar. — Em quanto tempo? Guarda — Quatorze dias — Acenei. A b***a que dormia dentro de mim abriu os olhos. Agora era só esperar. O jogo ia virar. E eu voltaria. Não como o Morte preso. Mas como a Fera solta OBS: PARA MAIS CAPÍTULOS COLOQUEM O LIVRO NA BIBLIOTECA..
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD