Gato e rato

1497 Words
Evin encarou Gisella sem decidir se a deixava ou não sair de casa, afinal, fazia pouco tempo em que ela sofrera uma crise. — Preciso resolver esse problema. Não posso continuar casada com o Kadir! — Falou Gisella. — Não vá! Estou com um mau pressentimento. — Falou Evin. — Eu ficarei bem. Prometo. — Falou Gisella. Evin não se moveu de onde estava, parada em frente à porta. — Mãe, estou pedindo permissão, mas se não me deixar ir, fugirei e você sabe que sou Gisella Houdini! — Ela brincou. — Hendrik nunca me perdoará se algo te acontecer. — Falou Evin e suspirou antes de sair da frente de Gisella. Gisella foi até a casa de Valda e comunicou sua intenção de se divorciar de Kadir. Valda aconselhou que ela repensasse sua decisão por causa da criança que esperava, mas Gisella estava decidida a se separar de Kadir.           Júlia ficou feliz em rever sua irmã e como já fazia algum tempo que as duas não se falavam, decidiram dar uma volta na praça para matarem a saudade. — Já sabe se será menino ou menina? E qual nome dará ao bebê? — Perguntou Júlia. — Não sei. — Gisella disse, desanimada. — Ainda estou pensando em um nome. — Se quiser, posso fazer uma lista para você ter umas opções interessantes. — Júlia disse sorrindo. — Obrigada, Júlia. — Gisella apertou a mão dela. — Gisella? Gisella se virou e viu Kadir se aproximando. Assustada, não pensou duas vezes e saiu correndo, arrastando Júlia consigo. Felizmente, ambas corriam tão velozes quanto o vento porque Kadir era rápido.           Gisella não sabia para onde ia, apenas fugia, se afastando da cidade e se embrenhando na mata. Kadir a perseguia como um lobo faminto. Júlia tentou convencer Gisella a parar, mas ela se recusou. Continuaram correndo até se aproximarem de uma vila modesta, foi quando Kadir finalmente alcançou Gisella, a pegando pelo braço. — Me solta! — Ela gritou. — Solta ela? — Pediu Júlia, sem saber o que fazer. — Por que você está fugindo de mim, meu amor? — Perguntou Kadir, parecendo confuso. — Me solte, seu maluco! Eu quero o divórcio! — Falou Gisella. — Não vou deixar você ir embora, ainda mais esperando um filho meu! — Falou Kadir. — Ah, é? E como pensa em me impedir? Vai me trancar? — Gisella finalmente conseguiu puxar o seu braço. — Pode correr o quanto quiser, mas não conseguirá fugir de mim porque sou mais rápido que você! — Falou Kadir como se a desafiasse. — Pode ir à frente? Vou te dar uma vantagem… Gisella o encarou, comprovando mais uma vez que ele era maluco e se lembrou de uma versão do mito de Apolo e de Dafne onde Apolo perseguia a ninfa e dizia a ela para correr devagar que ele também correria, pois ele não queria que ela se machucasse, isso, com certeza soara assustador, assim como Kadir lhe dizendo para ir à frente porque de qualquer jeito ele a pegaria, como se aquilo fosse só um jogo o qual ele tinha certeza que ganharia. — O que está esperando? — Kadir sorriu. Gisella aceitou o desafio e correu o mais depressa que conseguia. No entanto, quando deixava a vila, ouviu sirenes, e Júlia e ela foram cercadas por policiais. Gisella parou sem entender o que acontecia. Os policiais se aproximaram e sem dizer nada, algemaram as duas e as levaram detidas. Gisella só entendeu o que aconteceu quando Valda e Evandra foram até a delegacia lhe ver.           Alguém assassinou um homem no vilarejo e provocou um incêndio, possivelmente, na tentativa de apagar vestígios de seu crime. Tudo aconteceu rápido e ninguém conseguiu ver quem foi o responsável, mas encontraram próximo ao corpo do homem, uma pulseira de mulher, e uma testemunha viu duas fadas de fora do vilarejo, fugindo. Os silfos não precisaram de muito para acharem que aquilo foi obra das estranhas e as perseguiram. — Não matei ninguém! Com certeza foi o Kadir! Aquele desgraçado! — Falou Gisella.  