Gisella caminhava apressada, ansiosa para voltar para a casa quando uma mulher que se aproximava da casa onde ela acabara de sair, a viu e veio correndo atrás dela.
— Ei? Espere? Por favor?
Gisella parou e se virou, encarando a mulher que lhe era uma completa estranha.
— Sim? Precisa de alguma coisa? — Disse com a voz trêmula. A experiência havia lhe ensinado a não confiar em estranhos, por mais belos que fossem.
— Não está me reconhecendo? Sou Ana Vitória, sua irmã mais velha! — Disse ela, emocionada. — Nossa avó paterna se chamava Ana, por isso, temos esse nome, em homenagem a ela.
Gisella quis dizer alguma coisa, mas a emoção foi tanta que ela não conseguiu dizer nada. Não se lembrou de sua irmã, mas ainda assim, no fundo de sua alma, a reconheceu.
— Quando você morreu, eu fiquei triste, irmã. Chorei muito, pensando que havia perdido você para sempre. — Falou Ana Vitória e pareceu sincera. Segurou as mãos de Gisella e sorriu. — Você já conheceu nossas irmãs, imagino? E o papai? Se não quiser morar com o papai ou com a mamãe, pode morar comigo. Você viria comigo, irmã?
Diante do que sempre desejara – uma irmã –, Gisella achou que nada mais importava senão aquele amor que era único e especial no mundo.
— Pense bem? Pois se vier comigo, você morrerá. — Ana Vitória disse.
— Você…? — Gisella não conseguiu formular a pergunta.
— Sim. Todos estão. — Falou Ana Vitória e meio sem jeito, pegou um vestido amarelo que trouxera em uma sacola e o entregou a Gisella. — Um presente… Espero que goste.
— Obrigada. É lindo! — Falou Gisella encantada com o presente.
Ana Vitória a abraçou.
Aquele reencontro fez bem a Gisella, pois, quando retornou a Ártemis não estava mais com os nervos à flor da pele. Compartilhou suas experiências com Evin e subiu para descansar um pouco. Tão, logo, encostou a cabeça no travesseiro e fechou os olhos, teve outra lembrança…
Antes…
Kadir estava parado em frente a um lago, chorando. Algumas pessoas que passeavam por ali, perceberam o que ele estava prestes a fazer e imploraram para que ele não fizesse aquilo, inclusive Maria, mas ele não podia ouvi-la, muito menos vê-la, porque ela não passava de um fantasma que só fora atraída até ali por causa dos pensamentos obsessivos dele.
— Já que não posso ficar com você, prefiro morrer! — Disse Kadir deliberado e entrou no lago, segurando um cabo de energia.
Maria observou os outros se movendo rapidamente e usando seus poderes para removê-lo da água. Ele foi imediatamente levado para um hospital e ao recobrar a consciência, se desesperou por não conseguir sentir o seu corpo. Os médicos o sedaram e antes que um deles saísse do quarto, Maria tentou falar com ele, saber se Kadir ficaria bem, mas o médico não lhe respondeu.
Esquecendo-se momentaneamente que era um fantasma, Maria seguiu pelos corredores e tentou abordar a todos sem sucesso. Foi até a recepção e sentiu que a recepcionista, apesar de ignorá-la, era a única que parecia se dar conta de sua presença ali.
Frustrada, Maria voltou ao quarto de Kadir e o encontrou deitado de bruços, sem camisa, chorando. Felizmente, ele não estava paralisado como acreditara, foi apenas um susto, pois ele se movera sozinho. Ela se sentou ao lado dele e esfregou suas costas.
— Por que você fez isso? — Ela perguntou, aborrecida.
Agora…
Gisella abriu os olhos, chorando.
Kadir não mentira quando dissera que se matara por ela.
“Eu jurei que esperaria por você, mas não fui forte o bastante e me atirei no mesmo mar que você”, Kadir dissera.
— Ele falhou na primeira, mas não na segunda. — Gisella concluiu antes de outra lembrança invadir sua mente.
Antes…
Maria saiu de um hospital e se aproximou de um menino que ela detestava com fervor. O menino estava sentado em um banco chorando pelo pai que havia morrido. Quando viu Maria se aproximando com uma aura tão sombria, se assustou. Ela disfarçou, se fazendo de amiguinha dele e dizendo falsas palavras de consolo, antes de se afastar.
Maria era amante do pai do menino nessa época e correu para dar entrada nos papéis de adoção da criança, pois se conseguisse se tornar a tutora dele, administraria uma herança milionária. Depois, era só se livrar do maldito pirralho, o mandando para o internato mais distante possível ou cuidando para que ele morresse como o pai.
Agora…
Gisella sentiu uma pontada em sua barriga e foi forçada a se deitar. Ficara muito nervosa com a nova lembrança. Se perguntou se traíra Adrian ou Kadir por dinheiro e sentiu nojo de si mesma por fazer aquilo com uma criança. A lembrança continuou.
Antes…
Maria se livrava de toda e qualquer possível evidência que a ligasse ao crime e Kadir a ajudava. Aliás, fora ele quem assassinara o homem.
Kadir ganhava a vida, principalmente, matando pessoas, entre outras coisas ilícitas. Geralmente, era Suoni quem o ajudava a dar golpes do tipo, mas como ela estava doente, Maria aceitou ajudar Kadir.
Um alarme soou e Maria e Kadir tiveram de fugir do escritório do falecido. Maria pegou dois envelopes e os escondeu em sua blusa, despertando a curiosidade de Kadir. Os dois subiram em uma moto e foram perseguidos por um guarda. Kadir o atraiu para uma armadilha, guiando-o por caminhos cada vez mais desertos. O guarda sofreu um acidente, batendo sua moto. Kadir, ao perceber, deu a volta. Parou e atirou no guarda o matando. Depois, foi embora. Pararam próximo a um circo que aquela hora não estava aberto ao público e desceram da moto.
— Que envelopes são esses que você pegou? — Kadir perguntou se voltando a Maria.
— Que envelopes? Esses? — Maria tirou a blusa e exibiu os s***s sem o menor pudor.
Kadir virou o rosto ligeiro e apenas estendeu a mão, esperando receber o envelope.
— Eu não vi nada! Me dê os envelopes? — Ele disse e sentiu quando ela encostou seu seio na mão dele. — Maria? Para com isso! — Ele recuou, ligeiro.
— Qual o problema, Kadir? Achei que você me queria mais que tudo. — Maria riu e entregou os envelopes a ele.
Kadir rasgou os envelopes e ao perceber o seu conteúdo, se voltou a Maria com ciúmes e disse-lhe:
— Precisava escrever cartinhas românticas para ele? O que é isso?
— Isso é inocente perto do que fizemos quando o pirralho não estava por perto. — Falou Maria sorrindo, maliciosa.
Kadir tirou um isqueiro de seu bolso e queimou as cartas. Se pudesse, ressuscitaria aquele infeliz que tocara em sua Maria e o mataria de novo e de novo. Aquela seria a primeira e a última vez que permitia que ela lhe ajudasse.
Agora…
— Mas… Que d***a! — Falou Gisella respirando com dificuldade enquanto sentia mais dores em sua barriga. Reuniu o pouco de energia que lhe restava e gritou por Evin.
Evin estava no quintal, estendendo roupas e não ouviu Gisella a chamando. Irwan estava no colégio, Hendrik no trabalho e Eldar brincava no jardim, construindo um castelo com cartas de baralho.
Gisella esfregou sua barriga e disse:
— Calma, bebê? Ficará tudo bem. Mamãe te protegerá, anjinho.