Todo dia é natal para Gisella

1507 Words
Precisou de alguns dias para que os ânimos se acalmassem naquela casa. Gisella e Hendrik deixaram de se falar e ela tinha a impressão que poderia ser atropelada que ainda assim, ele continuaria ignorando-a, justo ela que estava acostumada a desprezá-lo e não ser desprezada jamais por ele. Aquilo doía. Felizmente, Hendrik não sentia prazer em magoar ninguém e decidiu que já era hora de voltar a implicar com ela. Ele foi até a sala e a encontrou parada em frente a estante, revirando alguns livros e ao mesmo tempo assistindo a um filme sobre uma elfa caçadora de recompensas, o filme chamava-se Saga. — Sério mesmo que humanos gostam desses filmes bobos e acham que todos os elfos são orelhudos assim? — Hendrik, disse rindo. Gisella o encarou e o achou ainda mais lindo aquela tarde. Nem Legolas poderia competir com sua beleza. Ela sentiu uma pontada no peito e virou o rosto antes que começasse a chorar. — Aquele livro é legal… — Hendrik disse apontado para um livro de capa vermelha, cujo título era Ordinary. Gisella pegou o livro e se arrastou para debaixo da mesa onde estavam espalhados alguns enfeites de natal. Ela disfarçou, fingindo interesse nos enfeites. O natal, obviamente estava longe, mas Evin sabia o quanto Gisella adorava o natal, por isso, sempre que ela ficava triste, era natal.           Dinorah veio até a sala e Hendrik e ela se encararam, preocupados com Gisella. Ela andava tão triste que se refugiava em lembranças de sua infância, agindo e falando como uma criança, algumas vezes. Conforme ela se lembrava de sua vida anterior, ou regressava ou avançava mentalmente, dependendo unicamente das lembranças e do impacto que as mesmas causavam nela. — Ela está enlouquecendo? — Hendrik perguntou, triste, em um sussurro a sua avó. — Não. Mas está confusa porque tem de lidar com duas personalidades e duas vidas ao mesmo tempo. Também tenho a impressão de que as coisas que ela se lembra são assustadoras. — Falou Dinorah. — Assustadoras? — Repetiu Hendrik. — Sim. Parece que ela não teve uma vida fácil mesmo sendo uma princesa. — Dinorah chamou Gisella. Ela se encolheu, se recusando a sair de baixo da mesa. Dinorah foi até lá e se agachou, sorrindo enquanto lhe estendia a mão. — Está na hora de vestir o seu vestido vermelho, querida! Está quase na hora da ceia. — Falou Dinorah e sem que Gisella percebesse fez um gesto sutil, fazendo com que uma canção natalina tocasse de lugar nenhum. Gisella riu com ar travesso como quando tinha três anos e saiu correndo de baixo da mesa. Olhou para trás enquanto corria e esbarrou sem querer em Hendrik. Notou como ele era alto e belo… Tão belo. — Eu sou Gisella. — Disse tímida. — Hendrik. — Ele disse, triste, porque ela não o reconhecera. Os dois se encararam por um tempo em silêncio e um momento de lucidez, Gisella sentiu o quanto amava aquele elfo a sua frente, mas então se lembrou que aquele amor era proibido, o porquê, ela não se lembrava, mas sabia que tinha de se afastar rapidamente dele antes que não resistisse mais. Se virou e saiu apressada. Hendrik suspirou. — Foi a forma que ela encontrou de não se lembrar do passado, retrocedendo mentalmente. — Falou Dinorah. † † † Gisella vestiu seu vestido vermelho e desceu contente para a ceia. Foi até a cozinha e ouviu Hendrik e Evin conversando sobre se mudar de casa para não serem mais perturbados. Ela não entendeu porque eles queriam se mudar se viviam no melhor lugar do mundo. Sentou-se à mesa e aguardou pacientemente que viessem lhe servir algo. Hendrik veio e quando percebeu que Gisella ficou sem jeito, desistiu de se despedir dela, deixando apenas três balas para ela em cima da mesa. Gisella esperou ele se afastar e pegou as balas, sorrindo. Evin veio e se sentou, de frente para ela, encarando-a. — Eu fiz alguma coisa errada, mãe? Me desculpa? — Falou Gisella ao notar que Evin parecia chateada. — Por favor, Gisella? Volte? Você tem de voltar! — Evin apertou a mão dela. — Voltar? Como assim? — Gisella perguntou, confusa. — Me desculpe por isso? — Evin entrou na mente dela, puxando-a bruscamente de volta a realidade. Gisella encarou as balas em sua mão e depois para sua barriga e chorou. — Eu o perdi. O perdi para sempre, mãe. — Ela disse. — Não. Você não o perdeu. — Evin disse. — Perdi, sim, quando fui covarde e fugi. — Gisella se levantou e foi para seu quarto. Outra maldita lembrança veio na hora errada para atormentá-la mais. Antes… Fazia pouco tempo que Maria estava casada com Kadir, mas estava empenhada em tornar sua vida um inferno.           Sua sobrinha, Larissa veio até a casa dela e com lágrimas nos olhos, segurou as mãos de sua tia e disse-lhe: — Você tem me ajudar, tia? Desde que a mamãe morreu, o papai me abandonou a própria sorte. — Prometo que falarei com ele, querida. — Disse Maria.  Ela não parecia realmente gostar da sobrinha, mas fingia como Miranda. — Não deixarei que falte nada a você. — Eu ainda não entendi porque o papai e você se casaram. Ele me disse que só se casou com você porque é igual a mamãe. Isso é verdade? — Falou Larissa. Maria sentiu vontade de rir e dizer que Kadir nunca amou Suoni e que se a suportou por tanto tempo era só porque Suoni era igual a ela e não o contrário, mas deteve-se para não magoar a sobrinha. Não seria conveniente tê-la contra ela, mesmo que Kadir não desse a mínima para ela porque ele nunca fora paternal. — Querida? Sua mãe e seu pai sempre se amaram e sua mãe sabia disso, por isso, pediu para que eu me casasse com seu pai. Não dizem que gêmeas são especiais e que uma sobrevive através da outra? Eu continuo falando com sua mãe e ela pediu para que eu cuidasse de você. — Falou Maria. — Se falar com a mamãe de novo, pode dizer que eu a amo? — Larissa pediu, emocionada. — Claro, sobrinha, querida. — Maria sorriu, amarelo. — Eu falei com a vovó e… Todos estão irritados com você, tia, porque dizem que você não está cumprindo com suas obrigações. O que querem dizer com isso? — Larissa disse. Maria se irritou porque mais uma vez o maldito do Kadir se fizera de vítima e expusera os problemas íntimos deles aos outros. Como ele se atrevia a reclamar que não houvera uma noite de núpcias se o corpo de Suoni m*l esfriara e Maria ainda estava de luto pela irmã? Mas estava claro que ele não se importava com Suoni. Estava era feliz com a morte dela, mas se achava que Maria não a vingaria, estava enganado. Atualmente… Gisella apertou seu lençol com ódio e teve outra lembrança. Antes… Logo que voltaram do enterro de Suoni, Maria foi até o quarto e voltou com um álbum e um envelope nas mãos e se aproximou de Kadir que estava sentado em uma cadeira no jardim, cabisbaixo. Os outros familiares estavam agrupados em dois e três ao longo do jardim e da varanda, lamentando a morte de Suoni. — Kadir? — Maria o chamou. Ao ouvir a voz dela, ele levantou a cabeça a encarando e sorriu. Nem em um momento como aquele, conseguia disfarçar o quanto a amava. Maria engoliu a seco e decidiu ser direta. — Suoni pediu que eu entregasse isso a você. Kadir olhou rapidamente para o álbum e o envelope nas mãos de Maria e lhe respondeu: — Não me interessa. Jogue fora ou pegue para você. — Mas foi a última vontade dela… Ela escreveu uma carta de despedida a você. — Falou Maria. — Não quero saber. Essa mulher só me trouxe problema, ainda bem que finalmente morreu. Não a suportava mais. — Falou Kadir se levantando e se afastando. — Kadir? Por favor? Volte? — Pediu Maria. Ele continuou caminhando em direção a varanda, mas como ela, o objeto de sua paixão, insistiu em chamá-lo com desespero, ele retornou e a encarou. — Pelo menos, fique com o álbum? — Pediu Maria. — Não. — Kadir disse irritado e se afastou rapidamente. Maria ficou espantada com a frieza e o desprezo que Kadir tratava Suoni, mesmo após sua morte, como se ela fosse lixo. Não podia esperar que alguém como ele a amasse. Nunca. Ele não sabia o que era amor porque sequer era capaz de sentir consideração por aquela que fizera coisas impensáveis por ele. Maria se sentou e folheou o álbum de sua irmã, emocionada. Era daquela forma que se lembraria de sua irmã, bela, sexy e imponente. Sempre. Atualmente… — Eu me casei com um monstro! — Gisella tocou sua barriga. — Não se preocupe, bebê? Não vou entregá-lo nunca para o Kadir. Você é só meu, ainda que me ligue a ele para sempre.
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