Tudo parecia se encaixar… Por isso, ele a deixara ir na frente para que tivesse tempo de m***r aquele homem e jogar a culpa nela. Gisella se apavorou em se imaginar sendo condenada por um crime que não cometeu. — Não se preocupe? Tenho certeza que o Kadir fará o possível para tirá-la daqui, querida. — Disse Valda. — E a Juju? — Gisella assumiria a culpa se isso salvasse Júlia. — Expliquei aos policiais que ela é… “Diferente” e eles a soltaram. — Disse Valda, com certo desprezo ao se referir a Júlia. — Eu não sei o que Júlia te disse sobre o Kadir, mas é mentira. Júlia não tem consciência do que se passa ao seu redor e é uma mentirosa compulsiva, a vergonha da família. Nem sei porque a tive! Ela só me traz desgosto! Gisella soltou as grades e recuou, encarando Valda, sem entender como ela podia falar daquela forma da própria filha. Alguns flashes vieram à cabeça de Gisella e ela viu Júlia trancada no quarto, onde passava a maior parte do tempo. Muitas vezes, Maria e ela assumiam, uma a forma da outra – como se fossem gêmeas – para que Júlia pudesse deixar o quarto e respirar, indo ao colégio ou em alguma festa no lugar da irmã. Elas também se deitavam juntas e contavam histórias uma a outra. Eram melhores amigas. “Você é bondosa”, uma voz disse em sua cabeça, mas ela não conseguiu identificar a quem pertencia a voz, se a Júlia ou outra pessoa, se sentou no colchonete no chão e abaixou a cabeça, emocionada. Quando apareceu mais duas vítimas, Gisella foi liberada e livre de qualquer suspeita. Valda insistiu para que Gisella dormisse em sua casa, dizendo que faria bem a Júlia tê-la por perto depois do que aconteceu. Gisella aceitou. Após o jantar, foi para o quarto com Júlia. Ainda estava nervosa e temia que aquilo fizesse m*l ao bebê. Felizmente, Júlia a acalmou quando pediu para conversar com o bebê e tocou sua barriga. As duas conversaram um pouco até adormecerem.           No dia seguinte, Valda insistiu para que Gisella ficasse para o almoço e disse que estava feliz em tê-la ali novamente. Ainda que estivesse com um pé atrás com a mãe fada, Gisella decidiu dar mais uma chance a ela e aceitou ficar para o almoço, mas disse que depois voltaria, pois a mãe elfa certamente estava preocupada.           Gisella e Júlia voltaram para o quarto e Gisella contou a Júlia que enquanto viveu entre os humanos também passou a maior parte de seu tempo trancada no quarto. — Você era como eu? — Perguntou Júlia, surpresa. — Mais ou menos… — Respondeu Gisella. — Eu me isolava porque queria, porque me sentia diferente dos outros. E quer saber? O meu quarto era o meu paraíso, o meu refúgio, o lugar onde nada nem ninguém me faria m*l. Não o via como uma prisão. — Mas você não sentia falta do mundo lá fora? — Júlia perguntou. — Nunca confiei em humanos. — Gisella fez Júlia rir. — Não tinha muita vontade de sair, sabe? Mesmo tudo sendo maravilhoso, detestava me arrastar para fora de casa e ter as pessoas me olhando. — Antes de o mar te levar, você também não gostava de sair e odiava que as pessoas te olhassem, mas você sempre foi tão bonita que era impossível não te olhar. — Júlia disse, tocando o rosto dela. — Queria ser bonita como você! — Você é, irmã. Eu juro. É tão linda quanto um anjo! — Falou Gisella, se emocionando outra vez e riu enquanto enxugava suas lágrimas. — Eu vivo chorando agora, acho que por causa da gravidez. Na hora do almoço quando as irmãs desceram para se juntar aos outros, Gisella encontrou Kadir na sala de jantar. Ele parecia arrasado, especialmente quando a viu. — O que ele faz aqui? Pensei que esse fosse um almoço de família! — Falou Gisella com ódio. — Kadir é da família, ou esqueceu que ele é seu marido? — Falou Valda. — Por pouco tempo! — Falou Gisella. — Por que não comemos em paz, sim? — Falou Evandra. — Me recuso a me sentar na mesma mesa que esse verme! — Falou Gisella. Joseph riu discretamente adorando o barraco. Kadir permaneceu de cabeça baixa, evitando responder a Gisella para não irritá-la ainda mais, mas surtiu efeito reverso, uma vez que ela odiava ser ignorada. — Então é isso? Você não vai dizer nada, infeliz? — Gisella pegou um copo que estava cheio de limonada e jogou todo o suco em Kadir. Ele a encarou, mas não disse nada. — O que é isso, Maria? Ficou louca? — Disse Valda. — E eu quero o divórcio, seu maldito! Infeliz! — Falou Gisella antes de ir embora, furiosa. Não ficaria mais nenhum minuto embaixo do mesmo teto que aquele assassino.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD